Capítulo 15- “De volta ao passado”

1026 Words
Era sábado. Finalmente meu dia de folga. Acordei um pouco mais tarde que o normal, e Natália já estava na cozinha, preparando algo que cheirava maravilhosamente bem. — Hoje vai ser especial — disse, enquanto pegava um copo de sumo. — Convidei o médico que me salvou pra jantar. Quero te apresentar ele. Natália ergueu as sobrancelhas, sorrindo com curiosidade. — Humm… tem alguma coisa aí? — Calma — ri. — Quero só que conheças ele. É alguém importante pra mim… muito mais do que você imagina. … A noite chegou e, pontualmente, a campainha tocou. Abri a porta e lá estava ele: Anderson. Terno impecável, sorriso gentil e um ramalhete de flores nas mãos. — Essas são pra ti — disse me entregando as flores — e essas outras são pra tua amiga. Natália apareceu logo atrás de mim, encantada com o gesto. Ele lhe entregou as flores com delicadeza, e ela o agradeceu com um sorriso doce. — Natália, este é o Anderson… meu irmão — disse com naturalidade, mas antes que ela pudesse dizer algo, ele me cortou: — Ex-irmão, por favor, tens de parar de me chamar de irmão — disse com um meio sorriso. — Desde que nossos pais se separaram… a tua mãe e o meu pai… deixamos de ser irmãos no papel, pelo menos. Ficamos em silêncio por um segundo. Natália nos olhou com um ar de confusão leve, até que rimos todos juntos para quebrar o clima. — Mas isso não muda o carinho — acrescentei. — Ele sempre foi parte da minha vida. E ali, naquela noite, mesmo com tudo o que tinha vivido nos últimos dias, senti que talvez as coisas estivessem a começar a entrar nos eixos. Natália voltou com a sobremesa e encontramos forças para retomar a leveza do jantar. Por um instante, tudo parecia em paz. Mas no fundo, eu sabia… essa paz era só o intervalo antes da próxima tempestade. Aquela noite teve um gosto agridoce. Ver o Anderson ali, rindo com Natália, brincando com o guardanapo, fazendo piadas com o vinho… parecia tão natural, como se nunca tivéssemos sido separados. Mas por mais que eu tentasse me manter leve, meu coração ainda carregava cicatrizes demais pra relaxar por completo. Quando a sobremesa acabou e as risadas foram dando lugar ao silêncio confortável, eu levantei e fui até a janela. A noite estava calma lá fora, mas dentro de mim, tudo era confuso. Por um momento, senti Anderson se aproximar — ele não disse nada, só ficou ali, ao meu lado, olhando o mesmo escuro que eu. A presença dele me aquecia, e ao mesmo tempo, me lembrava do quanto eu tinha perdido. Do quanto tinham arrancado da minha vida sem aviso. E agora, vê-lo ali, tão presente… era bonito e c***l ao mesmo tempo. Depois que ele foi embora, abracei Natália por trás, agradecida por ela estar sempre ali. Não disse nada. Ela também não perguntou. Ficamos assim por alguns segundos, em silêncio. Naquela noite, dormi com o coração cheio de memórias. E no fundo… uma sensação estranha de que o passado ainda não tinha terminado comigo. Talvez… estivesse só começando. Acordei com a luz suave atravessando as frestas da cortina, aquecendo o quarto lentamente. O corpo ainda carregava o cansaço dos últimos dias, mas era a mente que gritava. A noite me trouxe lembranças da infância — do Anderson, dos gritos do meu pai, da voz dele me protegendo, repetindo baixinho “eu tô aqui”. Era como se o passado batesse à porta, pedindo para ser lembrado. Levantei devagar, vesti o primeiro moletom que enc. ntrei e desci para a cozinha. Natália já estava lá, mexendo o café com aquela calma que só ela sabia ter. Seus olhos me analisaram por um segundo antes de perguntar, com a voz mansa: — Cê não teve um bom sono, neh? Apenas assenti, aceitando a xícara quente que ela me ofereceu. O aroma era acolhedor, mas o nó no peito continuava ali. Ela encostou no balcão, observando-me com carinho. — O Anderson te trouxe lembranças, não é? Sim, ele trouxe. Mais do que lembranças — trouxe uma parte de mim que eu havia enterrado. Uma parte que doía demais lembrar. Depois do café, subi ao quarto e me ajoelhei diante do armário. Puxei uma caixa antiga, escondida no fundo, coberta de poeira e esquecimento. Dentro, estavam memórias que um dia foram tudo: fotografias desbotadas, desenhos rabiscados, bilhetes escritos com pressa. A infância, ali, guardada como um segredo. Espalhei tudo no chão. Os olhos passearam por cada detalhe como quem reencontra uma parte perdida da alma. Não fugi dessa vez. Não chorei. Apenas senti. E pela primeira vez em muito tempo, deixei que as lembranças me atravessassem sem resistência. Talvez, só talvez, fosse esse o primeiro passo para seguir em frente. Voltar ao começo… para reconstruir o que sobrou de mim. Fechei a caixa com cuidado, como se selasse algo que agora, enfim, estava em paz. Coloquei-a de volta no lugar de onde veio, mas diferente de antes, não era mais um peso — era parte da minha história, e eu estava começando a aceitá-la. O resto do dia passou calmo. Natália e eu limpamos a casa, colocamos uma música leve, e pela primeira vez em dias, ouvi meu próprio riso ecoar nos corredores. Era tímido, quase envergonhado, mas verdadeiro. Quando a noite chegou, me arrumei com uma simplicidade que refletia meu estado de espírito. Não era sobre impressionar, era sobre estar presente. Eu e a Natália saímos pra passear, vimos filmes, andamos em parques de diversões como se fôssemos crianças. Foi um dia super divertido e relaxante. Foi ali que percebi: mesmo depois de tudo, eu ainda tinha com quem contar. E isso, naquele momento, era mais do que suficiente. Naquela noite, antes de dormir, olhei pela janela do meu quarto. As luzes da rua pareciam menos ameaçadoras. As sombras… menos pesadas. Talvez os fantasmas nunca desaparecessem por completo. Mas agora, eu sabia: não precisava enfrentá-los sozinha. E foi assim que aquele capítulo terminou — com a certeza de que, apesar das perdas e da culpa, ainda havia espaço para recomeços.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD