O morro não dormia. Mesmo quando a noite envolvia tudo com seu manto escuro, as luzes fracas das casas, o farfalhar das folhas e o murmúrio distante da cidade baixa nunca cessavam totalmente. Mas para Cecília, a noite daquele dia parecia mais pesada. O bilhete deixado no portão da casa de Danilo queimava em sua mente como um aviso c***l: “Sua rainha será o alvo.”
Ela sentou-se na pequena varanda, os olhos fixos na rua deserta, mas a mente longe dali, varrida por pensamentos e medos que não sabia como controlar. O silêncio da casa era quebrado apenas pelo som do relógio antigo na parede. Cada tique-taque parecia o pulsar de seu coração acelerado.
— Cecília? — a voz suave de Lívia a tirou do transe. A irmã mais nova aparecia na porta, com um olhar preocupado. — Você está bem?
Ela forçou um sorriso, mas não conseguiu esconder a tensão.
— Não sei, Lívia... Nunca pensei que as coisas pudessem chegar a esse ponto. — As mãos tremiam enquanto segurava o bilhete. — Eles querem me usar. Querem me transformar na fraqueza do Danilo.
Lívia sentou-se ao lado dela, a expressão firme.
— Você não é fraqueza pra ninguém. Nem para ele, nem para eles. Mas é verdade que estão mirando você porque sabem o quanto ele te protege. Se te atingirem, atingem ele.
— E eu não quero ser essa peça de guerra. — Cecília fechou os olhos, tentando conter a angústia que subia pelo peito. — Eu não sou desse mundo, Lívia. Eu vim do Leblon, da vida fácil, das aparências. E agora estou presa nesse fogo cruzado, onde tudo pode explodir a qualquer momento.
— Você não está presa. Você está viva. E está com a família que escolheu. — Lívia colocou a mão no ombro da irmã. — Mas eu vou falar uma coisa: Danilo não vai deixar nada acontecer com você. Pode apostar.
Cecília olhou para ela, os olhos marejados, mas um fio de esperança começou a se formar.
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No alto do morro, na sala escura iluminada por uma lâmpada suspensa no teto, Danilo reunia seus homens de confiança. A expressão no rosto dele era tensa, como um leão que sente a presa fugindo.
— Isso aqui não é mais só uma disputa territorial — ele começou, a voz firme e baixa. — Ameaçaram Cecília. Usar ela para me atingir. Isso não pode acontecer.
Subir, o braço direito de Danilo, cruzou os braços, com a testa franzida.
— Reforcei a segurança dela. Dois homens ficam na casa dela 24 horas, e o Lucas está sempre por perto. Mas a gente precisa ir além.
— Não basta só proteger — Danilo replicou. — Quero saber quem está por trás disso. Quem tem a coragem de fazer uma ameaça tão clara.
Ivan, que até pouco tempo era um inimigo, agora tentava se redimir. Ele sabia o preço da traição e entendia a gravidade da situação.
— Pode contar comigo para descobrir isso, Danilo. Não vou deixar ninguém desestabilizar o morro.
— Eu quero resultado, Ivan. Nada pode falhar.
A tensão na sala era palpável, como se todos soubessem que estavam numa encruzilhada perigosa, onde qualquer passo errado poderia custar caro.
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Enquanto isso, Cecília tentava manter a rotina, mas o medo estava sempre presente, um companheiro indesejado que não se afastava.
Numa tarde quente, ela caminhava pelas vielas com Lívia. Queria entender mais sobre aquele mundo, conhecer as pessoas, mostrar que não tinha medo. Mas no fundo, sentia cada olhar estranho, cada cochicho, como punhais invisíveis.
— Cuidado, Cecília — disse uma voz áspera atrás delas. Era uma mulher magra, com olhos fundos e pele marcada pelo tempo. — Eles estão falando. Dizem que você é só um ponto fraco. Que querem te usar pra atingir o Danilo.
— Quem disse isso? — Cecília perguntou, tentando parecer firme.
— Não sei. Só ouvi. Mas não são boas notícias.
Lívia segurou a mão da irmã, determinada.
— A gente vai descobrir quem está mexendo nessa toca de cobra.
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Naquela noite, enquanto o morro parecia descansar, Danilo apareceu na casa de Cecília sem avisar. Ela estava na cozinha preparando algo para o jantar quando ouviu a porta se abrir.
— Danilo! — ela disse, surpresa e preocupada.
Ele entrou, tirou o boné e encostou-se na parede, os olhos intensos.
— Precisa parar de andar sozinha. — A voz dele tinha um tom severo, quase um aviso. — Não posso garantir que não vão tentar te fazer m*l.
— Eu não sou criança. — Cecília cruzou os braços. — Não quero viver trancada.
Ele deu um passo em sua direção, o olhar frio.
— Vai precisar ser forte. Porque o que está vindo é pior do que imagina.
O silêncio entre eles era carregado. Ela sentiu o peito apertar, como se o mundo tivesse se encolhido para caber ali, naquele momento.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você. — Ele sussurrou, quase um juramento.
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Nos dias seguintes, as investigações de Danilo e seus homens revelaram pistas preocupantes. Não se tratava apenas de uma facção rival tentando retomar território; havia inimigos infiltrados, pessoas dentro do próprio morro que queriam vê-lo fracassar.
— Traição dentro de casa — disse Subir, passando os olhos por um mapa rabiscado.
— Quero nome, cara, quero prova. — Danilo parecia exausto, mas nada diminuía sua determinação. — Se tem alguém querendo me derrubar, vai pagar caro.
Ivan concordou.
— Ninguém mexe com o morro impunemente.
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Mas as ameaças não paravam. Numa madrugada silenciosa, Cecília acordou com barulhos estranhos do lado de fora da casa. Passos apressados, vozes baixas.
Ela olhou pela janela, o coração acelerado, e viu duas sombras se movendo perto do portão.
— Danilo! — chamou baixinho, tentando não fazer barulho.
Em segundos, ele apareceu, arma em punho.
— Quem está aí? — ordenou, com voz firme.
Nenhuma resposta, apenas o silêncio pesado da noite.
— Devemos ficar atentos. — Ele disse, passando a mão nos cabelos, nervoso. — Isso não é só ameaça. É aviso.
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Na manhã seguinte, Danilo recebeu uma ligação anônima. A voz fria do outro lado da linha era ameaçadora.
— Quer proteger sua rainha? Então saiba que ela não está segura nem no seu próprio refúgio.
Danilo apertou o telefone com força.
— Quem é você?
Silêncio. Só silêncio.
Ele sabia que a batalha estava apenas começando. Que o preço por amar uma mulher como Cecília poderia ser alto demais.
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À medida que os dias passavam, Cecília sentia o medo crescer, mas também a certeza de que não estava sozinha. Danilo se tornava mais presente, mais protetor, mesmo quando tentava esconder sua vulnerabilidade atrás da máscara de homem implacável.
Em cada encontro, em cada gesto, eles construíam algo frágil e verdadeiro no meio daquele caos. E talvez fosse isso que os inimigos temiam — não apenas a força do morro, mas o que Cecília e Danilo representavam juntos.
O morro, com seus perigos e desafios, não era só território, era lar. E ela estava disposta a lutar por ele — e por ele.