Capítulo 29- “Egoísmo a parte, arrependimento em primeiro”

1350 Words
… Anderson saiu do carro com passos firmes, tentando manter a calma mesmo com o coração acelerado. Assim que se aproximou do pai, ergueu o braço numa tentativa de um cumprimento educado, respeitoso — mas o gesto ficou no ar. O olhar do pai era seco, duro, e não correspondeu. — Onde está a Lukela? — perguntou, direto, com um tom impaciente e autoritário, ignorando completamente qualquer formalidade. O ar pareceu ficar mais denso naquele momento. Kataleya, ainda dentro do carro, observava tudo com apreensão, enquanto o semblante de Anderson mudava, travado entre o incômodo e a raiva contida. Era como se toda a boa energia daquele dia tivesse desaparecido com uma simples frase. Anderson manteve-se firme, mas seus olhos demonstravam a tensão do momento. — A Lukela está bem — respondeu com voz controlada. — E não, o senhor não vai levá-la. O pai arregalou os olhos, deu um passo à frente, endurecendo o tom. — Eu sou o pai dela! Vim buscá-la. Tenho esse direito. Anderson cruzou os braços, respirou fundo, e disse: — Não mais. A partir de agora, eu serei o guardião legal da Lukela. Já dei entrada no pedido. Ela está em segurança… e vai continuar assim. Na verdade, Anderson apenas mentiu. Eram apenas ameaças. O homem se enfureceu. Deu meia-volta e subiu os degraus, indo até a porta da casa. Começou a esbarrar nela com força, como se tentasse arrombá-la. Kataleya se encolheu no assento do carro, em alerta. Anderson deu dois passos determinados, sem elevar a voz, mas com firmeza cortante: — Se continuar com isso, vou pegar as imagens da câmera, que está a filmar tudo… e vou denunciá-lo por violência doméstica. E sabe o que isso significa? Que não só vai perder a guarda, como pode nunca mais ver a Lukela. A escolha é sua… ou se retira, ou piora ainda mais o que já está m*l. O pai parou. Respirava pesado, os olhos cheios de raiva, mas agora também de hesitação. A presença da câmera, a voz firme do filho… tudo o paralisava. Anderson permaneceu firme, imóvel. — Vá embora — completou. E, depois de segundos pesados, o pai virou as costas… e desceu devagar os degraus. Ele decidiu ir, mas depois de estar calmo, ele pediu que Anderson chamasse a Lukela para pelo menos ele se despedir, visto que já estavam voltando pra sua cidade. Anderson fez o que o pai pediu. Lukela saiu. O pai tentou aproximar-se, mas ela deu um passo atrás, como se estivesse fugindo. De certa forma aquilo mexeu com o pai. Ele apenas disse que “quando ela quisesse, as portas de casa ainda estariam abertas pra ela”. Lukela não disse nada. Nem um abraço ela conseguia dar ao pai. Papai deu meia volta, e foi embora. Eu já estava fora do carro. Papai ao ir embora, olhou pra mim. Eu também fixei meus olhos a ele e disse pra ele “se esforçar em não perder mais ninguém, por causa de raiva incontrolável “. Ele não disse nada, e foi embora. Entramos com a Lukela. Depois ela foi pra cama. Anderson me levou pra casa, e nos despedimos. Quando cheguei em casa, Natália ainda estava acordada. Me olhou e só disse: — Então? Eu apenas ergui a mão e mostrei o anel. Ela sorriu, daqueles sorrisos que mostravam o quanto estava contente por mim, e me puxou pra um abraço rápido antes de ir dormir. Fiquei no quarto, olhando o teto, revivendo cada detalhe da noite. A surpresa, o susto, o abraço, o pedido…. Era como se tivesse sido escrita uma nova página da minha vida. Pela primeira vez em muito tempo, deitei com o coração sereno. Não por não ter mais dúvidas… mas por finalmente ter escolhido escutar o que meu coração gritava há tempos. Naquela noite, eu dormi como quem enfim se permitiu amar. Na manhã seguinte, estava na recepção, o movimento tranquilo, e eu, distraída, admirava o anel delicado que Anderson havia me dado. Um sorriso bobo escapava dos meus lábios — era inevitável. Era como se aquele pequeno objeto no meu dedo carregasse a paz que eu tanto buscava. Foi então que vi Shelma e Shelby entrarem. Shelby apenas acenou de longe, com um aceno seco, e seguiu direto para sua sala. Shelma, por outro lado, parou diante de mim. Seus olhos desceram até o meu anel, e logo voltou a me encarar com um meio sorriso. — Pelo teu semblante, parece que encontraste alguém pra amar — disse. — Desejo-te tudo de bom nesse namoro. Assenti com a cabeça, agradecendo, mas sem abrir muito espaço. Fiquei em silêncio, apenas observando. Depois de um instante, ela continuou: — Agora que já tens alguém ao teu lado, acho que já devias quebrar essa inimizade entre nós. Respirei fundo, erguendo os olhos até os dela. Minha voz saiu tranquila, mas firme: — Shelma, não se trata de ter ou não alguém. Eu não guardo inimigos... só me afasto de quem me magoa. Algumas dores não se esquecem de um dia pro outro. Eu sei que, um dia, vou perdoar… mas a mágoa, essa, leva mais tempo pra passar. Ela nada respondeu. Apenas me olhou, talvez surpresa pela minha sinceridade, talvez por não esperar que eu falasse com tanta clareza. Mas era isso. A paz que eu sentia naquele momento, não incluía mais espaço pra fingimentos. Shelma… ela não mudou nada. Continua com as mesmas boas qualidades de sempre — é determinada, inteligente, esforçada. Mas junto disso, ainda carrega aquele lado egoísta e a falta de empatia que sempre tornaram tudo mais difícil. O que eu realmente espero dela? Um pedido de desculpas sincero. Sem justificativas, sem rodeios, sem tentar explicar o inexplicável. Apenas reconhecer que errou, que passou dos limites. Gostar de alguém nunca foi o problema. O problema é quando a pessoa se recusa a admitir seus erros e ainda espera que os outros aceitem tudo calados, só porque há sentimentos envolvidos. A vida real não funciona assim. Relações não se sustentam só com afeto — é preciso respeito, verdade, humildade. E isso… isso a Shelma ainda não entendeu. Logo depois, Shelby fez um sinal discreto para ela. Shelma entendeu na hora. Despediu-se de mim com um leve sorriso, e eu apenas acenei de volta, de forma educada. Sem rancor, mas também sem abrir brechas. Algumas distâncias ainda precisam ser mantidas. Por um tempo, meus olhos ficaram presos nos passos dela até Shelby — outro egoísta que agora pensa mais em si do que nos outros. Mas logo voltei pra minha realidade. Era o meu momento de brilhar, e não só por causa do anel reluzente no meu dedo, o brilho também estava em mim. me senti no meu momento. E ele era inteiramente meu. Voltei a focar no trabalho, com o coração mais leve e a mente mais presente. Alguém se aproximou da recepção e atendi com um sorriso sincero e alegre.. Pouco depois, virei os olhos para a porta de entrada e vi o pai e a mãe da Lukela indo embora. Não estavam aos gritos, não pareciam furiosos… apenas iam. Foi nesse instante que tive uma pequena lembrança.. Lembrei de quando eu e a minha mãe deixamos tudo pra trás. Deixamos o meu pai, a casa, as lembranças ruins — e mesmo com o coração ferido, houve um alívio profundo. Foi como respirar depois de tanto tempo sufocada. Hoje, senti isso pela Lukela. Um alívio por ela. Uma pontinha de esperança. Porque mesmo que ainda doa, às vezes é preciso ir embora pra começar a viver de verdade. “Às vezes, eu penso em como as pessoas confundem pedir desculpas com justificar atitudes. Ser egoísta é exatamente isso: errar, machucar, e ainda tentar explicar o erro como se isso fosse apagar a dor que causou. Não é difícil dizer “me desculpa”. Difícil é abrir mão do orgulho e reconhecer de verdade que errou — sem rodeios, sem desculpas prontas. Eu só espero isso de algumas pessoas… sinceridade, e não desculpas que soam mais como defesas do que como arrependimento”.
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