Entre Sombras e Seda

1360 Words
O Castelo de Oakhaven não era apenas uma construção de pedra e argamassa; era uma extensão arquitetônica da alma de Alaric. Erguido sobre um penhasco de rocha n***a que se projetava contra o céu noturno como uma mão esquelética tentando agarrar as estrelas frias, o lugar exalava uma hostilidade silenciosa. Enquanto Lyra subia a escadaria imensa de granito bruto, ladeada por guardas cujos rostos estavam ocultos por elmos de ferro fosco, ela sentiu o peso opressor daquele lugar. O ar era espesso, carregado com um magnetismo estático que fazia os pequenos pelos de sua nuca se arrepiarem, como se a própria atmosfera estivesse carregada de eletricidade antes de uma tempestade. Ao cruzar o portal de ferro reforçado, Lyra não encontrou o calabouço úmido e fétido que sua imaginação, alimentada pelo medo, projetara. Em vez disso, o salão principal era uma obra-prima de uma beleza cadavérica e sofisticada. Candelabros de prata antiga, esculpidos em formas que lembravam galhos secos de árvores mortas, sustentavam centenas de velas de cera n***a. As chamas não oscilavam com as correntes de ar; elas pareciam queimar com uma persistência antinatural. As paredes eram adornadas com tapeçarias de veludo tão escuro que pareciam buracos negros na parede, e Lyra juraria ter visto vultos bordados se moverem pelo canto do olho — figuras que pareciam observar sua chegada com um julgamento silencioso e ancestral. — Seus aposentos ficam na Ala Leste — a voz de Alaric ressoou, fria e desprovida de qualquer traço de hospitalidade, ecoando pelas abóbadas altas e frias. Ele caminhava alguns passos à frente dela, a capa n***a chicoteando o chão com um som que lembrava o bater de asas de um corvo. — É a única parte do castelo onde o sol consegue tocar por alguns minutos pela manhã. Aproveite esse breve momento, princesa, pois será a única luz que verá por um bom tempo neste reino. Lyra parou abruptamente, seus pés latejando após a longa e tensa jornada, mas sua mente trabalhava freneticamente. Como alguém que passou os últimos anos mergulhada em textos sobre a psique e o comportamento humano, ela começou a mapear o layout do castelo não apenas fisicamente, mas como o reflexo de um trauma. — Por que me isolar na Ala Leste, Alaric? — ela perguntou, sua voz projetando uma firmeza que ela não sentia de verdade. — É uma tentativa de me manter longe de você, ou é um esforço desesperado para garantir que eu não descubra o que você esconde nas alas onde o sol nunca chega? Alaric parou de imediato. O movimento foi tão súbito que Lyra quase colidiu com suas costas largas. Ele se virou lentamente, e a luz bruxuleante das velas destacou a cicatriz fina que cruzava sua sobrancelha esquerda, dando-lhe um ar de vulnerabilidade que ele claramente detestava. Por um milésimo de segundo, os olhos azuis dele se encontraram com os dela, e Lyra viu algo ali: não era apenas ódio, era um aviso silencioso de alguém que estava se afogando. — É para mantê-la viva, Lyra. — Ele deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância até que o frio sobrenatural que ele exalava começasse a entorpecer as bochechas dela. — No meu reino, a curiosidade não é uma virtude que recompensamos com respostas. É um atalho direto para o necrotério. Aprenda a não fazer perguntas para as quais você não está preparada para ouvir a resposta. Ele fez um sinal imperceptível para uma governanta que esperava nas sombras de um arco. A mulher, de rosto severo e pele que parecia pergaminho antigo, vestia um traje de um cinza tão monótono quanto o céu de Oakhaven. — Leve-a. Prepare-a convenientemente. O banquete de núpcias será servido em uma hora, na sala privada. Apenas nós dois. Lyra foi conduzida por corredores que pareciam sussurrar seu nome. O som de seus sapatos no chão de pedra ecoava de forma solitária. No quarto, ela encontrou algo que a deixou momentaneamente sem fôlego. Sobre a imensa cama de dossel de madeira n***a, repousava um vestido que parecia tecido