Capítulo 7

1094 Words
Beatriz acordou naquela manhã com uma sensação estranha de pressentimento. O caderno estava sobre a mesa, aberto na última página onde Gabriel escrevera: “Eu vou esperar você amanhã. — Gabriel.” O coração dela ainda batia rápido. Cada palavra parecia pulsar, como se estivesse viva, lembrando-a do que estava por vir. Ela sabia que aquela noite não seria como as outras. Havia uma responsabilidade agora, um peso invisível pairando sobre seus ombros. — Eu preciso tentar — murmurou, passando a mão pelo cabelo. — Preciso tentar entender se posso mudar alguma coisa. Durante o dia, Beatriz anotou cada detalhe que lembrava das noites anteriores. Cada gesto, cada nuance da praça, cada expressão de Gabriel. Ela precisava de um plano. Um método para controlar, ou pelo menos influenciar, suas viagens. Quando a noite finalmente caiu, Beatriz deitou-se, fechou os olhos e respirou fundo. Desta vez, não deixaria o sono levá-la sem tentar direcionar o caminho. Concentrou-se na praça, na fonte, no violão, e, acima de tudo, em Gabriel. O vórtice surgiu novamente, a sensação de ser puxada, a brisa que parecia envolver seu corpo. Mas, desta vez, ela respirou fundo e pensou: “Eu vou escolher o que quero ver. Eu vou controlar.” E, quando abriu os olhos, estava lá. A praça iluminada, a fonte caindo suavemente, as sombras alongadas dos postes de luz. Cada detalhe estava em seu lugar — exceto por um elemento novo: uma pequena porta lateral, na parede de um prédio próximo, que ela não lembrava de ter visto antes. — Isso é… diferente — murmurou Beatriz, caminhando em direção a Gabriel. Ele estava sentado no banco de sempre, o violão ao lado, mas havia algo em sua expressão que a fez parar. Um olhar de alerta, quase medo. — Beatriz — disse ele calmamente, mas com a voz carregada de tensão — algo está errado. Ela se aproximou, segurando sua mão, sentindo o calor familiar. — O que você quer dizer? — Senti que algo mudou — respondeu Gabriel. — Como se nossas ações tivessem consequências imediatas neste mundo. Beatriz engoliu em seco. — Eu sei. — Ela respirou fundo. — Por isso eu vim preparada. Quero tentar interagir conscientemente, mas… tenho medo. Ele apertou sua mão com firmeza. — Então vamos juntos. Cada passo, cada escolha. Ela assentiu. Um silêncio pesado caiu sobre os dois enquanto observavam a praça. Beatriz sentiu uma sensação estranha: pequenas ondas de energia percorrendo o ar, invisíveis, mas reais. Como se o universo inteiro estivesse observando cada movimento deles. — Vamos testar — disse Beatriz finalmente. — Quero tentar mudar algo pequeno, apenas para ver se é possível. Gabriel olhou para ela, apreensivo. — E se houver consequências? — Então teremos que lidar com elas — respondeu ela, firme. Beatriz caminhou até a pequena porta lateral, respirando fundo. Colocou a mão na maçaneta e, com um impulso, abriu. Do outro lado, havia um beco estreito que não existia na noite anterior. O chão estava molhado, refletindo a luz dos postes, criando uma imagem quase mágica. Ela deu um passo dentro do beco, sentindo o ar vibrar ao redor. Cada movimento parecia amplificado, cada som parecia ecoar de forma diferente. Gabriel a seguiu, observando atentamente. — Você sente isso? — perguntou Beatriz, sua voz trêmula. — Sim — respondeu ele. — Como se estivéssemos interferindo no próprio tecido do mundo. Enquanto caminhavam, Beatriz percebeu algo perturbador: pequenas distorções no espaço. Objetos que deveriam estar parados tremiam levemente, sombras pareciam se mover sozinhas. Uma sensação de alerta percorreu seu corpo. — Isso é perigoso — murmurou Gabriel. — É como se… cada ação nossa tivesse um preço. Beatriz assentiu. — Eu sei. E talvez seja por isso que alguém sempre morre em algum universo. Eles continuaram caminhando pelo beco até que chegaram a uma porta de ferro antiga. Havia uma luz fraca por baixo dela. Beatriz respirou fundo e empurrou a porta. Do outro lado, um quarto antigo, quase abandonado. Mas, no centro, havia um quadro com uma foto estranha: Gabriel e uma mulher desconhecida, sorrindo. Beatriz sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. — Quem é ela? — perguntou, a voz baixa. Gabriel franziu a testa, olhando a foto. — Eu… não sei. Mas essa mulher… não parece alguém do meu mundo. Beatriz tocou a foto. Uma sensação de frio atravessou sua mão, como se a imagem tivesse vida própria. — Isso é algum tipo de aviso? — perguntou ela. Gabriel olhou para ela, sério. — Eu acho que sim. Alguém nesse universo já morreu por escolhas que fizemos ou deixamos de fazer. O peso das palavras caiu sobre Beatriz. Pela primeira vez, ela compreendeu: cada decisão consciente que tomassem ali poderia mudar destinos, incluindo o deles próprios. — Então precisamos ser cuidadosos — disse ela, firme. — Cada passo, cada ação… pode significar a diferença entre a vida e a morte. Gabriel assentiu. — E mesmo assim… vamos continuar. Beatriz respirou fundo e olhou para a praça pela janela do quarto. A fonte, os bancos, a luz dourada dos postes… tudo parecia normal, mas agora ela sabia que nada mais era previsível. — Então vamos — disse Beatriz, sentindo a determinação crescer dentro de si. — Vamos tentar entender como nossos mundos se conectam, e tentar proteger o que for possível. Gabriel pegou sua mão novamente, e naquele instante, uma sensação estranha percorreu o ar. Algo invisível, mas tangível, como se o universo inteiro estivesse segurando a respiração, observando cada movimento deles. — Beatriz… — disse Gabriel, olhando nos olhos dela — se eu desaparecer em algum universo… lembre-se. Eu estarei esperando em outro. Ela engoliu em seco, sentindo uma mistura de medo, esperança e amor. — E se eu desaparecer? — perguntou, quase sussurrando. — Então eu vou atrás — respondeu ele, com firmeza. — Sempre. E naquele instante, Beatriz compreendeu plenamente que suas escolhas entre universos não eram apenas sobre exploração ou curiosidade. Cada decisão carregava o peso da vida e da morte, cada ação podia alterar o destino deles — e que, em algum lugar, alguém sempre pagaria o preço por estar ali. A noite avançava, e a praça, que antes parecia segura, agora exalava uma tensão silenciosa. Beatriz sentiu o olhar do multiverso sobre ela, analisando cada movimento, cada pensamento. Ela sabia que, a partir daquele momento, suas viagens conscientes não seriam apenas experimentos. Seriam provas de coragem, inteligência e resistência. — Estamos prontos? — perguntou Gabriel, apertando sua mão. Beatriz respirou fundo, sentindo a determinação crescer dentro dela. — Sim. Mas precisamos lembrar… nem tudo pode ser controlado.
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