Parece que cenas ruins não deixam de acontecer em minha vida:
Estava sozinha em casa. Natália tinha saído para o mercado, estava um total silêncio. Tinha sido um dia muito exaustivo no trabalho. Sentei no sofá com uma xícara de chá nas mãos, tentando organizar os pensamentos. Não ouvi a porta se abrindo — só percebi quando a voz arrastada soou atrás de mim.
— Kataleya…
Virei-me devagar. Willian. Rosto cansado, olhos levemente vermelhos. Havia cheiro de álcool no ar, mas ele não estava completamente embriagado. Caminhou em minha direção com passos desajeitados, mas firmes.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, já me levantando.
Ele não respondeu. Apenas me encarou com uma intensidade estranha. Deu mais um passo… e outro. Antes que eu pudesse reagir, segurou meu braço com força.
— Willian! Para com isso!
— Foi tudo culpa dela… — murmurou, referindo-se a Shelma. — Você não entende como é ser traído…
E então, num ato bruto, me empurrou de volta para o sofá. Meu corpo bateu com força, e ele veio por cima, tentando me beijar à força.
— Me deixa Will! — gritei, empurrando ele com toda a força que tinha. — Você tá louco?!
Me debatia, os olhos cheios de lágrimas, tentando escapar. O desespero crescia no meu peito como um incêndio sem controle.
Foi então que a porta se escancarou.
— O que está acontecendo aqui?! — gritou Natália.
Ela correu até nós e, sem pensar duas vezes, acertou Willian com a bolsa. Ele recuou, cambaleando.
— Você ficou maluco?! — berrou ela, e em seguida, deu-lhe um t**a no rosto.
— Volta pra realidade, Willian! Isso é vingança?! A Shelma errou, mas isso aqui?! Isso é nojento!
Ele, envergonhado e confuso, apenas passou a mão pelo rosto e saiu sem dizer nada.
Eu permaneci no sofá, sem conseguir respirar direito. As lágrimas escorriam sem controle. Minhas mãos tremiam.
— Eu não mereço isso… — sussurrei. — Por que comigo… por que comigo as coisas nunca dão certo?
Natália se ajoelhou ao meu lado e me abraçou forte, como se quisesse colar todos os pedaços quebrados do meu corpo. Mas havia feridas que nem abraço curava.
E naquele momento, eu só queria desaparecer do mundo por um tempo. Ou pelo menos… não sentir mais nada.
…
Alguns dias se passaram desde aquela noite h******l. Eu tentei seguir com a vida, fingi que estava tudo bem, mas por dentro… a dor ainda ecoava. Não era só medo — era decepção. E talvez um pouco de raiva também.
Saí do hotel pronta pra ir pra casa, mas parei um pouco para respirar, quando o vi.
Willian.
Estava encostado num carro, parado do lado de fora. Quando nossos olhos se cruzaram, meu corpo travou. E o impulso foi de correr. Mas ele me alcançou antes.
— Por favor, só me escuta, — disse, segurando meu braço, mas com menos força que da última vez. — Só quero conversar.
— Não tenho nada pra falar com você, Willian, — murmurei, tentando me soltar.
— Eu sei o que fiz, e sei que errei. Só… me dá cinco minutos.
Suspirei. Contra todo o bom senso, assenti. Caminhamos em silêncio até uma lanchonete ali perto. Sentamos.
Ele não olhou pra mim de imediato.
— Eu tô aqui pra pedir desculpas, — começou. — O que eu fiz foi inaceitável. Eu… só tava cego de raiva. Achei que se te usasse, de alguma forma ia doer nela. Na Shelma.
Engoli seco. A ferida reabriu com essas palavras.
— Você me usaria só pra atingir outra pessoa? — perguntei, decepcionada. — Você tem noção do que tá dizendo?
Ele abaixou a cabeça.
— Eu sei. Eu fui um i****a. Não sou assim.
