Capítulo 10- “ Um novo conforto”

1288 Words
Minha perna já estava bem. O inchaço se foi, a dor virou lembrança, e os curativos foram substituídos por passos firmes. Voltar a andar era como retomar o controle. A rotina no hotel voltou ao seu ritmo. Eu descia as escadas sem medo, andava pelos corredores com a postura que sempre tive. Os colegas me cumprimentavam como antes, mas algo em mim tinha mudado. Eu estava mais alegre. Natália contuava com as corridas. Acordava cedo, gravava vídeos novos, sorria mais. Shelma, como sempre, equilibrava o tempo entre a loja de beleza e os encontros com Willian. Os dois agora estavam mais próximos, mais constantes. Era bonito de ver — ele respeitava o espaço dela, ela amava a intensidade dele. “Eu queria que tudo continuasse assim. Mas coisas boas vem e vão”. … Shelma estava no salão, organizando os produtos nas prateleiras. Tudo estava limpo, cheiroso, do jeitinho que ela gostava. Seu espaço era bonito, e ela sentia orgulho do que tinha construído sozinha. De repente, a porta se abriu com força. Era a tia dela. Entrou olhando tudo com cara de crítica. — "Tá bonito isso aqui, né? E tu nem pra agradecer. Tô vendo que já esqueceu quem cuidou de ti depois que tua mãe morreu." Shelma ficou parada, surpresa. — "Agradecer? Agradecer por quê? Tu nunca me ajudou de verdade. Só me criticava. Sempre fez questão de dizer que eu não ia dar em nada." A tia riu, debochada. — "Tu é uma ingrata, isso sim." Antes que Shelma pudesse falar de novo, a tia deu um t**a no rosto dela, bem na frente dos seus funcionários. Rápido e seco. Shelma levou a mão à cara, com os olhos cheios de lágrimas. Não disse nada. Pegou a bolsa e saiu. Na rua, com os olhos ainda molhados, tentou ligar pro Willian. Deu caixa postal. Tentou de novo. Nada. Estava magoada, sozinha. Foi andando rápido pela calçada até que viu Shelby. Ele vinha na direção contrária. Quando ela o viu, não pensou duas vezes. Correu até ele e o abraçou forte, sem dizer nada. Shelby, sem entender direito, retribuiu o abraço. Ficou ali, parado, segurando ela com cuidado. E foi assim. Foi naquele abraço triste que tudo começou a mudar. Shelby leva Shelma para um café tranquilo. Ela, ainda abalada, conta tudo sobre a briga com a tia. Pela primeira vez, sente que alguém realmente a escuta. Ele não tenta dar conselhos, só ouve. O silêncio entre eles vira conforto. Eles trocam olhares mais demorados. Shelma e Shelby ficaram sentados lado a lado no banco do parque. A brisa da tarde passava leve, mas o silêncio entre eles era pesado. Ela ainda tinha os olhos vermelhos do choro, mas já não chorava. Só olhava para frente, tentando colocar os sentimentos em ordem. — “Sabe…” — começou Shelby, com a voz mais baixa do que o normal — “eu entendo o que você sente.” Shelma virou o rosto para ele, surpresa. — “Entende?” Ele assentiu, olhando para o chão. — “Cresci com meu pai. Minha mãe não podia cuidar de mim. Nunca fui prioridade de ninguém. Sempre achei que, pra ser visto, eu precisava fazer alguma coisa… ser útil, provar meu valor.” Shelma ficou em silêncio. As palavras dele pareciam descrever o que ela sentia desde pequena. — “Minha tia…” — disse ela, com um riso fraco — “vivia dizendo que me criou, que eu devia tudo a ela. Mas só me lembrava quando precisava de algo. Quando consegui montar meu espaço, ela apareceu… cobrando como se fosse uma dívida.” Shelby a olhou com atenção. — “Às vezes, quem devia nos amar, nos faz sentir como se devêssemos sempre algo em troca.” Ela balançou a cabeça, sentindo um nó na garganta. — “É isso. É exatamente isso.”