Beatriz passou o resto da manhã tentando convencer a si mesma de que havia uma explicação lógica para tudo.
Sentada na beira da cama, ainda olhando para o espelho, ela tocava repetidamente a pequena cicatriz acima da sobrancelha.
Era real.
A pele estava levemente sensível, como se o corte tivesse cicatrizado há alguns dias.
— Isso não pode estar acontecendo… — murmurou.
Ela foi até o banheiro e lavou o rosto com água fria. Talvez ainda estivesse meio dormindo. Talvez seu cérebro estivesse pregando alguma peça estranha.
Mas quando levantou o olhar novamente para o espelho, a cicatriz continuava lá.
Beatriz soltou um suspiro nervoso.
— Ok… calma… calma…
Ela sempre foi uma pessoa lógica. Estudava física, adorava ciência, e acreditava que qualquer coisa, por mais estranha que fosse, deveria ter alguma explicação.
Mas aquilo…
Aquilo parecia impossível.
Ela pegou o celular na mesa de cabeceira e olhou as horas.
07:18.
Tinha aula na universidade às oito.
Por alguns segundos, Beatriz pensou seriamente em simplesmente voltar para a cama e ignorar tudo. Fingir que nada tinha acontecido.
Mas a curiosidade era mais forte que o medo.
Ela abriu o armário e começou a se vestir.
Enquanto colocava a mochila nas costas, sua mente voltava repetidamente à mesma imagem.
A praça.
A fonte.
E Gabriel.
Ela lembrava do olhar dele com uma clareza absurda. Era como se aquela conversa tivesse acontecido de verdade.
Não como um sonho.
— Gabriel… — murmurou.
O nome soava familiar demais.
Mas ela tinha certeza de que nunca tinha conhecido ninguém com aquele nome.
Ou pelo menos… achava que não.
Beatriz saiu de casa ainda pensando nisso.
O caminho até a universidade era curto. Cerca de quinze minutos caminhando pelas ruas movimentadas da cidade.
Normalmente ela gostava daquele trajeto.
O barulho dos carros, as pessoas indo para o trabalho, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina.
Mas naquela manhã tudo parecia distante.
Como se uma parte dela ainda estivesse naquela praça.
Ela tentou lembrar mais detalhes.
Os prédios altos.
As luzes azuladas.
Os carros silenciosos.
— Aquela cidade não parecia com nenhuma que eu conheço… — disse para si mesma.
Talvez fosse algum lugar que ela tinha visto em um filme ou em uma foto.
O cérebro humano era capaz de criar coisas impressionantes durante o sono.
Mas então havia a água.
E a cicatriz.
Beatriz apertou a alça da mochila com mais força.
— Não faz sentido…
Quando chegou à universidade, o movimento já era grande. Estudantes conversavam nos corredores, alguns correndo para não se atrasar para as aulas.
Tudo parecia completamente normal.
Talvez normal demais.
Ela entrou na sala ainda tentando afastar os pensamentos da cabeça.
Lucas já estava sentado no lugar de sempre, perto da janela.
Assim que a viu, levantou a mão.
— Ei!
Beatriz sentou-se ao lado dele.
Lucas Andrade era seu melhor amigo desde o primeiro ano da universidade. Alto, cabelo castanho sempre bagunçado e um sorriso fácil que parecia nunca desaparecer.
— Você parece um zumbi hoje — disse ele.
Beatriz soltou um suspiro.
— Eu dormi… estranho.
— Estranho como?
Ela hesitou.
Por um momento pensou em contar tudo.
Mas assim que imaginou a reação dele, desistiu.
“Lucas, eu acho que viajei para outro universo enquanto dormia.”
Não.
Aquilo soaria completamente ridículo.
— Só tive um sonho muito real — respondeu.
Lucas riu.
— Eu tive um desses semana passada. Sonhei que tinha passado em cálculo sem estudar.
— Engraçadinho.
— Sonhos perigosos.
Beatriz forçou um pequeno sorriso.
A aula começou logo depois, mas ela m*l conseguiu prestar atenção.
