Capítulo 19- “Shelma, egoísta”

1249 Words
… Depois do beijo, senti meu corpo congelar. Me afastei devagar, olhando Anderson nos olhos com o coração disparado. — Isso foi um erro… — murmurei, tentando controlar a respiração. — Isso não vai funcionar entre nós dois. Ele franziu o cenho, confuso, mas firme. — Claro que vai, Kataleya. Somos adultos. E você sabe que sente algo por mim. Só tá com medo de admitir. Balancei a cabeça, recuando um passo. — O que eu sinto por ti… é carinho de irmão. Só isso, Anderson. Por favor, não misture as coisas. A tensão no ar era palpável. Pedi que voltássemos logo pra pousada. O caminho foi preenchido por um silêncio tão denso que chegava a doer. Eu olhava pela janela, evitando encarar o reflexo dele no vidro. Assim que o carro parou em frente à pousada, destravei a porta e desci apressada, quase correndo. Era como se o contato com ele queimasse. Mas Anderson veio atrás. Me alcançou antes que eu subisse os degraus. — Kataleya, espera… a gente precisa conversar. Me virei, ainda ofegante, e soltei: — Amanhã, Anderson. Amanhã a gente conversa. E entrei. Fechei a porta atrás de mim, deixando o som abafado dos passos dele se afastando do outro lado. Me joguei na cama com o coração partido… por não saber ao certo quem eu estava tentando proteger. As vezes, “o mais difícil não é saber o que sentimos… mas sim admitir”. Naquela noite, quase não dormi. A cabeça girava entre o que eu sentia, o que pensava, e o que queria evitar. Quando o céu começou a clarear, tomei minha decisão. Peguei minhas coisas em silêncio e deixei a chave da pousada na recepção. Não deixei bilhete, não mandei mensagem. Apenas fui. Fugir? Talvez fosse mesmo isso. Mas eu precisava respirar longe dali. Sair logo daí. Horas depois, Anderson chegou à pousada com os olhos marcados pelo cansaço e a esperança de resolver tudo. Mas ao bater na porta do quarto, ninguém respondeu. Tentou de novo, chamou por meu nome — nada. Foi até a recepção. — A moça já partiu — disse a funcionária. — Saiu bem cedo, sozinha. Deixou só a chave. Anderson ficou parado, sem reação por um instante. Olhou ao redor, como se ainda esperasse me ver surgir do nada. Mas eu já tinha ido. E … sem me despedir. … Shelma apareceu em casa no fim da tarde. O rosto abatido, olhos fundos de quem carregava noites m*l dormidas. Natália foi quem a atendeu. Surpresa, mas não hostil. — Eu… precisava falar com você — disse Shelma, com a voz baixa. — Sei que talvez não seja o momento, mas eu precisava tentar. Sentaram-se na sala. Shelma manteve as mãos entrelaçadas, nervosa, o olhar perdido no chão. — Eu tô arrasada com tudo isso. Juro que nunca, nem por um segundo, passou na minha cabeça fazer isso com uma amiga… com a Kataleya. Eu errei. Muito. E não sei nem se um dia ela vai conseguir me perdoar. Natália respirou fundo e olhou firme nos olhos dela. — Shelma… se fosse você no lugar da Kataleya… perdoaria fácil? O silêncio da Shelma respondeu antes mesmo das palavras. — As coisas saíram do teu controle — continuou Natália — e também do controle do Shelby. Agora não é só sobre traição, é sobre confiança quebrada. Então, se quer um conselho… dê tempo a ela. Shelma assentiu devagar, com lágrimas nos olhos. — Mas esteja preparada, Shelma! O tempo pode ser lento, e a gente nunca sabe se o tempo cura… ou só distancia. Entrei animada, cheia de vontade de contar sobre a viagem e distrair a cabeça… mas assim que pus os pés na sala, parei. Lá estavam elas: Natália sentada no sofá e, ao lado, Shelma. Meu coração apertou no mesmo instante. Meu sorriso morreu. Shelma se levantou de imediato, como se quisesse dizer alguma coisa. Levantei a mão e cortei no ar: — Não, Shelma. Por favor. Natália se levantou também, com calma, vindo até mim. — Kataleya… só escuta. Só dessa vez. Não precisa perdoar agora, nem depois. Mas escuta. Pelo menos isso. Cruzei os braços, o corpo tenso. Não queria. Tudo em mim dizia pra virar as costas. Mas a voz da Natália… tinha razão. Talvez fosse preciso entender para, quem sabe, um dia conseguir esquecer. Soltei um suspiro pesado, desviando o olhar. — Tá bom. A gente conversa. Mas em outro momento. Com hora marcada. E só nós duas. Shelma assentiu em silêncio, visivelmente emocionada. — Obrigada — murmurou. Mas eu não respondi. Apenas subi pro meu quarto. Ainda não era perdão… mas talvez fosse o primeiro passo. Subi as escadas devagar, sentindo o peso da escolha que acabara de fazer. Meu corpo tremia levemente — de raiva contida, de dor antiga, de lembranças que eu ainda não tinha digerido. Fechei a porta do quarto atrás de mim, encostei nela e respirei fundo. Por alguns minutos, fiquei ali, parada. Sentei na beira da cama e encarei o chão, lembrando do que Shelma foi um dia pra mim… e do que se tornou. Não era só traição — era a quebra de uma confiança que eu achava inabalável. “Será que vale mesmo a pena ouvir?” — pensei. Mas algo em mim sabia que sim. Não pra ela. Mas por mim. Porque eu precisava seguir. E guardar tanto peso não era seguir… era me aprisionar. Peguei o celular e mandei uma mensagem curta pra Natália: “Quero conversar com ela amanhã à tarde. Só nós duas. Em um lugar neutro.” Ela respondeu quase na hora: “Vou avisar. Obrigada por tentar.” Coloquei o celular de lado e me deitei, puxando o cobertor até o queixo. Amanhã seria um dia difícil. Mas necessário. E eu estava disposta a encarar — por mais que doesse. Queria voltar ao trabalho sem remorsos. Na tarde seguinte, cheguei ao café com alguns minutos de antecedência. Escolhi uma mesa discreta, no canto, de onde eu pudesse ver quem entrava. O lugar tinha uma luz suave, uma música calma tocando ao fundo… e mesmo assim, meu coração batia acelerado como se eu estivesse prestes a subir num ringue. Shelma chegou pontualmente. Vestia uma roupa simples, os olhos vermelhos, talvez de tanto chorar. Parou diante da mesa, hesitou por um segundo e depois sentou-se à minha frente. — Oi — disse ela, com a voz fraca. — Oi — respondi, sem emoção. Ficamos em silêncio por alguns segundos. Ela olhou pra mesa, respirou fundo e começou: — Eu sei que não tenho o direito de te pedir nada. Sei que talvez nunca me perdoes. Mas precisava te olhar nos olhos e te dizer… que sendo sincera não me arrependo. E na realidade eu não sabia que minhas escolhas chegariam até esse ponto. Me dói saber que destruí algo tão bonito entre nós. Amizades assim não se encontram fácil. Eu cruzei os braços, tentando manter a firmeza. — Então por quê destruiu? Ela mordeu o lábio, tentando segurar as lágrimas. — Porque fui egoísta. Porque me senti sozinha, carente, e deixei a carência virar burrice. Não quero justificar, Kataleya. Só queria que soubesse que eu me odeio por isso todos os dias. Mas ainda assim não deixarei de gostar dele. Meu olhar endureceu um pouco. — Tu não foste egoísta, tu és, tens falta de empatia. — disse, com um olhar cheio de raiva — . E..vocês ainda estão juntos? — perguntei olhando direito nos olhos dela. …
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