Cinzas e Recomeços

859 Words
O silêncio que se abateu sobre a caverna de cristal após a morte de Malakor era quase ensurdecedor. Não era o silêncio de paz, mas o de um vácuo deixado por uma tempestade que acabara de levar tudo o que encontrou pelo caminho. Lyra sentia o peso do corpo de Alaric contra o seu, ambos ancorados um ao outro enquanto o calor da Fusão Prateada se dissipava, deixando apenas o frio cortante da montanha e o cheiro metálico de magia queimada. Alaric foi o primeiro a se mover. Ele se afastou o suficiente para olhar o rosto de Lyra, suas mãos — agora com a pele limpa daquela pigmentação acinzentada — segurando os ombros dela com uma delicadeza que beirava a reverência. — Acabou — ele sussurrou, a voz ainda rouca. — Ele se foi. Mas o que ele deixou para trás... — Ele deixou um reino sem guia, Alaric — Lyra completou, sentindo a exaustão física tentar nublar seu raciocínio. — E um povo que agora sabe que o Príncipe das Sombras pode ser algo mais do que um carrasco. Eles se levantaram com dificuldade, caminhando sobre os restos de Malakor e das Sentinelas Cegas. Ao saírem da caverna, o ar do lado de fora parecia menos hostil, embora a neve ainda caísse em flocos densos. Lá embaixo, no Vale das Cinzas, os exilados começavam a sair de seus esconderijos, olhando para o alto da montanha em busca de um sinal. Lyra parou na beirada do despenhadeiro, observando o horizonte onde Oakhaven se encontrava com as fronteiras distantes de Veridian. — Como psicóloga, eu deveria dizer que precisamos de tempo para processar o trauma — começou ela, dando um sorriso melancólico. — Mas, como princesa de um reino que foi reduzido a cinzas por sua causa, eu sei que não temos esse luxo. O Conselho das Sombras ainda tem membros remanescentes. O exército de Oakhaven ainda está nas fronteiras de Veridian. Alaric parou ao lado dela, seu perfil aristocrático recortado contra o céu cinzento. — Eu não posso devolver o que tirei de você, Lyra. As cidades queimadas, as vidas perdidas... meu sangue sempre estará manchado por isso. Mas Malakor estava certo sobre uma coisa: o equilíbrio foi quebrado há mil anos, e nós fomos as peças usadas para forçar uma cura. Ele se virou para ela, e pela primeira vez, não havia o muro de gelo que definira sua interação desde o banquete. — O que você quer fazer? Se quiser ir embora, se quiser voltar para o que restou de Veridian e tentar reconstruir seu lar sozinha, eu não vou impedi-la. As sombras não têm mais poder sobre você. Eu não tenho mais poder sobre você. Lyra sentiu o aperto no peito. A liberdade estava ali, ao alcance de sua mão. Ela poderia pegar um cavalo, cruzar as montanhas e nunca mais olhar para trás. Mas, ao olhar para Alaric, ela não via mais o invasor. Via o homem que a segurou no abismo, o homem que permitiu que ela entrasse em sua mente e redecorasse sua escuridão. — Você acha que eu sobrevivi a tudo isso apenas para fugir? — Lyra deu um passo à frente, invadindo o espaço dele. — Eu passei minha vida estudando as feridas da alma, Alaric. E Oakhaven é a maior ferida que já vi. Se eu for embora agora, deixo um rei que acabou de descobrir sua humanidade sozinho com um trono de espinhos. — Você está dizendo que... vai ficar? — O choque nos olhos de Alaric era quase infantil, uma vulnerabilidade que fez o coração de Lyra disparar. — Estou dizendo que o Pacto das Sombras e do Sol ainda não terminou. — Ela estendeu a mão, não para curá-lo, mas apenas pelo desejo do toque. — Veridian não pode renascer sem a proteção de Oakhaven. E Oakhaven vai se consumir no próprio Vazio sem a luz de Veridian. Nós somos o novo equilíbrio, Alaric. Quer você queira ou não. Alaric segurou a mão dela, entrelaçando seus dedos. O contato era morno, real e seguro. — Então não seremos mais rei e prisioneira. Seremos... — Sócios em uma reconstrução impossível — Lyra brincou, embora seus olhos estivessem úmidos. — E talvez, com o tempo, possamos descobrir o que existe entre nós quando não estamos tentando nos matar ou nos salvar. Ele a puxou para perto, e o beijo que trocaram ali, no topo da montanha gelada, foi o primeiro que não foi motivado por necessidade mágica ou desespero de sobrevivência. Foi uma promessa. — O povo está esperando, meu Príncipe — Lyra sussurrou contra os lábios dele. — Então vamos dar a eles algo que nunca viram — Alaric respondeu, seus olhos brilhando com uma nova determinação. — Vamos dar a eles uma Rainha que não tem medo das sombras. Enquanto desciam a montanha em direção ao Vale das Cinzas, Lyra sabia que os desafios à frente seriam monumentais. Haveria resistência, haveria política e haveria o fantasma de Veridian assombrando cada passo. Mas, enquanto sua mão estivesse na de Alaric, ela sabia que nenhuma escuridão seria profunda o suficiente para apagar o fogo que haviam acendido juntos.
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