O cair da noite trouxe consigo um frio que Lyra nunca imaginara existir, nem nos piores contos de terror contados pelas amas de Veridian. Não era apenas o gelo do inverno das Terras do Norte; era um frio que parecia emanar das próprias paredes de ébano da carruagem real, um veículo que agora exibia o brasão de Oakhaven onde antes floresciam os lírios de sua família. Sentada no banco de couro rígido, ela observava através da janela de cristal as luzes de sua cidade natal desaparecerem no horizonte, transformando-se em brasas moribundas de uma civilização que fora engolida pela escuridão em uma única tarde de sangue.
À sua frente, sentado em um silêncio absoluto que era mais ensurdecedor do que qualquer grito de agonia, estava Alaric.
Ele não havia desviado o olhar dela desde que cruzaram os portões do palácio. O balanço rítmico da carruagem sobre a estrada de terra irregular e pedregosa fazia com que o espaço entre eles diminuísse a cada solavanco. Era uma dança involuntária e torturante; a cada movimento brusco, os joelhos de Lyra roçavam nos dele, e o tecido fino de seu vestido de seda esmeralda não era barreira suficiente para a aura gélida que o Príncipe exalava. Parecia que ela estava sentada diante de um bloco de gelo esculpido em forma de homem.
Como uma estudiosa da mente humana, Lyra tentava desesperadamente usar suas ferramentas de análise para não sucumbir ao pânico. Ela observava a postura dele: os ombros eram excessivamente largos, mantidos em uma rigidez que sugeria um controle muscular absoluto. Ele não tinha tiques, não demonstrava cansaço e sua respiração era tão lenta que m*l movia o peitoral da armadura. Alaric era um enigma psicopático ou uma estátua de contenção? Para Lyra, o silêncio dele era uma forma de tortura psicológica, um jogo de poder onde ele esperava que ela quebrasse primeiro.
— Se olhar pudesse matar, princesa, eu já estaria enterrado sob três metros de neve antes mesmo de cruzarmos a fronteira de Veridian — Alaric quebrou o silêncio subitamente. Sua voz, grave e cortante, pareceu vibrar dentro da pequena cabine, roubando o pouco oxigênio que restava.
— Você merece muito mais do que uma cova rasa, Alaric — Lyra rebateu imediatamente, cruzando os braços sobre o peito para esconder o tremor que percorria seu corpo, uma mistura de frio cortante e adrenalina pura. — Merece ser apagado da memória deste mundo, assim como tentou apagar a história e a dignidade do meu povo. Você é um vírus, e vírus não merecem monumentos.
Ele soltou um suspiro curto, um som seco que quase se assemelhava a um riso sem qualquer vestígio de humor ou humanidade. De repente, Alaric inclinou-se para a frente, invadindo o espaço vital de Lyra de forma tão abrupta que ela se encolheu contra o encosto do banco. O coração dela martelava contra as costelas com tamanha força que o som parecia preencher a carruagem. Ele estendeu a mão enluvada e, por um segundo aterrador, ela achou que ele finalmente a tocaria, quebrando sua própria regra tácita. Seus dedos pararam no ar, pairando a milímetros do rosto de Lyra, e ela notou um detalhe que a paralisou de terror: as luvas de couro n***o dele pareciam deixar um rastro de fumaça cinzenta no ar frio, como se o toque dele fosse capaz de incinerar a própria atmosfera.
Sem dizer uma palavra, ele puxou uma manta de pele de lobo pesada que estava no banco ao lado e a jogou sobre as pernas dela com um movimento desnecessariamente brusco.
— Cubra-se. Não quero que minha noiva morra congelada no primeiro dia de viagem. Seria um desperdício burocrático imenso ter de queimar o contrato de casamento e explicar ao meu Conselho que a Grande Chama de Veridian era, na verdade, uma garota frágil demais para o vento do norte.
