Chegamos em conjunto, preocupados demais com ela.
Mas quando chegamos a casa estava cheia de gente, incluindo policiais.
Depois de algumas horas os agentes se despediram, e os vizinhos, um a um, voltaram às suas rotinas. O portão enfim ficou livre de olhos curiosos. O silêncio que voltou era pesado, mas necessário.
Shelma respirou fundo e, sem muita cerimônia, quebrou o clima:
— Pronto. Chega de espetáculo no quintal. Vamos entrar.
Peguei a sacola do chão e fui em seguida. Shelby fechou o portão e conferiu duas vezes se estava trancado, como sempre fazia.
Dentro da casa, a tensão enfim cedeu espaço ao cansaço. Natália afundou no sofá, o rosto entre as mãos. A sala, minutos antes invadida por vozes, agora parecia protegida por um silêncio denso.
Shelma sentou-se ao lado dela e segurou sua mão. Eu me aproximei em silêncio, sem saber se dizia algo — ou se apenas ficava ali.
Olhei para Natália. Os olhos ainda marejados.
Shelby continuava encostado à porta, atento. Mas naquele instante, entendi o que ele também devia estar vendo: o que mantinha tudo de pé não era ele. Era a gente. Juntas. Ainda.
Acho que foi ali, naquela sala silenciosa, que a gente entendeu o quanto estava esgotada. Shelma foi a primeira a falar, sempre mais prática que todas nós.
— Melhor a gente descansar. Amanhã é um novo dia... e precisamos estar inteiras.
Eu só assenti. Estava tão cansada quanto Natália, mas tentei esconder.
Nat, coitada, ainda procurava forças nos olhos da gente.
— Vocês têm razão... só quero que essa noite acabe logo — murmurou.
Shelma se despediu com um beijo na testa dela e sumiu pelo corredor, dizendo que no dia seguinte a gente recomeçaria. Juntas. Sempre juntas.
Eu fiquei. Dormir no sofá parecia pouco diante do que ela tinha passado.
— Qualquer coisa, me chama — eu disse, e ela nem teve forças pra discutir.
Depois que tudo se acalmou, peguei o celular só por hábito. E então vi o e-mail.
“Prezada Kataleya, temos o prazer de informar que você foi selecionada para o cargo de recepcionista em nosso hotel, King. Sua contratação inicia em 30 dias, tempo suficiente para os trâmites e sua preparação.”
Lembro da sensação. O susto. O coração acelerado.
Eu tinha conseguido. Depois de tantos currículos, entrevistas, portas fechadas.
Eu queria gritar. Abraçar alguém. Mas tudo o que fiz foi sussurrar:
— Eu consegui
…
Na manhã seguinte eu já estava no sofá quando a luz da manhã começou a invadir a sala. Enrolada no cobertor, observava o teto, mas meus pensamentos estavam longe. O corpo cansado pesava.
Esperei que as duas despertassem por completo antes de dizer qualquer coisa. Quando abri a boca, foi como soltar um segredo que precisava respirar:
-na noite anterior, recebi um e-mail— Fui aceita para trabalhar num hotel de luxo!!!. Como recepcionista. — falei, toda empolgada.
Elas me olharam com espanto e alegria. Natália ainda parecia exausta, mas seus olhos brilharam por um instante. Shelma me abraçou com uma força que dizia tudo sem palavras. Por alguns minutos, a dor que nos rondava se dissipou.
— Tenho trinta dias até começar. Um mês para me preparar, reorganizar a vida, respirar diferente.
E mesmo com tudo desmoronando por dentro, algo ali me dizia que talvez… só talvez… as coisas possam mudar.
Mais tarde, Shelma saiu com sua bolsa cheia de batons e coragem. Natália ficou em silêncio, ainda tentando costurar seus pedaços. E eu… eu fiquei ali. Segurando essa pequena esperança como quem segura um fio de luz no escuro.
Ajustei a alça da bolsa no ombro e lancei um sorriso para Natália. Preciso urgente de roupas novas pro meu emprego, pensei, mais como uma desculpa pra sair da rotina. Ela hesitou, mas acabou topando.
