Capítulo 27- “Aconteceu..”

1345 Words
Então ele afastou um fio do meu cabelo, com delicadeza. Nossos olhos se encontraram. E naquele instante, senti que se não fizesse nada, o beijo aconteceria. Mas eu desviei o rosto. Recuo. Emoção demais, confusão demais. — Eu… acho melhor eu ir — disse rápido, virando de costas como quem foge de um abismo. Anderson deu um passo à frente, a voz dele soou calma, firme: — Espera… Tu precisas esperar pela Natália. Me virei de novo, já segurando minha bolsa. — Ela me encontra em casa — respondi, quase sussurrando. Mas antes que eu desse o próximo passo, senti sua mão na minha cintura. Firme. Quente. O toque dele me fez estremecer. — Hoje… — ele murmurou, olhando nos meus olhos — tu podes fugir, mas não pra sempre. Fiquei ali, parada. Dividida entre o medo e a vontade. Entre fugir de novo… ou ficar e encarar o que, no fundo, eu também queria. — Hoje… hoje eu não vou fugir — murmurei, num fio de voz, sentindo meu coração acelerar descompassado. Anderson sorriu com aquele olhar quente que me fazia esquecer até onde estava. Sua mão, ainda firme na minha cintura, me puxou com mais intenção, e nossos corpos ficaram perigosamente próximos. Meu rosto ergueu-se ao dele, e já não havia mais espaço entre nossas respirações. Ficamos assim, por segundos que pareciam eternos. Dois corações que batiam fortes, entre um passado conturbado e um presente carregado de desejo contido. Ele me olhou nos olhos como se quisesse me decifrar. — Então fica — disse, quase num sussurro. Não respondi. Apenas fechei os olhos quando senti sua testa encostar na minha. E, num gesto que parecia inevitável desde sempre, seus lábios encontraram os meus. Um beijo que começou suave, como se ambos ainda confirmássemos que aquilo estava mesmo acontecendo… mas logo cresceu em intensidade e sentimento. Não havia mais dúvidas. Havia apenas nós dois ali. E tudo o que não foi dito antes, o beijo disse agora. O beijo terminou com a mesma suavidade com que começou. Mas eu ainda sentia meus lábios formigando, e a minha respiração estava descompassada. Anderson afastou o rosto apenas o suficiente para me olhar nos olhos, como se procurasse uma resposta silenciosa, uma confirmação de que aquilo não tinha sido um erro. Eu, por outro lado, sentia o chão fugir sob os meus pés. Estava tonta… não pelo gesto em si, mas pela avalanche de emoções que ele trouxe. Me afastei um pouco, passando os dedos pelo cabelo como quem tenta organizar os próprios pensamentos. — Desculpa — murmurei, mesmo sem saber exatamente pelo quê. — Eu... eu não sei o que estou fazendo. Anderson franziu levemente a testa, confuso, mas não disse nada de imediato. Ele apenas assentiu com a cabeça, respeitando meu silêncio. Me sentei no braço do sofá, tentando respirar fundo, buscando uma forma de recuar sem parecer que estava fugindo outra vez. Mas, no fundo, era isso… eu estava fugindo. Quando me levantei, pronta pra sair, Anderson se aproximou e segurou minha mão, depois me deu um abraço. Ainda entre os braços dele, senti o peito subir e descer com a respiração pesada. Eu estava vulnerável, entregue — e, ao mesmo tempo, assustada com tudo que aquele beijo podia significar. Quando nos afastamos, Anderson ainda segurava minhas mãos. — Kataleya — ele começou com a voz firme, mas calma —, a gente precisa conversar sobre o que aconteceu. Não foi um impulso à toa… aconteceu porque os dois queriam. Assenti levemente, sem conseguir encará-lo por muito tempo. — A gente é adulto — ele continuou —, já passou da hora de aceitar o que sente. Ficar escondendo ou fugindo disso só machuca os dois. Eu engoli em seco. Minhas mãos ainda estavam entre as dele, e meus dedos tremiam um pouco. Foi então que ele me olhou nos olhos, sem desviar, e disse com a naturalidade de quem sabia exatamente o que queria: — Você