O Brinde de Cinzas
O perfume de sândalo, que um dia fora o símbolo da elegância e da paz inabalável do palácio de Veridian, agora estava sufocado por uma mistura metálica e acre de sangue seco, fuligem e o cheiro de ozônio que a magia de guerra deixava para trás. Para Lyra, aquele aroma era o epitáfio de sua linhagem. Ela caminhava pelo salão principal, mas seus pés, que conheciam cada imperceptível ranhura daquele mármore desde que aprendera a andar, pareciam estranhos ao solo que agora estava manchado por poças escuras e gélidas.
As tapeçarias centenárias, que narravam em fios de ouro a glória de seus ancestrais e as vitórias de um reino que se acreditava eterno, haviam sido rasgadas por lâminas bárbaras, pendendo das paredes como gigantes feridos. Lyra forçou cada músculo do seu pescoço a se manter rígido. Como alguém que estudara as nuances da psique humana para entender como os líderes se mantinham de pé sob pressão, ela sabia que a linguagem corporal era sua última linha de defesa. Seu pai sempre dizia que uma rainha não é definida pela coroa, mas pela forma como encara a forca. Sob a seda esmeralda do vestido — o último vestígio de uma vida de luxo que parecia ter pertencido a outra pessoa — suas mãos travavam uma batalha silenciosa; as unhas cravavam na palma da mão com tanta força que o ardor da dor física era a única coisa que a impedia de desabar em um pranto inútil na frente dos conquistadores.
O silêncio do salão, antes preenchido por risos, debates políticos e o som doce das harpas, foi subitamente estilhaçado pelo som rítmico, pesado e metálico de botas de combate contra o mármore. O eco anunciava a chegada dele muito antes que sua sombra cruzasse o portal monumental de carvalho.
Alaric, o Príncipe de Oakhaven, entrou no recinto sem a ostentação de uma coroa ou joias cintilantes. Ele não precisava de ouro para projetar autoridade; sua própria presença parecia sugar o calor do ambiente, transformando o ar em algo denso e difícil de respirar. Ele vestia uma armadura de escamas negras que parecia feita de obsidiana viva, capaz de absorver as chamas trêmulas das poucas tochas que ainda resistiam nas paredes. Atrás dele, o ar oscilava em uma névoa sombria e pulsante — uma energia do vazio que os boatos nos mercados de Veridian diziam ser a própria morte manifestada em forma de magia n***a.
Ele parou a exatos três passos dela. A distância era um insulto calculado, um limite psicológico que ele estabelecia para mostrar quem detinha o controle absoluto da situação.
— Princesa Lyra — a voz dele era um barulho grave, como o gelo de um lago rachando sob o peso de um inverno impiedoso. — Você parece terrivelmente disposta a lutar por alguém que acaba de perder tudo, do trono aos lençóis de seda onde costumava dormir sem preocupações.
Lyra sentiu o hálito frio dele atingir seu rosto, trazendo um calafrio que percorreu sua espinha de forma elétrica. Ela buscou qualquer sinal de hesitação ou luxúria naqueles olhos azuis tão pálidos que pareciam esculpidos em cristal glacial, mas não encontrou nada além de uma determinação letal e um vazio profundo que a assustava mais do que a própria guerra.
— Eu não perdi minha honra, Alaric — ela cuspiu o nome dele, sentindo o sabor amargo da audácia na língua. — Diferente de você, que precisa de exércitos, sangue e correntes para conseguir que uma mulher aceite olhar no seu rosto sem sentir um impulso imediato de náusea.
Um sorriso lento, desprovido de qualquer calor humano, surgiu nos lábios dele. Alaric deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Lyra de uma forma predatória que a obrigou a sustentar o olhar para não parecer acuada. Ele era uma muralha de gelo e músculos. Alaric estendeu a mão enluvada, parando a milímetros da bochecha dela. Ele não a tocou — nunca a tocava —, mas a proximidade fez os pelos dos braços dela se arrepiarem em uma resposta instintiva que ela odiou profundamente. Como uma analista da mente, ela sabia que seu corpo estava reagindo ao perigo iminente, mas havia algo mais naquela reação: uma faísca de adrenalina que a fazia se sentir estranhamente viva em meio aos mortos.
— Correntes podem ser feitas de ouro, princesa. E o seu reino... — ele olhou ao redor, para as ruínas fumegantes e o teto destruído do palácio — ...seu reino é apenas um túmulo a céu aberto agora. Você prefere reinar sobre o entulho e as cinzas do passado ou ser a soberana de um império que ainda respira, mesmo que sob a minha sombra e os meus termos?
— Eu prefiro ver você morto em uma vala comum, apodrecendo com o resto da sua ambição — ela sussurrou, a voz carregada de um desejo sombrio de vingança que quase superava o pavor.
— Uma resposta admirável e esperada de alguém com o seu temperamento inflamado — ele se aproximou ainda mais, o rosto agora tão perto que Lyra podia ver as cicatrizes quase imperceptíveis em sua mandíbula, marcas de batalhas que o ouro não podia esconder. — Mas pouco prática. Para salvar o pescoço dos seus generais restantes e garantir que seu povo não morra de fome neste inverno impiedoso, você vai assinar o contrato de casamento agora mesmo. E à noite, você partirá comigo para as Terras do Norte.
Lyra sentiu o peso das vidas de seu povo sobre seus ombros. O nó na garganta quase a impediu de falar, mas ela precisava saber o motivo daquela obsessão.
— Por que eu, Alaric? — ela perguntou, sua voz falhando por um breve e traidor segundo antes de se recompor. — Você tem metade do continente sob suas botas. Tem ouro, terras e poder. Por que exigir o meu casamento se você claramente despreza tudo o que eu represento?
Alaric finalmente baixou a mão, mas seu olhar desceu pelo corpo dela, desde o decote do vestido esmeralda até a ponta dos pés, com uma intensidade que a fez se sentir despida e vulnerável.
— Porque você tem algo que eu preciso, Lyra. Algo que corre nas suas veias e que você ainda nem compreende em sua totalidade. E eu pretendo tirar isso de você, capítulo por capítulo, noite após noite, até que não reste nada além da verdade nua entre nós dois.
Ele se virou bruscamente, a capa n***a chicoteando o ar frio como a asa de um corvo agourento.
— Prepare suas poucas malas. O sol se põe em duas horas. Se não estiver no portão principal quando o último raio de luz sumir do horizonte, eu darei a ordem aos meus homens. E você assistirá pessoalmente enquanto eu transformo o resto deste palácio em um necrotério definitivo.
Lyra ficou sozinha no salão em ruínas, o som do próprio coração batendo nos ouvidos como um tambor de guerra. Ela levou a mão à coxa, sentindo o frio reconfortante do metal da adaga de prata escondida sob a seda do vestido. O casamento era uma sentença, sim. Mas se Alaric achava que ela seria uma noiva dócil e quebrada, ele estava prestes a descobrir que algumas feras são muito mais perigosas quando estão encurraladas e não têm mais nada a perder.