Capítulo 21- “Quando tudo parecia estar bem”

1193 Words
… Dois meses se passaram desde tudo aquilo. E, de alguma forma, parte de mim já estava superando o Shelby. Não era uma ferida completamente curada, mas doía menos. A raiva deu lugar à aceitação. O que era grito, virou silêncio. E o que era amor, virou lembrança. Willian estava bem melhor agora. Depois de tudo que viveu, parecia ter reencontrado algum equilíbrio. Conversávamos às vezes, ele ria mais. Isso já era um bom sinal. Natália, por outro lado, estava vivendo seu melhor momento. Seus vídeos explodiram nas redes e, em pouco tempo, ela passou a ser procurada por marcas famosas: roupas fitness, tênis, até suplementos. A fama bateu à porta dela de forma avassaladora. Às vezes, eu me pegava sentindo falta das nossas conversas longas. Agora ela quase não parava em casa. Mas eu entendia. O sucesso tem pressa. Shelby e Shelma tinham viajado para a Espanha. Pelas redes sociais, pareciam muito bem. Postavam fotos sorridentes em ruas históricas, cafés elegantes, pôr do sol à beira-mar. O tipo de vida que eu achava que viveria um dia... mas não foi comigo. De vez em quando, me deparava com uma dessas imagens. Elas surgiam no meu feed como quem cutuca uma ferida. Às vezes, era uma foto de mãos dadas, outras, deles rindo abraçados em alguma praça qualquer. No início, eu me torturava vendo tudo. Quase como uma forma inconsciente de provar pra mim mesma que eles tinham seguido…e que eu precisava fazer o mesmo. Mas precisei entender que não precisava disso. Para a minha mente encontrar verdadeira paz, eu decidi não continuar vendo. Talvez estivesse sendo dura. Talvez, como muitos diriam, o certo fosse enfrentar o problema de frente, olhar, aceitar, seguir. Mas eu escolhi fugir. Fugir das imagens. Fugir da comparação. Fugir da dor desnecessária. Às vezes, fugir é a única forma de manter-se de pé. Voltei à minha rotina de trabalho. Os dias começaram a parecer normais de novo. As coisas não estavam como antes, mas estavam no lugar certo. Anderson passou a fazer mais parte da minha vida do que eu imaginava. A gente se via com frequência. Ele sempre aparecia com um convite, um passeio simples, uma volta à beira-mar, uma sorveteria no fim do dia. E eu... quase nunca conseguia dizer não. Numa dessas semanas, Willian convidou eu e o Anderson para jantar com ele e os pais. Um momento agradável, cheio de risos, histórias antigas e comida boa. Foi um daqueles jantares que a gente quer guardar numa caixinha. Não pela comida, mas pela companhia. Quando terminou o jantar, eu e Anderson decidimos caminhar um pouco. A noite estava fresca, e a cidade parecia adormecida. No meio da conversa, me lembrei do pai dele. — E o papai, Anderson? Como ele está? Ele suspirou, olhando pra frente, como se buscasse uma resposta que também não sabia ao certo. — Faz tempo que não o vejo. Sei que ele está bem... agora tem uma nova família. Ganhei uma irmã que agora tem uns 15 anos — disse com um sorriso contido. — O resto... já não sei. Não quis insistir. Só assenti com a cabeça e continuamos caminhando em silêncio. Era estranho, mas aquele silêncio entre nós nunca era desconfortável. Ele sabia respeitar os limites. E eu estava aprendendo a lidar com os meus. Seguimos caminho e mudamos de conversa. O dia terminou, e cada foi pro seu destino. … “Às vezes, os momentos bons parecem durar para sempre… até que a vida, do jeito mais inesperado, vira a página e nos arrasta de volta para capítulos que jurávamos já ter superado” Naquele dia, meu turno na recepção estava calmo — calmo até demais. Mas, ao revisar os registros dos hóspedes, notei que havia algumas informações que não batiam certo. Nomes trocados, documentos ausentes, e reservas duplicadas em dois quartos diferentes. Resolvi sair da recepção e procurar meu colega responsável pelos cadastros. Caminhei pelos corredores do hotel, passando pelos andares dos quartos executivos. Foi então que ouvi vozes à frente. Vozes não… gritos. Acelerei o passo, curiosa e ao mesmo tempo inquieta. Ao virar o corredor, vi um homem de costas. Seu porte era robusto, aparentava ter uns 50 anos. Diante dele, uma adolescente — franzina, não devia ter mais que 15. Ele falava com raiva, a voz pesada de ameaça. A garota m*l conseguia responder, apenas abaixava a cabeça, como quem já esperava o pior. Então, sem que eu pudesse reagir, ele levantou a mão e deu-lhe um t**a no rosto. Um estalo seco ecoou pelo corredor. Levei a mão à boca, instintivamente, tentando conter o choque. A única coisa que consegui ouvir é ele dizendo : “Se voltares a me trazer problemas, te mando pra outro país. Ele rosnou. — E nunca mais verás as tuas amigas”. O choque me paralisou por alguns segundos. A menina levou a mão ao rosto, sem esboçar reação — como se já estivesse acostumada àquele tipo de violência. Meu coração acelerou. Assim que o homem terminou de gritar, ele lançou um último olhar ameaçador e foi embora pelo corredor, passos firmes e pesados, como se quisesse deixar o medo para trás com o som dos seus sapatos. A menina ficou ali, imóvel. Eu me aproximei com cautela, ainda sentindo o coração bater acelerado. — Tá tudo bem? — perguntei baixinho, como se minha voz pudesse assustá-la ainda mais. Ela não respondeu. Só me olhou de relance, com olhos marejados, mas sem chorar. Seus braços estavam encolhidos ao corpo e a franja cobria parte do rosto. Era loira, pele muito clara, magra, talvez tivesse uns 15 anos, como imaginei à primeira vista. Insisti com delicadeza: — Se precisa de ajuda, posso… Antes que eu terminasse, ela deu um passo atrás e seguiu rapidamente para o quarto, fechando a porta com cuidado, quase como quem tem medo até de fazer barulho. Fiquei parada no meio do corredor, sem saber o que fazer. Aquela imagem ficou comigo o resto do dia. E por mais que eu tentasse continuar meu turno normalmente, o rosto dela não me saía da cabeça. Logo depois, continuei a procurar pelo meu colega. Finalmente o encontrei no corredor do segundo andar e, sem comentar nada sobre o que tinha acabado de ver, seguimos juntos até a recepção. Havia um clima estranho dentro de mim. Sentamos e começamos a revisar os registros que pareciam incorretos. Meus olhos seguiam as linhas do papel, mas minha cabeça estava longe… até que, por instinto, virei o rosto em direção ao saguão. E lá estava ele. O mesmo homem. Agora em pé, encostado na parede, conversando com uma mulher elegante, que aparentava uns 40 anos. Estava impecavelmente vestida, cabelos escuros presos num coque fino, joias discretas, postura firme. Falava com ele como se o conhecesse há muito tempo, com um ar de i********e… ou autoridade, talvez. Mas foi quando ele se virou completamente, revelando seu rosto com mais clareza, que meu corpo gelou. Nem pude acreditar. Era ele… estava velho … Ele vinha na minha direção. Fiquei imóvel… olhava pra ele atentamente, sem desviar o olhar… quem diria que o voltaria a ver. Papai… O pai do Anderson.
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