Capítulo 31- O adeus

1315 Words
Quando Shelma e Shelby entraram no hospital, senti os passos deles se aproximarem, mas não me afastei de Anderson. Ele estava abraçado a mim, com o rosto escondido no meu ombro, chorando de um jeito que me partia o coração. Tudo nele tremia — e eu só conseguia abraçar ele, tentando acalma-lo Percebi o choque no rosto da Shelma quando nos viu. Ela ficou parada, sem dizer nada. Shelby veio mais perto, com passos lentos, respeitando o momento. Parou ao nosso lado e falou baixinho: — Kataleya… o que aconteceu?. Anderson não respondeu. Só apertou mais os braços ao meu redor, como se temesse desmoronar por completo se me soltasse. Levantei os olhos, sem conseguir conter as lágrimas, e sussurrei: — O pai dele… não resistiu. — a gente sente muito — respondeu ele. Depois de alguns minutos tentando me recompor, pedi que Shelby ligasse para Natália, e pedisse que ela viesse com a Lukela. No fundo, eu não sabia como ela reagiria. Era uma adolescente ... mas não era só uma. Foram duas perdas. Uma do pai… e a outra sua mãe, uma mulher que, mesmo com falhas, lhe dava algum tipo de presença. Meu coração apertava só de imaginar os olhos dela tentando entender tudo isso. Consegui acalmar o Anderson, mesmo estando ele muito pra baixo. Levamos ele até uma sala mais reservada, para que pudesse descansar um pouco — ou pelo menos tentar. Algumas horas depois, Lukela chegou. Natália não disse nada a respeito do acidente, apenas contou que Anderson queria vê-la e que iam dar uma volta. Assim que entrou no hospital e viu o estado do Anderson, seu rosto mudou completamente. Ela era esperta, sentia as coisas no ar. E logo perguntou, com aquela voz frágil: — Cadê a mamãe e o papai? Anderson congelou. Não conseguiu emitir uma palavra. Eu me aproximei, me agachei diante dela e, com os olhos tristes, apenas disse: — Kel… agora você precisa ser forte. Ela entendeu. Seus olhos se encheram de lágrima e, num segundo, desabou. Começou a gritar, chorar… com uma dor tão profunda que partia qualquer coração. No meio de tanta dor, algo ainda mais desesperador aconteceu — Lukela saiu correndo pelo hospital. Ninguém conseguiu impedir. Era como se quisesse fugir daquela realidade que lhe esmagava o peito. Ficamos em pânico. Procuramos por toda parte: corredores, sala de espera, jardim, até nos arredores do hospital. A cada minuto que passava, o medo crescia. Eram problemas atrás de problemas,quase não tínhamos espaço pra respirar. Depois de algumas horas angustiantes, foi a Shelma quem a encontrou. Viu um par de sapatinhos por debaixo da porta de uma das casas de banho. Era ela. Shelma não bateu, não forçou. Sentou-se do outro lado da porta e começou a falar com uma doçura: — Lukela… quando eu era mais nova que você, eu também perdi os meus pais. Tive que morar com a minha tia. Eu sei que dói, sei que parece que o mundo acabou… mas você não está sozinha. Demorou, mas aos poucos, a porta se abriu. E ali estava ela — os olhos inchados, a respiração falha, o coração em pedaços. Mas ao menos, não estava mais sozinha. Shelma se ajoelhou ao lado da porta, com o rosto próximo ao da Lukela, e falou com uma calma surpreendente. Disse a ela que pode até parecer que ninguém entendia o que ela sentia, mas que, na verdade, entendiam sim. "Os mais velhos só se esforçam pra parecer fortes porque precisam te consolar e cuidar de ti". Aconselhou-a a não se fechar, a não esquecer de si mesma no meio da dor. "Vai doer, sim. Vai demorar, mas vai passar. Acredite." Eu ouvia da porta, com o coração apertado. Shelma concluiu dizendo que estaria ali sempre que a Lukela precisasse conversar, porque ela, a própria Shelma, já tinha passado por isso, e sabia como era. Lukela não disse nada, mas ficou mais calma. “As vezes as nossas dores podem não passar, mas se tivermos alguém que nos entende, a dor minimiza”. Logo depois, abri a porta com cuidado… e ali estavam elas. Lukela, sentada no chão, ainda tremendo, e Shelma ao seu lado, segurando sua mão. Meu coração aliviou. Gritei no corredor: — Ela está aqui! Entrei de imediato, ajoelhei-me e abracei a Lukela com força. Ela chorou mais alto, mas se deixou envolver. Em poucos segundos, os outros chegaram — Anderson, Shelby, e Natália. Estávamos todos preocupados. … Chegou o dia do enterro. O céu parecia acompanhar o luto — nublado, pesado, como se também chorasse conosco. Estávamos todos destruídos por dentro. Até eu… eu, que um dia o considerei o homem mais desprezível da minha vida, agora me via em lágrimas diante do seu caixão. Nunca imaginei que o reencontraria de novo e que acabaria assim. E o Anderson… Anderson não conseguia se recompor. Repetia baixinho, como um lamento preso em si mesmo, que não queria que a última lembrança do pai fosse aquela discussão. Ele dizia que, mesmo com todos os conflitos, ainda havia esperança de construírem algo juntos… de um dia serem pai e filho de verdade. Já Lukela… não sei se existem palavras que consigam descrever o que ela sentia. O olhar perdido, os lábios trêmulos, o corpo frágil. Tudo nela gritava dor. Estava despedaçada. E eu só podia estar ali… tentando ser o melhor suporte pra eles, num momento em que tudo parecia ter desabado. Assim que saímos do cemitério, ainda envoltos naquele silêncio pesado do luto, uma mulher surgiu à nossa frente. Loira, elegante, de aparência firme… uma senhora com presença marcante. Caminhou até nós com passos decididos, e parou bem diante do Anderson. Sem dizer nada, ela o puxou para um abraço. Foi rápido, mas intenso. Ficamos todos confusos — eu, a Natália, até mesmo o Anderson. Pensamos que era só mais alguém vindo oferecer condolências. Mas algo estava diferente. Ela olhou bem nos olhos dele, com um brilho estranho, como se visse muito mais do que estávamos entendendo. Acariciou o rosto de Anderson com carinho — aquele gesto que só alguém íntimo faria. E então o abraçou de novo, dessa vez mais apertado, mais longo… como quem reencontra algo que há muito tempo havia perdido. Anderson ficou imóvel, desconcertado. Nós, ao redor, só conseguíamos nos entreolhar, tentando entender o que estava a acontecer. Anderson hesitou por alguns segundos, até afastar-se levemente do abraço. — Desculpe… a senhora é…? — ele perguntou, confuso. A mulher sorriu, mas seus olhos já estavam marejados. — Eu sou a tua mãe, Anderson. O tempo pareceu parar. Ninguém disse nada. O silêncio virou um eco pesado. Anderson ficou branco. — O quê? — ele murmurou, quase sem voz. — Eu… eu não podia aparecer antes. Foi um erro, eu sei. Mas não suportei saber da morte dele sem vir ver você. As mãos de Anderson tremiam. Ele deu um passo para trás. — Quando saiu da prisão?… — já a um tempo meu filho … Meu coração disparou. Eu estava parada, observando tudo ao lado da Shelma, da Natália e da pequena Lukela, que só segurava minha mão com força. Anderson desviou o olhar, respirando com dificuldade. Estava sem chão. — Por quê agora? Por quê só agora?! — ele gritou. Ela abaixou a cabeça, e as lágrimas escorreram. — Porque agora, eu já não tenho mais medo.Eu tentei te procurar, mas… não tive coragem. Anderson respirou fundo, o maxilar tenso. — Então agora que ele morreu, você aparece. — murmurou, com amargura. — Eu não vim por ele. Vim por você. Eu precisava te ver… te dizer a verdade. Ele riu, um riso curto e sem alegria. — Verdade? Depois de tanto tempo? Ela tentou se aproximar novamente, mas ele recuou. — Não… agora não. Lukela me apertou a mão ainda mais forte. Todos estávamos em choque, mas só Anderson sabia o peso real daquele reencontro.
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