Capítulo 6

1085 Words
Beatriz acordou no seu quarto como de costume, o caderno ainda aberto sobre a mesa, as palavras de Gabriel estampadas na página: “Eu vou esperar você amanhã. — Gabriel.” O coração dela batia acelerado. A noite anterior parecia mais real, cada gesto de Gabriel, cada nota do violão estavam gravados em sua mente como se ela tivesse vivido aquilo de verdade. Ela se levantou lentamente, sentindo o peso de uma responsabilidade que nunca pedira. Agora, mais do que nunca, sabia que suas ações tinham consequências — em pelo menos dois mundos diferentes. — Eu preciso tentar controlar isso — murmurou para si mesma, sentando-se na cama. — Se eu posso voltar lá, talvez eu possa escolher o que acontece. Beatriz passou a manhã estudando e anotando detalhes. Cada lembrança da praça, cada gesto de Gabriel, cada sensação que experimentou. Ela precisava entender o mecanismo, ou pelo menos tentar. E quanto mais escrevia, mais percebia que o caderno funcionava como uma espécie de ponte entre os mundos. À noite, ela voltou a se deitar, com o coração cheio de expectativa e medo. Fechou os olhos e respirou fundo, concentrando-se na praça, na fonte, em Gabriel. Tentou visualizar cada detalhe com clareza absoluta. E, como sempre, o mundo começou a se formar ao seu redor. Primeiro a sensação de flutuar, depois o vento fresco, e finalmente a cidade desconhecida que agora ela já conhecia bem. — Estou aqui — sussurrou, sentindo a familiaridade do lugar envolver seu corpo. A praça estava iluminada pelos postes dourados, e a água da fonte caía suavemente. Mas algo estava diferente: ela percebia pequenos detalhes que nunca tinha notado antes. Um banco de pedra estava quebrado, uma pequena árvore tinha mudado de posição, e uma rua lateral parecia ter desaparecido. — Cada universo é ligeiramente diferente — pensou. — E cada diferença… talvez seja um aviso. Ela caminhou até a borda da fonte e tocou a água, fria e real, como sempre. O toque trouxe novamente aquela sensação elétrica, quase como uma memória cruzada. Beatriz respirou fundo e olhou ao redor, procurando Gabriel. Ele estava sentado no banco de sempre, mas algo no olhar dele estava diferente. Havia uma tensão que não estava presente nas noites anteriores. — Gabriel — chamou ela, caminhando até ele. Ele se levantou rapidamente. — Beatriz, você chegou cedo hoje. — Eu tentei… — disse ela, tentando controlar a voz trêmula. — Tentei chegar consciente. Gabriel a estudou por alguns segundos, percebendo o esforço dela. — Você está tentando controlar para onde vai quando dorme? — perguntou. — Sim — respondeu Beatriz. — E acho que… acho que posso escolher pequenos detalhes. Posso decidir algumas coisas, mesmo que ainda não entenda como. Ele assentiu lentamente. — Isso é perigoso. — Eu sei — disse ela, sentando-se ao lado dele. — Mas se não eu tentar… ninguém fará por nós. Gabriel ficou em silêncio por um momento, olhando para a água refletindo a luz das estrelas. — E se cada escolha tiver consequências? — perguntou ele finalmente. — Se em algum universo… alguém que amamos morrer? Beatriz engoliu em seco. — Eu sinto isso. Eu senti a primeira vez que acordei. Como se… em cada universo, alguém tivesse que pagar o preço da nossa presença. Um frio percorreu-lhe a espinha. Ela ainda não tinha coragem de verbalizar, mas no fundo sabia: havia algo que ninguém lhe contaria sobre essas viagens. Algo que ela precisaria enfrentar. — Então cada vez que eu volto… — começou Gabriel, hesitante — eu corro risco. E você também. Beatriz olhou para ele, os olhos refletindo uma mistura de medo e determinação. — E ainda assim… eu preciso estar aqui. Houve um silêncio pesado. A sensação de perigo era quase palpável. Mas, ao mesmo tempo, havia a certeza de que eles precisavam tentar. Precisavam descobrir como essas realidades funcionavam. Beatriz fechou os olhos por um instante e começou a se concentrar. Tentou lembrar cada detalhe da noite anterior, cada passo que deu, cada nota do violão que Gabriel tocou. Tentou fixar na mente a imagem dele, o gesto da mão, o sorriso. — Estou tentando manter você real — disse baixinho, como se Gabriel pudesse ouvir suas palavras mesmo sem que ela o tocasse. Ele sorriu, triste. — Eu também preciso acreditar nisso. Quando Beatriz abriu os olhos novamente, percebeu que algo tinha mudado na praça. Um pequeno detalhe, quase imperceptível: uma sombra se movia entre os prédios ao fundo, observando-os. Ela franziu a testa. — Gabriel… você viu aquilo? — perguntou, apontando discretamente. Ele olhou, mas a sombra desapareceu antes que pudesse identificar qualquer coisa. — Não… mas algo está diferente. — A expressão dele ficou séria. — Sinto que estamos sendo observados. O frio no estômago de Beatriz voltou com força. — É isso que eu estava tentando evitar. — Ela respirou fundo. — Cada universo tem suas regras, cada escolha tem consequências. E agora… talvez já esteja começando a nos testar. Gabriel assentiu lentamente. — Então precisamos ter cuidado. Cada passo que damos aqui… pode não se limitar a este mundo. Beatriz sentiu a tensão aumentar. Havia algo maior, algo invisível, que movia os eventos de cada universo. Ela não sabia quem ou o que, mas o aviso era claro: cada viagem tinha um preço. — Eu preciso fazer uma escolha — disse ela, firme. — Se eu posso controlar algo, mesmo que pouco, preciso decidir se volto ou não. Gabriel a olhou nos olhos, apoiando a mão na dela. — Então volte… mas desta vez, não como alguém que espera, e sim como alguém que sabe o que quer. Beatriz respirou fundo. O ar parecia pesado, mas ao mesmo tempo, libertador. Pela primeira vez, ela não se sentiu apenas uma espectadora. Ela era uma participante ativa, mesmo que ainda não compreendesse totalmente as regras do jogo. Enquanto a noite avançava, Beatriz percebeu que cada escolha futura teria impacto não apenas no universo que visitava, mas em todos os outros. E, ao mesmo tempo, o pensamento mais sombrio surgia em sua mente: em algum universo, alguém que ela amava poderia morrer por estar aqui. Ela olhou para Gabriel, que segurava sua mão com firmeza. Um sentimento profundo surgiu dentro dela — medo, esperança, amor e determinação — tudo misturado, impossível de separar. — Então vamos tentar juntos — disse Beatriz finalmente. — Mas precisamos estar preparados para tudo. Gabriel assentiu, e pela primeira vez desde que ela descobrira os universos paralelos, Beatriz sentiu que, juntos, poderiam enfrentar qualquer coisa.
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