Quando abrimos a porta, dei de cara com Shelby parado ali, no meio do caminho, como se tivesse surgido do nada. O vento mexia no cabelo dele, e o silêncio ficou pesado.
Natália quebrou o gelo, chamando ele pra vir com a gente. Eu só ri, meio surpresa, sem acreditar que o convite dela tinha sido tão direto.
Shelby demorou, olhou de um para o outro, e finalmente sorriu de leve. Era um “sim” silencioso, e eu senti que, naquele momento, as coisas estavam mudando.
A tarde prometia mais do que simples compras.
Na loja, o cheiro de tecido novo se misturava ao perfume doce das vendedoras. A luz refletia nos cabides cheios de roupas que pareciam recém-saídas de uma vitrine de revista.
Me joguei direto nas peças mais coloridas, enquanto Natália analisava tudo com aquele olhar criterioso que eu sempre admirei. Já Shelby… bom, ele parecia um peixe fora d’água. Ficou plantado perto da entrada, como se estivesse tentando entender que tipo de missão tinha aceitado.
De vez em quando, eu o chamava com o olhar, fingindo pedir opinião, só pra ver se ele se aproximava. E ele vinha. Sempre vinha.
Quando parei diante do espelho com um vestido nas mãos, senti seus olhos sobre mim por mais tempo do que o necessário. Não era julgamento — era algo mais suave, mais atento. Quente.
Shelby murmurou algo sobre o vestido combinar comigo. Não foi uma grande análise, nem nada poético — só uma frase simples, mas que, por algum motivo, me prendeu por dentro. Talvez porque veio dele. Talvez porque foi dita daquele jeito calmo, quase sem pretensão.
Natália percebeu na hora e lançou um comentário brincalhão, como sempre fazia quando queria aliviar o clima. Eu apenas ri, tentando esconder o calor que subia pelas bochechas.
Entrei no provador e, ao sair, senti o olhar de Shelby me alcançar — rápido demais para ser evitado, mas logo desviado. Ainda assim, o pequeno sorriso no canto dos lábios dele escapou antes que ele conseguisse disfarçar.
Perguntei, com um fiapo de voz, se estava bonita. Natália respondeu primeiro, como quem me conhece há tempo demais para mentir: disse que eu estava elegante. E isso já teria bastado. Mas Shelby demorou alguns segundos, pensou… e disse que parecia comigo. Como se o vestido traduzisse algo que nem eu sabia explicar.
Não precisei de mais nada.
Voltei ao provador, tentando me concentrar, mas saí rindo sozinha, equilibrando-me num salto mais alto do que minha autoconfiança. Era ridículo, mas divertido. Natália me olhou com aquele ar de “isso vai dar errado”, e eu finji não notar.
No fundo, ela tinha razão. O salto era um desastre anunciado. Dei um passo mais largo, erguendo o vestido… e tropecei. Um segundo de descuido.
Antes que meu corpo atingisse o chão, senti um braço firme envolver minha cintura. Fui puxada com força e precisão, e de repente estava de pé de novo, encostada no peito de Shelby. O mundo pareceu pausar por um segundo.
Fiquei imóvel, o coração disparado — não pela queda, mas pela proximidade. O rosto dele estava tão perto do meu que eu podia sentir a respiração calma dele, em contraste absoluto com a bagunça que a minha era naquele instante.
Por alguns segundos, tudo ficou em silêncio.
Natália, claro, não deixou o momento durar muito. A voz dela cortou o ar como uma agulha estourando uma bolha:
Eu sabia que ela estava se divertindo com a situação, então tratei de recuar, tentando manter a dignidade entre risos nervosos. Murmurei algo como um agradecimento, uma desculpa, qualquer coisa que amenizasse o constrangimento.
Shelby ainda segurava meu salto. Estendeu o sapato com um daqueles sorrisos que dizem muito sem dizer nada.
Fingi não perceber o que havia ficado no ar entre nós. Só me concentrei em calçar de novo aquele salto e******o e recuperar o equilíbrio — não só do corpo, mas do que ele tinha acabado de balançar dentro de mim.