— disse ela. Nos dias seguintes, Willian continua distante. Shelma manda mensagens, tenta entender o que está acontecendo, parece estar em uma das suas viagens de negócio, mas ele responde pouco. A insegurança cresce. E enquanto o espaço entre os dois aumenta, Shelby se faz presente — com gestos pequenos, mas constantes. Café deixado na porta, mensagem perguntando “se ela estava bem”. Eu, Kataleya, lembro do Shelby comentar comigo que precisávamos cuidar mais da Shelma, que ela não estava bem. E eu, cada vez mais ocupada, horas extras que acabavam comigo. Não tinha tanto tempo nem pra cuidar de mim mesma … Uma certa vez eu teria que fazer noite no hotel, e Natália estava sabe se lá aonde sozinha, era típico da minha amiga. Numa noite qualquer, depois de um dia difícil, Shelma convida Shelby para entrar quando ele a deixa em casa, sempre sendo cavalheiro. Eles ficam no sofá conversando. Ela deita a cabeça no ombro dele. Ele passa a mão no cabelo dela devagar. Mas no entanto eu já não teria que fazer noite, por um milagre, fui dispensada. Lembro de chegar em casa exausta, peguei nas chaves de casa e abri a porta… Eu vi… vi os dois sentados no sofá. Eu não sei exatamente o que estava acontecendo, o porquê dos dois estarem aí a essa hora. A única coisa que lembro é de estar exausta e vendo Shelby levantar às pressas e me receber com um abraço e um beijo. Isso me distraiu e esqueci o que vi. Naquele momento a Shelma levantou e saiu, sem dizer nada. Não sabia o que estava realmente acontecendo. No dia seguinte, Shelma estava estranha. Parecia sentir culpa. Shelby age normalmente, como se nada tivesse acontecido. Lembro de dias em que a Shelma m*l conseguia dormir. No momento não sabia o que era. Talvez cada vez que fechava os olhos, via o meu rosto. O meu sorriso. A forma como eu confiava, sem imaginar o que se passava. Shelby também estava diferente. Mais calado, mais tenso. Tiveram encontros, os dois trocavam olhares carregados de tudo o que não conseguiam dizer. Eles tentaram se afastar. Prometeram parar, fingir que nada tinha acontecido. Mas bastava um momento sozinhos, um toque de lembrança, para tudo vir à tona de novo. Kataleya continuava apaixonada. Contava para Shelma, sem saber, cada detalhe sobre o que sentia por Shelby. Isso fazia tudo doer ainda mais. A culpa queimava no peito de Shelma, mas o desejo era mais forte do que ela conseguia controlar. Willian também estava ausente. Cada vez mais distante, ocupado com seus compromissos. Ela se sentia sozinha. E no silêncio dessa solidão, Shelby era o único que a via de verdade. Me pegar no trabalho já não era uma frequência. Mas sempre achei que era por causa do trabalho. Uma noite, depois de fechar a loja, Shelma encontrou Shelby encostado no carro, esperando. Nenhum dos dois disse nada. Apenas se olharam por alguns segundos. Havia dor, raiva, confusão — e algo impossível de apagar. Eles sabiam que estavam presos num erro. Mas não conseguiam sair. Nos dias que se seguiram, passei a notar coisas pequenas. Um olhar demorado entre Shelma e Shelby.Risos abafados que paravam de repente. Mas ignorei. Certa noite, ao sair do banho, ouvi Shelby desligar o telefone rápido demais. Quando perguntei com quem ele falava, ele hesitou. Sorriu e disse: “Era só trabalho.” Depois de Willian estar com menos trabalho na empresa, decidiu ir ver a Shelma na loja. Quando estacionou, viu de longe Shelby encostado no carro, e Shelma parada bem próxima dele. Eles conversavam baixo. De repente, Shelma segurou o braço de Shelby, e ele não se afastou. O gesto não parecia só amizade. Era íntimo demais. Willian ficou parado, observando por alguns segundos, até Shelma virar do outro lado e vê ele. …
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