com a própria essência da noite. O veludo era tão profundo que parecia absorver a luz do quarto, mas o que a chocou foi o detalhe nos ombros e no decote: bordados de fios de ouro puro que formavam, com precisão c***l, o brasão de Veridian. Era um gesto de respeito ou uma última humilhação? Vestir as cores de seu reino caído enquanto estava presa no coração do inimigo era um paradoxo psicológico que a deixava tonta. Enquanto a governanta — que se apresentou apenas como Martha — a ajudava a se vestir em um silêncio absoluto e gélido, Lyra observava seus próprios pulsos no espelho de prata polida. As marcas que Alaric deixara na carruagem ainda estavam lá. Não eram roxas como hematomas comuns; eram de um cinza pálido, como se a vitalidade daquela pele tivesse sido sugada por um aspirador de energia. No entanto, estranhamente, onde ele a tocara, ela sentia um formigamento persistente. Não era dor. Era uma espécie de conexão elétrica, um eco daquela escuridão que ela sentira pulsar sob a pele dele. "Ele é um paradoxo vivo", ela pensou, enquanto Martha apertava as amarras do espartilho com uma força que quase lhe tirava o ar. "Ele destrói o que toca, mas se deu ao trabalho de ordenar que o brasão da minha família fosse bordado em meu vestido de noiva. Ele quer me quebrar ou quer que eu o salve de si mesmo?" Uma hora depois, Lyra entrou na sala de jantar privada. A mesa era excessivamente longa para apenas duas pessoas, colocando-os em extremidades opostas, como dois generais em uma trégua frágil. O silêncio era preenchido apenas pelo estalar da lareira — que queimava com chamas estranhamente azuis — e pelo som do vinho tinto sendo servido em cálices de cristal escuro. Alaric a observou entrar. Pela primeira vez, ela viu uma rachadura real em sua máscara de gelo. O olhar dele percorreu o vestido lentamente, parando nos bordados de ouro. Por um segundo, a escuridão nos olhos dele pareceu retroceder, revelando um azul profundo, atormentado e terrivelmente humano. — O vestido... — ela começou, sua voz soando pequena no salão imenso. — Foi um aviso, Lyra — ele interrompeu, recuperando a frieza habitual com uma velocidade clínica. — Para que você nunca esqueça quem você era, e para que entenda exatamente a quem você pertence agora. Você é o troféu de Oakhaven, mas ainda carrega o fogo de Veridian. Tente não deixar que ele se apague tão cedo. Ele levantou sua taça de cristal, mas não bebeu. Ele apenas a segurou entre os dedos longos, observando o reflexo de Lyra no líquido escuro. — Um brinde, princesa. Ao nosso casamento de conveniência e às sombras que, a partir de hoje, compartilharemos. Que você aprenda rápido que, neste castelo, o amor é uma fraqueza que nenhum de nós pode se dar ao luxo de ter se quisermos sobreviver ao que está por vir. Lyra pegou sua taça, os dedos firmes apesar do caos que reinava em seu peito. Ela não ficou sentada. Em vez disso, caminhou lentamente pela extensão da mesa, desafiando a distância física e psicológica que ele tentava impor. Ela parou ao lado dele, sentindo o cheiro de sândalo e o frio sobrenatural voltando a envolvê-la como um abraço de gelo. — Eu não acredito em amor, Alaric — ela disse, inclinando-se para que apenas ele pudesse ouvir, sua voz carregada de uma promessa perigosa. — Minha formação me ensinou que o amor é apenas uma reação química para garantir a espécie. Mas eu acredito piamente em sobrevivência. E se eu tiver que queimar este castelo inteiro, pedra por pedra, para encontrar o coração que você tenta tanto esconder sob essa armadura, eu o farei sem hesitar. Pela primeira vez desde que se conheceram, Alaric não recuou. Ele inclinou a cabeça na direção dela, os lábios perigosamente perto do pescoço de Lyra, onde ele podia sentir a pulsação acelerada dela. — Então comece a riscar os fósforos, Lyra. Mas tenha cuidado... você pode acabar se transformando em cinzas antes mesmo de encontrar qualquer centelha de humanidade em mim.
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