— Por que se importa tanto com a burocracia, Alaric? — Lyra estreitou os olhos, buscando qualquer rachadura naquela máscara de indiferença. — Você age como se o toque humano fosse um crime capital. Como se tivesse um medo mortal de sentir o calor de outra pele. Do que você tem tanto medo? De descobrir que ainda é humano por baixo dessa armadura de sombras?
O olhar de Alaric escureceu no mesmo instante, as pupilas dilatando de tal forma que o azul pálido de seus olhos quase desapareceu, restando apenas um abismo n***o.
— Para mim, Lyra, o toque não é um luxo, um carinho ou um gesto de consolo. É uma sentença de morte para quem recebe e um fardo insuportável para quem dá.
Antes que ela pudesse questionar o significado daquelas palavras sombrias, a carruagem passou por um buraco profundo no caminho montanhoso. O solavanco foi violento e inesperado, jogando o corpo de Lyra para a frente com força total. Por puro instinto de sobrevivência, ela estendeu as mãos para se apoiar em qualquer coisa sólida e suas palmas bateram com força contra o peito largo e rígido de Alaric.
O tempo pareceu parar.
No momento em que a pele de Lyra entrou em contato com o tórax dele — mesmo através das camadas de linho e couro da túnica —, um som gutural e animalesco escapou da garganta de Alaric. Não era um gemido de dor comum, mas um rosnado de puro esforço, como se ele estivesse tentando segurar uma fera selvagem dentro de si.
Sob os olhos horrorizados de Lyra, sombras visíveis e densas como tinta preta começaram a serpentear pelos braços do príncipe, saltando sob a sua pele como veias pulsantes de escuridão pura. O frio que emanava dele tornou-se subitamente insuportável, um vácuo que parecia sugar a própria vida dos pulmões de Lyra.
Alaric segurou os pulsos dela com uma força bruta, os dedos dele apertando a pele fina de Lyra com um desespero controlado. Ele a empurrou de volta contra o banco oposto com tal violência que ela perdeu o fôlego.
— Nunca — ele sibilou, a respiração agora ofegante e pesada, os olhos completamente negros e transbordando uma energia que desafiava todas as leis da lógica. — Nunca mais ouse tocar-me sem o meu consentimento explícito. Se prezas pela tua vida e pela alma que ainda carregas, mantém as tuas mãos longe de mim, ou eu não responderei pelo que sobrar de você quando as sombras terminarem de se alimentar.
Lyra ofegou, o peito subindo e descendo com rapidez enquanto tentava recuperar o ar. Ela olhou para os próprios pulsos sob a luz bruxuleante da lanterna da carruagem; onde ele a segurara, a pele estava pálida, quase cinzenta, com a textura de cinzas frias. O calor natural de seu corpo parecia ter sido drenado. No entanto, enquanto a adrenalina baixava, sua mente analítica começou a conectar os pontos.
Ele não era apenas um conquistador c***l. Ele era uma bomba-relógio, um homem acorrentado por um poder que o consumia de dentro para fora. E, por alguma razão que ela ainda desconhecia, a presença dela — o "algo" que ele mencionara no palácio — era a única coisa capaz de estabilizar aquele caos ou de fazê-lo explodir de vez.
A carruagem finalmente parou diante de portões de ferro monumentais que rangiam com o peso dos séculos. Alaric recuperou a compostura com uma velocidade assustadora, as sombras recuando para dentro de sua pele como serpentes voltando para o ninho.
— Bem-vinda ao teu novo lar, Lyra — disse ele, voltando à sua máscara de indiferença gélida enquanto abria a porta. — Tenta não te perder nos corredores. Há portas neste castelo que foram seladas por uma razão. Se as abrires por curiosidade tola, nem eu poderei salvar-te do que vive lá dentro.
Ele saiu da carruagem sem olhar para trás, deixando-a sozinha com o eco de suas ameaças e a descoberta de que seu "marido" era muito mais do que um monstro — ele era um segredo que ela, apesar do perigo de morte, estava desesperada para desvendar.