Capítulo 1- “Tudo começou com a Sexta-feira”
Era noite de baile no Hotel King. A música ecoava no salão, misturada ao som de taças brindando e risadas que se perdiam sob as luzes douradas. Máscaras escondiam rostos, mas não intenções, o que daria coragem para as pessoas fazerem o que não conseguiam sob a luz do dia.
Entre a multidão, dois se afastaram discretamente. Caminharam lado a lado, trocando olhares que diziam mais do que qualquer palavra.Enquanto os outros dançavam, riam e se distraíam com champanhe, eles sumiram pela lateral do salão e buscaram um canto mais isolado.
O inesperado aconteceu. Primeiro um toque leve, depois um abraço demorado — e, finalmente, um beijo. Não era planejado, não era certo. Mas, naquele instante, parecia impossível resistir.
O silêncio foi quebrado quando um copo escorregou das mãos de alguém. O som do vidro batendo no chão fez os dois se afastarem num sobressalto. Tinham sido descobertos. O olhar da terceira pessoa — que surgira ali sem aviso — fez o ar pesar. Eles sabiam que o segredo não estava mais a salvo…
Mas para entender como chegamos até aqui, precisamos recuar meses antes…
Meses antes…
Eu sei que mundo é redondo, mas minha vida insiste em parecer quadrada. Cada coisa no seu canto, cada tropeço no seu devido lugar. E, se há algo que sempre me acompanha, é esse dom infalível de me meter nas situações mais improváveis — algumas até engraçadas, outras um tanto perigosas.
…
Era sexta-feira. Um dia que tinha tudo para ser normal, daqueles em que a gente espera apenas encerrar a semana e se jogar em um descanso merecido. Mas, claro, nada disso aconteceu comigo.
O relógio já me avisava que estava atrasada, mas eu acreditava que ainda conseguiria pegar o trem. Apressei os passos, as pernas correndo em desespero pelo corredor da estação, enquanto minha bolsa escorregava do ombro a cada movimento brusco. A máquina de ferro estava ali, imóvel por um instante, as portas abertas como se zombassem da minha lentidão. Por alguns segundos, acreditei que conseguiria.
Mas a vida tem esse gosto por drama. Bem diante dos meus olhos, as portas se fecharam com aquele som seco, que ecoou no peito como uma gargalhada do destino. O trem partiu, indiferente à minha súplica silenciosa. Fiquei para trás.
Suspirei, ofegante, e encarei meu reflexo no vidro da plataforma. O cabelo desgrenhado, a expressão entre raiva e frustração, e um pensamento repetido martelando na cabeça: “Não acredito que isso está acontecendo logo hoje.”
Peguei o celular e disquei para Natália, na esperança de que ela me desse uma solução imediata, como sempre fazia. A chamada tocou uma, duas, três vezes. E, quando eu já podia ouvir sua voz, a ligação caiu. Óbvio. Essas coisas sempre caem justamente quando mais precisamos delas.
— Que raiva!… — murmurei, resmungando sozinha.
A estação parecia rir de mim também. As pessoas iam e vinham, cada uma com sua pressa, e eu era apenas a figura trágica de uma comédia urbana, parada ali sem saber o que fazer.
Enquanto esperava pelo próximo trem, repassei mentalmente a semana inteira. Tudo parecia conspirar contra mim. Trabalho acumulado, compromissos atrasados, e agora o atraso para o encontro com as meninas. Natália ia rir muito quando soubesse da cena. Ela sempre ria. Sempre encontrava leveza até nas minhas maiores desgraças.
Foi então que ouvi o som de um carro se aproximando devagar. Ele estacionou perto demais para não chamar minha atenção. A janela do passageiro se abaixou lentamente, e, de repente, um homem de presença marcante se inclinou para fora.
Ele era alto, de olhar enigmático, e tinha um sorriso contido, quase irônico. A primeira impressão foi de que não pertencia àquele cenário banal da estação. Seu nome, descobri segundos depois, era Shelby. Até aquele instante, eu não fazia ideia de quem ele era.
— Você é a Kataleya? — perguntou, a voz firme, mas carregada de uma calma que quase intimidava.
Demorei alguns segundos para responder. Minha primeira reação foi dar um passo para trás, instintivamente.
— Quem está perguntando? — retruquei, mais por defesa do que por coragem.
O sorriso dele se abriu um pouco mais, ainda que discreto.
— Natália me pediu para vir buscá-la. Disse que você perdeu o trem.
Meu corpo hesitou. A razão gritava que não era prudente aceitar carona de um desconhecido. Mas havia algo nele que transmitia segurança, mesmo que fosse um completo estranho. Respirei fundo, tentando decidir entre esperar pelo próximo trem — que talvez demorasse — ou acreditar na palavra de alguém que parecia conhecer Natália.
Peguei o celular outra vez e tentei ligar de novo. Sem sucesso.
— É sério, ela ligou pra mim. — Ele apoiou o braço na janela, como quem não tinha pressa. — Pode confiar.
Eu ri, nervosa.
— Confiar em um completo estranho? Parece piada.
— Bom, então pode continuar esperando. — Ele deu de ombros, ligando o pisca-alerta como quem se preparava para sair. — Só não quero depois ser acusado de não ter feito minha parte.
Aquela resposta me pegou. Se fosse uma emboscada, quem teria tanta calma para falar assim? Revirei os olhos, respirei fundo e, contra toda lógica, abri a porta do carro.
— Se eu desaparecer, vou aparecer no jornal, e vai ser culpa sua.
— Nesse caso, garanto que você terá a matéria mais emocionante da semana. — Ele riu de canto, ligando o motor.
“Talvez isso fosse loucura, mas havia algo no olhar dele que me fizesse se sentir segura.No fundo, eu sabia que estava correndo um risco. Mas também sabia que, sozinha, perderia muito tempo”.
O silêncio durante o trajeto era denso, mas não desconfortável. Eu o observava disfarçadamente: o jeito firme com que segurava o volante, os olhos atentos à estrada, a postura de quem parecia saber exatamente para onde me levava.
Meu coração ainda acelerado — não pela pressa, mas pela estranha sensação de estar diante de alguém que, de alguma forma, mudaria o rumo daquele fim de semana.
Quando finalmente chegamos, as portas da casa se abriram e vi Natália correndo ao meu encontro. Seu abraço foi um alívio imediato — a confirmação de que eu estava segura.
— Você é louca! — exclamou, rindo alto. — Como entra no carro de um desconhecido desse jeito?
— Eu também não sei! — respondi, rindo com ela. — Mas ele disse que foi você quem mandou.
Natália virou-se para Shelby, arqueando uma sobrancelha.
— Você assustou a coitada?
—Só segui ordens. — Ele deu de ombros, tranquilo.
Foi então que Shelma apareceu. Com seu jeito doce e espontâneo, se aproximou rápido, os cabelos loiros balançando ao vento.
— Até que enfim vocês chegaram! Eu já estava ficando preocupada.
O peso da chegada desapareceu. Rimos juntas, e logo tudo parecia mais leve.
Era sempre assim. Por mais que a vida me jogasse em situações confusas, estar ao lado delas era como ter a garantia de que, no fim, tudo daria certo.
E foi assim, com as três reunidas novamente, que a sexta-feira deixou de ser apenas mais um dia comum. A desgraça de perder o trem virou piada — e a noite começava a prometer mais do que eu podia imaginar.
…