Enquanto o professor explicava equações no quadro, a mente dela voltava repetidamente à mesma pergunta.
E se aquilo não fosse um sonho?
Ela abriu o caderno e escreveu uma frase no canto da página.
“Praça. Fonte. Gabriel.”
Ficou olhando para aquelas palavras por alguns segundos.
Algo dentro dela dizia que precisava registrar tudo.
Cada detalhe.
Cada memória.
Se aquilo realmente estivesse acontecendo…
Ela precisaria entender.
A aula terminou quase duas horas depois.
Assim que o professor saiu da sala, Lucas se virou para ela.
— Ok, agora conta.
— Conta o quê?
— Você está com cara de quem viu um fantasma.
Beatriz suspirou.
— É só que…
Ela hesitou novamente.
Lucas era a pessoa em quem mais confiava.
Se alguém poderia ouvir aquela história sem rir…
Talvez fosse ele.
— Eu tive um sonho estranho ontem — disse finalmente.
— Você já disse isso.
— Não, você não entendeu.
Ela inclinou-se um pouco para frente.
— Eu estava em uma cidade que nunca vi antes. Tudo parecia real. Eu podia sentir o vento, a água… tudo.
Lucas cruzou os braços.
— Ok…
— E eu conheci alguém lá.
— Em um sonho?
— Sim.
— Nome?
Beatriz engoliu em seco.
— Gabriel.
Lucas ergueu uma sobrancelha.
— Você está apaixonada por um cara de sonho agora?
— Lucas, estou falando sério.
Ele levantou as mãos em rendição.
— Desculpa, continua.
— Quando acordei… — ela disse lentamente — minha mão estava molhada.
Lucas franziu a testa.
— Molhada?
— Sim.
— De suor?
— Não.
Beatriz abriu a mochila e pegou o pequeno caderno.
Virou algumas páginas até encontrar algo.
Um círculo pequeno.
Ela tinha desenhado a fonte que lembrava.
Lucas analisou o desenho.
— O que é isso?
— A fonte que eu toquei.
— No sonho.
— Sim.
— E por que você acha que isso significa alguma coisa?
Beatriz levantou a mão e afastou o cabelo da testa.
Mostrando a cicatriz.
Lucas ficou em silêncio.
— Isso estava aí antes? — perguntou.
— Não.
Ele inclinou-se mais perto, analisando.
— Parece real…
— Porque é.
Lucas ficou pensativo por alguns segundos.
— Ok… isso é estranho.
— Muito.
Ele encostou-se na cadeira.
— Mas talvez você tenha se machucado dormindo.
— Lucas.
— O quê?
— Eu vi essa cicatriz no sonho.
Ele abriu a boca para responder.
Mas parou.
Porque naquele momento, algo estranho aconteceu.
Uma sensação atravessou o corpo de Beatriz.
Como um arrepio.
Como se alguém estivesse olhando para ela.
Ela virou lentamente a cabeça em direção à porta da sala.
O corredor estava cheio de estudantes passando.
Mas por um segundo…
Ela teve a impressão de ver alguém parado ali.
Observando.
Um rapaz.
Cabelos escuros.
Jaqueta preta.
Coração acelerado.
Beatriz levantou-se da cadeira rapidamente.
— O que foi? — perguntou Lucas.
— Eu…
Ela caminhou até a porta.
Olhou para o corredor.
Mas o rapaz já não estava lá.
Apenas estudantes conversando.
Nada mais.
— Você está me assustando — disse Lucas atrás dela.
Beatriz ficou parada por alguns segundos.
Sentindo o coração bater forte.
Então voltou para a sala lentamente.
— Nada — disse.
Mas algo dentro dela sabia.
Aquilo não tinha sido imaginação.
Porque o rapaz no corredor…
Parecia exatamente com Gabriel.
E aquilo só podia significar uma coisa.
Se o sonho tinha sido real…
Então talvez o outro mundo também fosse.
E naquela noite…
Beatriz estava prestes a descobrir algo ainda mais assustador.
Porque quando ela dormisse novamente…
Ela não iria simplesmente sonhar.
Ela iria voltar.