Capítulo 23- “A fuga”

1284 Words
Depois que o papai passou por nós sem sequer me reconhecer, meu peito apertou. Eu soube que era ele desde o primeiro olhar... mas não era o momento de revisitar memórias antigas. Natália percebeu meu desconforto, mas não disse nada. Apenas segurou meu braço com firmeza, como quem diz: "Tô aqui." Daí fomos pra casa. A noite pedia algo leve, então escolhemos um daqueles filmes bobos de comédia romântica, só pra distrair a mente. O riso foi fácil, e por um instante, tudo pareceu simples. Como se no fundo eu não tivesse um certo desconforto. Dormimos tarde, mas valeu a pena. Foi leve. Na manhã seguinte, já estava de volta ao trabalho no hotel. O movimento era maior do que o normal. Haveria uma reunião importante com investidores, e vi alguns rostos diferentes circulando pelos corredores. Foi então que, ao dobrar um deles, me deparei com o Anderson. Ele parecia apressado, camisa social e expressão focada. Mas ao me ver, parou imediatamente. — Kataleya! — disse, surpreso. — Achei que não trabalharias hoje. Disse a ele que resolvi vir, porque precisava me ocupar. Depois sorri leve, e então comentei, tentando parecer casual: — Curioso!… ontem eu vi o teu pai aqui. Ele franziu o cenho, surpreso de verdade. — Soubeste? — perguntei. — Sim… ele ligou ontem à noite, disse que estava de passagem por aqui com a esposa e a filha. Mas... não sabia que ele estaria neste hotel. Eu ia contar o que vi. O que escutei. O t**a. A ameaça. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma funcionária que eu não conhecia apareceu apressada. — Senhor Anderson, estão esperando o senhor na sala de conferência. Precisam que o senhor vá agora. Ele assentiu e olhou pra mim com um pedido silencioso. — Nos falamos depois. Prometo. Assenti com um leve nó na garganta. E ali fiquei, observando-o se afastar, com as palavras presas dentro de mim… e um pressentimento que me incomodava. Já era noite, o movimento no hotel tinha diminuído consideravelmente. Eu estava a terminar alguns relatórios na recepção quando, ao longe, vi uma figura apressada passar com duas malas… era a irmã do Anderson. Reconheci-a mesmo com a pouca luz da entrada principal. Ela caminhava determinada, como quem tentava sair despercebida. Deixei tudo e fui atrás dela. Alcancei-a já quase na porta de vidro. Segurei-lhe pelo braço, com cuidado. — Ei… onde vais querida? — perguntei de forma suave, tentando não assustá-la. Ela ficou parada, mas não me olhou nos olhos. Apenas disse, com voz embargada: — Estou cansada… não aguento mais. Eu só quero sair daqui. — Mas vais pra onde? Vais com quem? Fugir assim, no meio da noite, sozinha…não é solução. Ela respirou fundo, ainda evitando o meu olhar. — Já não sei o que fazer… ninguém me entende. Nem ele… nem minha própria mãe. Ninguém! Dei um suspiro. — Diz-me pelo menos o teu nome — pedi, mais suave. Ela hesitou por um segundo. Depois murmurou: — Lukela. Segurei a mala com uma das mãos e encarei-a com firmeza e empatia. — Então, Lukela… por favor, volta comigo. Conversamos com calma, amanhã pensas melhor. Agora não é hora de tomar decisões no impulso. Ela não disse nada, mas também não resistiu. Apenas deixou-se guiar de volta para dentro do hotel. Coloquei as malas dela num canto e levei-a até o sofá da recepção. Estava fria, visivelmente abalada, mas deixou-se sentar. Sentei-me ao lado, de lado para ela, e comecei com calma: — Eu sei que às vezes parece que o mundo inteiro tá contra ti. Que ninguém entende, ninguém escuta. Mas fugir assim, sem direção… só vai aumentar esse vazio que tu já estás a sentir. Ela não respondeu, apenas olhava para baixo, com os olhos marejados. — Às vezes a dor é tanta que a gente só quer sumir. Mas sabes o que aprendi? Que por mais intensa que a dor pareça ser, ela nunca dura pra sempre, existem muitas coisas boas, mas as más nos fazem crescer. Tu és jovem, tens uma vida inteira pela frente, e não precisas enfrentar tudo sozinha. Ela respirou fundo, as mãos trêmulas sobre o colo. — Não importa o que disseram pra ti, ou como te fizeram sentir… tu tens valor, Lukela. E eu tô aqui agora, tá? Pra te ouvir, pra te ajudar. Mas preciso que confies em mim. Fica. Só por hoje. Amanhã decidimos juntas o que fazer. Por fim, ela me olhou. E mesmo sem dizer nada, eu vi nos olhos dela que minhas palavras a tinham alcançado. Enquanto estávamos sentadas no sofá da recepção, rindo, o silêncio sendo a única trégua que Lukela parecia ter encontrado, de repente uma voz grave vinda do lado do elevador. A voz grave e furiosa ecoou pelo saguão vazio: — Lukela! Onde é que te meteste?! Ela estremeceu ao ouvir o nome sendo gritado. Levantou-se num salto, apavorada, enquanto eu também me pus de pé ao seu lado. Em segundos, o homem veio em nossa direção com passos pesados, olhos em chamas. — Lukela, vamos agora! — ele avançou para puxá-la pelo braço, mas rapidamente me coloquei na frente dela, impedindo o contato. — Não — eu disse firme, mesmo sentindo meu coração disparar. — Quem pensa que é pra se meter no que não te diz respeito? — ele rosnou, tentando me empurrar. Hesitei por um segundo, mas encarei-o com os olhos cheio de raiva: — Incrível… o senhor não mudou nada. Ele franziu o cenho, confuso. — Eu conheço você? Naquele momento eu hesitei e olhei bem fixo nos seus olhos. Mas depois ganhei coragem. — Sim. Eu sou a Kataleya. Filha da Núria… a mulher que o senhor batia sem peso na consciência. O silêncio durou um segundo tenso, mas ele apenas bufou com desprezo. — Podes ser até o anjo Gabriel, mas não te metas em assuntos de família. Num gesto brusco, ele me empurrou com força e eu caí ao chão, o impacto do piso frio rasgando meu orgulho. Antes que eu pudesse reagir, ele agarrou Lukela pelo braço. Foi quando, como uma flecha, Anderson apareceu no saguão. Os olhos dele encontraram os meus, no chão. E em milésimos ele correu até mim. — Kataleya?! O que aconteceu? — disse ele, agachando-se ao meu lado, me ajudando a levantar. As pessoas já começavam a se aglomerar na entrada. Murmúrios, olhares. Anderson se virou para o pai, indignado. — Larga ela agora! — gritou, com uma firmeza que paralisou até o próprio pai. O momento ficou tenso. Tudo podia acontecer. Anderson se colocou entre o pai e a irmã, os olhos dele já não carregavam só a raiva — havia decepção, desilusão profunda. Por um instante, o silêncio dominou o saguão. O pai o encarou, surpreso, talvez nunca imaginando que o próprio filho ousaria desafiá-lo em público. — Solta ela. — A voz de Anderson era baixa, mas cortante. Não pedia. Ordenava. Papai, ainda segurando Lukela pelo braço, hesitou. Talvez estivesse tentando entender se aquilo era real. Anderson sempre fora o filho calado, que aceitava tudo calado. Mas ali estava ele, homem feito, imponente, com o olhar que já não pedia aprovação, mas exigia respeito. — Eu disse pra soltar! — Anderson repetiu, agora mais alto. As pessoas começaram a gravar, a cochichar. A tensão explodia como eletricidade no ar. O pai de Anderson soltou Lukela com um movimento brusco. Ela correu para trás do irmão, embora não o conhecesse bem, e se agarrou em sua camisa, trêmula. Eu já estava de pé, observava tudo em silêncio, ainda sentindo dor no corpo, mas firme por dentro. Anderson deu um passo à frente, tão perto do pai que apenas centímetros os separavam. …
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