— Não, Willian. Você não era assim. Mas está virando.— falei firme. — Você acha mesmo que fazer o mesmo que ela fez vai te fazer se sentir melhor? Vingança não vai apagar nada. Só vai te destruir também.
Ele ficou em silêncio.
— Se continuar por esse caminho,— continuei, encarando ele nos olhos, — você vai ser pior que a Shelma e o Shelby juntos. E você não é esse cara. Não era pra ser.
Ele assentiu, sem saber o que responder.
Levantei-me.
— Eu te perdoo, mas me deixa em paz. Não quero fazer parte dessa vingança i****a.
Saí da lanchonete com o coração pesado, mas em paz por ter dito tudo. Algumas dores a gente não escolhe passar, mas pode escolher não carregar. E foi isso que eu fiz.
Chamei um táxi e, durante o caminho, encostei a cabeça no vidro, tentando respirar fundo. Eu precisava de distância. Dele. Dela. De tudo. Depois de conversar com Willian naquela lanchonete, meu corpo só pedia descanso. Mas, ao chegar em casa, me deparei com outra surpresa: Shelby. Ele estava saindo do portão no exato momento em que eu chegava.
Revirei os olhos, exausta.
— Parece que o mundo resolveu conspirar contra mim hoje — murmurei, mais pra mim mesma do que pra ele.
Shelby deu um passo na minha direção, hesitante.
— Kataleya… só um minuto.
Respirei fundo, parada no mesmo lugar, braços cruzados.
— Vai.
Ele passou a mão pelos cabelos, como quem buscava coragem nas palavras.
— Queria pedir desculpas pelo que disse naquela noite quando estavas com o Doctor. Eu fui e******o, eu sei. E… — ele engoliu seco — também queria pedir desculpa por tudo o que aconteceu com a Shelma. Eu… eu acabei me envolvendo. Mas o que eu sinto por ti não é mentira. Eu gosto das duas, e talvez... talvez tenhas feito bem em descobrir.
Eu franzi o cenho. Ele parecia acreditar no que dizia — e isso era o mais assustador.
— Nem tudo o que achamos que nos faz bem realmente é bom, Shelby. Tu estás sendo egoísta. Não é amor quando se machuca quem dizemos amar. Tu não vês erro porque só estás a olhar pra ti.
Ele tentou falar de novo, mas levantei a mão.
— Teu minuto acabou.
Me virei sem esperar resposta e entrei na sala, fechando a porta atrás de mim com firmeza. Naquele momento, entendi que certos ciclos só se encerram quando a gente fecha a porta de vez.
Entrei em casa com os ombros pesados. Ao fechar a porta, ouvi risos baixos vindos da sala. Segui o som e encontrei Natália em frente ao tripé com o celular, gravando mais um vídeo para as redes sociais.
Ela falava animada para a câmera, mas assim que me viu, desligou tudo e correu até mim.
— Ei, como estás? — perguntou com carinho.
Forçei um sorriso, mas meus olhos carregavam cansaço.
— Não totalmente bem… só tenho me contentado.
Natália segurou minha mão. — “Talvez você precise parar de tentar entender os outros… e começar a cuidar só de ti.”
Natália não insistiu. Apenas me abraçou forte, em silêncio. Era o tipo de gesto que dizia tudo sem precisar de palavras.
Depois, para quebrar o clima, Natália me puxou até o sofá.
— Vem ver o que eu tava fazendo. Tá ficando tão legal!
Mostrou o vídeo no celular, já com algumas edições prontas — transições rápidas, cenas engraçadas e até uns efeitos exagerados que arrancaram um sorriso tímido de mim.
— Ficou mesmo bom — disse, encostando a minha cabeça no encosto do sofá.
Elas continuaram ali, trocando comentários, vendo os erros de gravação e rindo juntas até a noite cair de vez. Por alguns instantes, o peso do dia pareceu menor.
Alguns dias se passaram, e eu segui focada no trabalho, evitando tudo que pudesse me lembrar da dor. Mas o mundo não parava. E, do outro lado, as peças também se moviam…