Capítulo 26- Os Sessenta Por Cento

1351 Words
No dia seguinte foi meu dia de folga. O corpo pedia descanso, mas a mente não parava de girar em círculos ao redor de uma única ideia: ir à casa do Anderson. Ele havia dito que a Lukela queria me ver, e por mais que parte de mim quisesse manter um pouco de distância da casa dele, e do que eu sentia quando estava com ele, outra parte sabia que eu não podia me afastar da menina agora. Mas ir sozinha? Depois do que aconteceu da última vez, nem pensar. Aquela quase cena... aquele quase beijo... aquele quase tudo... não. Eu precisava de um escudo. Ou, melhor dizendo, de uma presença que me mantivesse firme. Foi então que convidei a Natália sem o Shelby saber. No início, ela me olhou com aquela cara de quem acha que estou sempre complicando tudo. Disse que talvez eu estivesse a exagerar. Talvez eu estivesse mesmo, mas ela não discutiu por muito tempo. E no fundo, sei que entendeu. “Não era só sobre o Anderson. Era sobre mim. Sobre não estar totalmente preparada pra uma relação, um novo romance. Não que eu não gostasse dele! De cem por cento, nele estavam sessenta, os outros quarenta… por incrível que pareça ainda estavam no Shelby. Estava sendo egoísta?! Não sei. Mas o que eu sentia não se acaba facilmente”. Chegamos. Meu coração bateu mais rápido do que deveria enquanto o dedo pressionava a campainha. Do lado de dentro, ouvi passos, e então a maçaneta girou. Quando a porta abriu só o suficiente para ele me ver, vi o brilho no rosto dele. Um sorriso bonito, sincero... que durou segundos. Quando a porta se escancarou por completo e ele viu a Natália ao meu lado, o sorriso sumiu. Não devagar. Sumiu de repente. E eu percebi. Ele não disse nada. Nem precisava. Não precisava de palavras — eu vi. Vi a confusão no rosto, o ligeiro levantar das sobrancelhas, o jeito como ele desviou o olhar, como se o que viu tivesse bagunçado seus planos. Natália, com aquele seu jeito observador, percebeu também, mas fingiu naturalidade. Cumprimentou-o como se estivesse tudo bem. E eu? Eu forcei um sorriso e disse a ele que achei melhor que viéssemos juntas, e que talvez a Lukela se sentisse mais à vontade com mais alguém por perto. Mas no fundo, era eu quem precisava disso. Eu que não queria ser pega outra vez no meio do nada, com sentimentos que nem sei como gerir. Naquele silêncio rápido, entendi que havia estragado algo que talvez nem tivesse começado. Mas preferia assim. Era melhor ferir um pouco agora do que me perder inteira depois. Anderson deu um passo para o lado, abrindo espaço para que entrássemos.O ambiente da casa tinha aquele cheiro acolhedor de comida no fogo e casa habitada. Ele foi até o corredor e chamou por Lukela, que logo apareceu no topo da escada. — Lukela, essa é a Natália, minha amiga — apresentei com um sorriso leve. Anderson reforçou com simpatia: — A Natália é amiga da Kataleya, e está nos visitando hoje. Ela acenou timidamente e respondeu com um "prazer". Anderson voltou logo depois com mais um prato e colocou à mesa. Foi nesse momento que Natália se inclinou levemente em minha direção e cochichou: — Acho que não fui convidada mesmo... Dei-lhe uma cotovelada de leve e revirei os olhos com um sorriso contido. Ela mordeu o lábio pra segurar a risada. Enquanto Anderson ajeitava a mesa, tirei o presente de Lukela. — Trouxe uma coisinha pra ti. — disse, entregando a sacola. Ela abriu com olhos brilhando de expectativa e, quando viu a bolsa e o tênis, soltou um gritinho alegre. — É o que eu queria! — disse, quase me derrubando com o abraço que me deu. — Obrigada, Kataleya! Muito obrigada! — Vai lá experimentar — incentivei. Ela subiu animada, como uma criança com o primeiro presente dado pelos pais. Anderson apenas observava com um sorriso discreto. Minutos depois, Lukela desceu já usando os novos presentes, e foi direto para a mesa. Sentamos todos para almoçar, e por um instante, tudo pareceu normal, parece até que já haviam esquecidos o transtorno que causei ao trazer a Natália. Até mesmo o silêncio entre Anderson e Natália parecia menos desconfortável com Lukela ali, rindo e falando animada sobre como o tênis combinava com quase todas as roupas dela. E eu… eu apenas observava. Aquilo tudo era mais do que eu esperava para aquele dia de folga. Depois de terminarmos o almoço, nos entreolhamos com aquele típico ar de satisfação e cansaço bom. A mesa estava uma bagunça, pratos vazios, copos fora do lugar e guardanapos amassados. Levantei-me e, sem rodeios, comecei a recolher os pratos. — Eu lavo — ofereci, já caminhando até a pia. Anderson veio atrás de mim, pegando os copos e os talheres. — Deixa que eu te ajudo — disse com naturalidade, como se lavar louça ao meu lado fosse rotina. Enquanto a água corria, a espuma se formava nas minhas mãos. Sentia o olhar dele de vez em quando, mesmo quando estava concentrado em enxaguar os pratos. Havia uma calma estranha entre nós. Não era silêncio desconfortável… era mais como se as palavras estivessem suspensas no ar, esperando o momento certo pra cair. — A tua amiga parece legal — comentou de repente, referindo-se à Natália. — É, ela é... E bem observadora também — falei com um sorriso de canto. Demos uma risada curta. Ao fundo, dava pra ouvir a voz leve da Lukela conversando com Natália no sofá da sala. Tinham se dado bem. Isso me trouxe alívio. Eu queria que tudo fluísse com leveza. Queria que, pelo menos por um tempo, as coisas fossem simples. Estávamos terminando de enxugar os últimos pratos quando Natália apareceu encostada no batente da porta da cozinha, com os braços cruzados e um sorrisinho suspeito nos lábios. — Acho que eu e a Lukela vamos ao hipermercado comprar bananas — disse, como se fosse a coisa mais urgente do mundo. Franzi a testa, confusa. — Bananas? Antes que eu conseguisse formular outra pergunta, Natália já estava chamando Lukela com um tom animado demais pra uma simples ida ao mercado. — Vamos, Lu! Vamos dar uma volta. Preciso da tua ajuda pra escolher — insistiu, pegando a chave e a bolsa com pressa. Lukela olhou pra mim como quem busca autorização silenciosa. Dei de ombros, ainda tentando entender. Mas Natália foi rápida: puxou a menina pela mão e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, já estavam fora pela porta. O silêncio que se instalou foi imediato. Fiquei parada no meio da cozinha, segurando o pano de prato, olhando para a porta como se ela ainda fosse me dar respostas. Quando virei, encontrei o olhar do Anderson em mim — calmo, direto, e talvez um pouco divertido. Natália sabia o que estava fazendo. E fez de propósito. E agora… estávamos a sós. O silêncio que se instalou na sala assim que a porta se fechou foi tão denso quanto o ar entre nós. A ausência da Natália e da Lukela transformou o ambiente. Fiquei de pé por um instante, meio sem saber o que fazer. Meus dedos passeavam pela borda da cadeira, como se aquilo fosse suficiente pra controlar o que eu estava sentindo. Anderson se encostou no balcão e me observava. Olhos calmos, mas atentos. — Tu fizeste a Lukela sorrir de um jeito que eu nunca vi — ele disse, com a voz suave. Sorri, tímida, tentando disfarçar o impacto das palavras. — Foi só um presente… — Não. Não foi só isso — ele insistiu, caminhando lentamente até perto de mim. — Foi cuidado. Foi carinho. Às vezes me pergunto se tu tens noção do bem que faz às pessoas. Olhei pra ele e por um segundo fiquei sem palavras. Ele estava tão perto. O suficiente pra eu sentir o perfume discreto, o calor da sua presença. Ele estendeu a mão, tocando levemente a minha. Meu corpo respondeu antes de mim: o coração acelerado, a respiração um pouco mais curta…
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