Capítulo1
Capítulo 1
Kevin Monteiro
Silêncio...
Nunca fui algo bom... Não na favela
Quem mora no morro sabe: paz demais é tipo céu vermelho. É o aviso que vem antes da desgraça. E aquela noite, a Penha tava quieta demais.
O ar parecia mais pesado, como se o próprio morro espiritual estivesse prendendo a respiração. Nenhum grito de moleque correndo entre as vielas, nenhum escapamento estourando...
— Aí, c*****o! Desce aqui! — a voz do MM cortou o ar como rajada.
Prendi o cabelo num coque alto, os fios negros caindo pesados enquanto o corte raspado nos laterais deixou à mostra minha marca: uma mão de caveira seguindo uma rosa com espinhos. Merda que tatuei quando era moleque, achando que ia ser o terror da rua. Hoje, só serve pra lembrar que burrice também é pra sempre. E se arrependimento matasse... Estaria igual ao X9 da semana retrasada, embaixo de sete palmos de terra.
Antes de descer a escada toda, reparo no quão a Penha é linda vista de cima. Pra quem olha, nem parece que é cheia de problemas sociais, de guerras e de tudo o que há de r**m para uma comunidade.
Passei a mão na Glock, conferi o peso. Sempre no mesmo lugar, na cintura, por baixo da camiseta preta. Desci as escadas de concreto, estreitas, pardes sujas e cheias de umidade e cheiro de poeira.
— E aí? — falei, chegando perto — esperando não ser perda de tempo.
MM tava encostado no corrimão, com o celular na mão, rindo de canto. Pequeno do meu lado, mas só de aparência. Um e setenta no máximo, magro, cara de quem ainda pede RG na porta do bar. Mas por dentro, era o capeta. Antes de ser chamado de MM ou 02, os muleques gostava de chamar de Pit... Uma brincadeira pra dizer que ele é meu cão de guarda. Se pá sou respeitado mais por medo do que esse baixinho pode fazer.
— Reparou a paz, Don? — disse ele, com aquele ar debochado. — Isso está me incomodando. Cadê os tiro? Polícia subindo o morro?!
— p***a, criança morrendo, morador inocente... escolas e comércios fechados. Gosta dessas porras?
— Não, tem essa parada aê, mas entendeu, chefia! Curto ação!
—Tá viciado em adrenalina, transa com uma mina sem camisinha, ou com um doente... Fala logo!
Antes de dar o play no áudio, MM armou uma cara de mó poucas ideias. A voz que saiu do celular não durou nem deixou segundos, mas foi o bastante para me fazer sentir o sangue subir. A respiração ficou pesada. Sabia que a casa cairia, e que algo de muito r**m ia rolar
— Que p***a é essa? — perguntei, encarando ele.
— Tá vindo merda aí, Don. Grande. Gostosa — ele lambe os beiços como um cão olhando um bife.
Fiquei em silêncio, olhando pra ele. MM seguiu o sorriso como quem gostou de ver o circo pegar fogo. E ele gosta!
— Cadê o Mulan? — perguntei, seco.
— Sei lá, não tô colado com ele, p***a!
Revirei os olhos, mas respirei fundo. Só não mando ele tomar no cu porque, por mais abusado que fosse, era meu braço direito.
— Dá teus pulsos. Quero ele aqui em dez minutos.
Ele largou o celular no bolso, passou a mão na cintura e sorriu.
— Já tô no corre, patrão... mas cê sabe, né? Se der r**m, eu vou ser o primeiro a atirar.
— MM... — olhei fixo pra ele — ...não quero tiro agora. Quero o Mulan aqui! Depois nós resolve o que tem pra resolver, primeiro o cara.
— Mas e se...?
— Mas e se o c*****o, p***a! Vou ter que te treinar outra vez? Ordem é ordem, p***a!
Ele soltou uma risada meio triste, porém m*****o. O que me ferrava... Pois isso me fazia rir internamente, e ele... sem marcas de agressão... papai ama, papai cuida.
— Fechou, Don. Mas te digo... quem mandou esse aí, mandou pra provocar.
— Mandou pra dar o papo de que tá de olho no nosso morro, mas a tropa tá afiada, se meterem de louco vamo responder na bala.
Acendi outro cigarro, tragando fundo. A fumaça subiu lenta, se misturando ao cheiro de churrasquinho e maconha no ar. MM sorria passando a língua nos dentes
— Vai ter trocação ai c*****o, até animei... Tu não fica duro com essa p***a não?
— Vaza, MM!
Ele sorri e vira as costas saindo de perto, eu suspiro, forte, sentindo o pulso queimar... Uma paz acabaria?
Porque, no morro, paz nunca dura.
E aquele áudio... tinha acabado de avistar que a guerra ia vir.
Paz...
Nunca foi coisa boa.
Quem mora no morro sabe: paz demais é tipo céu vermelho. É o aviso que vem antes da desgraça. E aquela noite, a Penha tava quieta demais.
Érika Ramalho
Bocejava tanto observava a luz piscar — vermelha, azul, vermelha, azul — um looping infinito refletindo no vidro da janela. O cheiro forte de café requentado impregnado o ar. Levei a caneca aos lábios e bebi um gol amargo, apoiada com o quadril na bancada da delegação.
A paz ali era sempre estranha. Silêncio sempre significou problema chegando. E numa unidade de referência, colada ao Complexo da Penha, paz nunca durava.
Negra, cabelos longos e ondulados que naquele dia estavam prensos em uma trança firme sob o cap. Corpo de carioca: quadril largo, cintura fina, s***s discretos. Mas, sem uniforme, um silhueta passava desesperada diante da postura. Ombros retos, olhar firme e a patente bordada no colete: MAJ. E.RAMALHO.O.O.
Eu não precisava levantar a voz para impor respeito — era o tipo de autoridade que se sentia no ar.
Olhei para o relógio de pulso e suspirei.
Na gaveta de minha mesa, um fichário grosso com o brasão da universidade me esperava e me lembrava que, além de Maior, eu era estudante de direito.
— O que eu fui inventar da minha vida... — pensei, lembrando dos trabalhos acumulados e provas se aproximando.
Direito Penal eu vivia no dia a dia, mas Processo Civil, Teoria Geral do Estado... aquilo sim tirava meu sono.
O rádio chiou, cortando o pensamento:
— QAP, Major Ramalho. Recebemos denúncia de movimentação armada no Complexo da Penha.
Ergui as sobrancelhas e deixei a caneca sobre a bancada. Passei como mãos nos cabelos respirando e preparando para mais uma noite daquelas... A paz nunca durava,principalmente numa delegacia próxima a comunidades... essa era a maior realidade! Mais um dia na vida de um policial! Isso de qualquer patente! Não existe paz! E nem como criar...
— QSL. Equipe dois comigo. Viatura pronta em dois minutos — respondi, sem hesitar.
Nem havia tempo para isso, ajeito o frio, o colarinho, a arma e olho para o lado com um sorriso tão comum que ninguém diria que dentro de mim estava um turbilhão, porém, mais um dia normal de um fardado.
O sargento ao lado endireitou a postura automaticamente. Comigo não rolava “daqui a pouco”. Ordem dada era ordem cumprida.
Enquanto caminhava até a viatura, senti o peso da arma no coldre e da responsabilidade nos ombros. Mais um dia, mais um morro. A faculdade fica para depois — no RJ, sonho nenhum sobrevive sem antes sobreviver à guerra.