quer namorar comigo? Meu coração congelou por um segundo. Eu não esperava ouvir isso tão direto, tão claro… tão dele. Fiquei ali, parada, tentando encontrar uma resposta dentro de mim, enquanto as palavras ecoavam como um segredo que já existia no meu peito, mas que eu ainda não tinha coragem de dizer em voz alta. Ele percebeu meu silêncio e não pressionou. Apenas soltou um suspiro e passou os dedos levemente sobre os meus, como quem não quer soltar, mas sabe que precisa dar espaço. — Não precisa me responder agora — disse com um sorriso torto, meio triste, meio esperançoso. — Mas também não demora, Kataleya. Esperar é cansativo… Ele fez uma pausa, e seus olhos buscaram os meus. — A espera, às vezes, destrói toda a esperança que temos e impede o que ainda poderia florescer. É melhor ouvir um “não” do que morrer de ansiedade tentando adivinhar o que se passa aí dentro. Desviei o olhar, sentindo o peso das palavras. — Eu te dou um dia — ele concluiu com um tom firme, mas gentil. — Um só. Assenti em silêncio, tentando controlar o turbilhão dentro de mim. Ele me deu um beijo na testa, suave, como quem diz “cuida disso com carinho”, e se afastou devagar, me deixando ali, mergulhada entre o medo de fugir e a vontade de ficar. Eu não disse nada. Apenas fiquei ali, parada, tentando organizar tudo o que estava a sentir. O silêncio entre nós gritou mais do que qualquer palavra. Foi quando a campainha tocou. Anderson foi atender. Era a Natália e a Lukela. Entraram sorrindo, mas logo perceberam o peso no ar. O clima havia mudado, e não demorou para que Natália me lançasse aquele olhar de "o que está acontecendo aqui?" — Precisamos ir pra casa — disse, tentando soar natural. Mas até minha própria voz me entregou. Anderson não hesitou. — Eu levo vocês. E não quero ouvir um “não” como resposta. Assenti com um gesto simples. Não queria mais discussões. No carro, o silêncio parecia ocupar todos os espaços. Nem mesmo a Lukela, sempre tão falante, se manifestava. Natália olhava para mim, depois para Anderson, e depois para frente, como se tentasse montar um quebra-cabeça que nem ela sabia que existia. E eu… eu só queria chegar em casa. Ou talvez… entender o que se passava dentro de mim. Assim que entramos em casa, não disse uma palavra. Fui direto para o quarto, tirei os sapatos pelo caminho e me joguei na cama como se pudesse me esconder do mundo inteiro. Me enfiei debaixo dos lençóis, afundando o rosto no travesseiro. Alguns segundos depois, ouvi a porta abrir lentamente. — Kataleya... — era a Natália. — Anda, conta logo o que aconteceu lá. Senti ela tentar puxar o lençol de cima do meu rosto, mas segurei firme. — Natália, por favor… só me dá um pouco de espaço— minha voz saiu abafada — amanhã eu conto…amanhã. Ela suspirou e saiu do quarto, deixando a porta meio encostada. Fiquei ali no escuro, ouvindo meu próprio coração bater, tentando organizar o que nem eu sabia explicar direito. Ás vezes, o silêncio é o único lugar onde a gente consegue respirar. “É estranho gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. Uma é o passado que ainda dói, a outra é o presente que insiste em mexer comigo. Estou quarenta por cento presa ao que fui com ele, mas sessenta por cento inclinada ao que posso ser com quem me quer agora. Gostar de duas pessoas ao mesmo tempo é como estar dividida entre a ferida e a cura. O ex ainda vive em mim, não como antes, mas o suficiente pra bagunçar o que sinto. É como se quarenta por cento de mim ainda procurasse entender o que deu errado, enquanto sessenta por cento quer seguir em frente com quem está aqui, agora, me mostrando que o amor ainda vale a pena. E no fundo, sei que essa balança nunca vai se equilibrar sozinha… uma hora, vou ter que decidir pra que lado quero mesmo viver."
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD