Eu até tentei parecer que estava dobrando umas roupas imaginárias, enquanto Lukela se escondia atrás de mim como se fosse invisível.
Mas não adiantou. Anderson nos pegou com aquele olhar que dizia: “Sério, vocês acham que me enganam?”
—Chega de fingir, meninas— disse ele, cruzando os braços e balançando a cabeça— Eu percebi que estavam espionando.
Eu tentei me justificar, mas só consegui dar uma risadinha nervosa. Lukela deu um pulo e tentou se encolher ainda mais, mas parecia que ela queria se esconder dentro de mim. A situação era ridícula, mas impossível de não rir. E, por um instante, todo o drama do dia desapareceu, substituído por um clima de travessura que só nós três conseguíamos criar.
Anderson entrou no quarto como um tigre pronto ao ataque, com um sorriso largo, já sabendo que a diversão ia começar. m*l a porta se fechou, eu agarrei uma almofada e, com a rapidez de um raio, puxei-a e comecei a bater nele, rindo sem parar. Ele tentou se defender, mas logo estava rindo junto, fingindo se render ao “ataque”. Lukela entrou na brincadeira, pegando outra almofada, e logo o quarto virou uma guerra de risos e abraços. Naquele instante, por mais difíceis que fossem os dias, a felicidade tomou conta do nosso pequeno mundo.
E aí, alguns dias se passaram, e as coisas voltaram ao normal.
…
"Vocês ainda se lembram do homem do Resort? Aquele que parecia apenas passar despercebido, olhando para a casa da Natália… algo estava prestes a acontecer. O pior ainda estava por vir, e ninguém podia imaginar o que ele tinha em mente."
Natália saiu mais uma vez para a sua corrida habitual. Alguém se aproximou dela e começou a acompanhar ela com a corrida, Natália olhou pra ele de forma confusa, e ele apenas acenou dando um sorriso. O seu riso era contagiante, e Natália sorriu igual. Quando finalmente ela parou, ele também parou e tirou os fones de ouvido.
Ela lançou-lhe um olhar confuso, hesitante.
— Porquê você está correndo comigo? — perguntou, puxando o fôlego.
Ele sorriu. Seu sorriso carregava charme e mistério.
— Apenas tentando acompanhar minha ídola — respondeu, com um brilho nos olhos.
O sorriso de Natália se abriu, contagiada pela leveza daquele encontro inesperado.
— Ídola?
— Sim — disse ele. — Você tem os melhores exercícios relaxantes nas redes sociais. Já te sigo há um tempo.
— Que bom saber disso — replicou ela, surpresa.
Então, ele baixou a voz, acrescentando um toque de provocação.
— Mas você também me deve um pedido de desculpas.
Ela franziu a testa, curiosa.
— Por quê?
— Uma vez você esbarrou em mim e não se desculpou — respondeu ele, com um meio sorriso.
Natália riu, descontraída.
— Eu esbarro em alguém todo dia. Não dá pra lembrar o rosto de todo mundo. Mas, se for o caso, desculpa.
Ele aproximou-se um pouco mais, os olhos fixos nos dela.
— Não é assim que eu quero o pedido.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Ah, é? Como quer então?
Ele sorriu enigmaticamente.
— Que tal me convidar para um café em sua casa?
Ela parou, pensou por um instante, e sacudiu a cabeça.
— Isso não vai acontecer. Não costumo convidar estranhos para casa.
Ele tentou insistir.
Sem mais palavras, Natália virou-se e continuou seu caminho, deixando-o ali, parado, observando-a desaparecer na distância.
Quando Natália chegou em casa, eu estava no quarto com a máscara facial, tentando relaxar um pouco. Ela entrou, respirando fundo, e parecia ao mesmo tempo intrigada e desconfiada.
— Aconteceu uma coisa estranha hoje — começou, enquanto se sentava ao meu lado —. Um homem apareceu do nada, começou a correr comigo, e depois... bem, ele queria conhecer minha casa.
Eu levantei uma sobrancelha por cima da máscara, tentando não rir, mas também percebendo o tom sério na voz dela.
— Como assim?
— perguntei. — Um completo estranho só apareceu querendo amizade e entrar na sua casa?
Ela assentiu, os olhos arregalados. — Sim… parecia tão natural, mas ao mesmo tempo estranho.
Fiquei quieta por um instante.
— Natália — disse com calma — acho precisamos ficar atentas.
Ela respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Eu segurei a sua mão por um instante. Sentei-me ao lado de Natália, tentando transmitir calma. Ela ainda parecia nervosa, como se sentisse ameaçada.
— Olha, Natália — comecei, com a voz suave —, não podemos desconfiar de tudo e de todos. Nem todos os sorrisos escondem más intenções. Às vezes, o mundo nos apresenta pessoas que podem nos fazer bem, e precisamos estar abertas para isso.
Ela desviou o olhar, pensativa. Continuei:
— Já passou tempo suficiente para você conhecer alguém novo, se permitir ter um novo relacionamento. Se ele voltar… não fuja imediatamente. Escute o que ele tem a dizer, dê uma chance de compreender. Só depois, decida.
Natália respirou fundo, os ombros relaxando um pouco. Eu sorri por dentro, torcendo para que minhas palavras a ajudassem a equilibrar a cautela com a coragem de se abrir para o novo.
“Não fazia ideia de que aquele seria o pior conselho que eu poderia dar. Até hoje me culpo pelo que aconteceu. Sei que nem todos que se aproximam de nós têm segundas intenções… mas, infelizmente, foi o caso deste homem. Ele se revelou o pior de todos os psicopatas que poderia cruzar o nosso caminho. O que ele fez, não cabe lhe chamar de ser humano”
No dia seguinte, era dia de trabalho. Esperei pelo Anderson; combinamos que ele me levaria. Fiquei alguns instantes na porta, olhando em volta, tentando perceber se ele viria ou não. Mas logo meu celular tocou. Era ele.
— Alô, amor.
— Oi amor. Não vou poder aparecer hoje — disse. — A Lukela passou m*l, tive que levá-la ao hospital.
Meu coração apertou. — O que aconteceu com ela?
— Comeu algo que não caiu bem — respondeu. — Mas estou cuidando dela, não se preocupe.
Suspirei aliviada e pedi que ele cuidasse bem da menina.
Quando saí para pegar o táxi, meus olhos percorriam a rua procurando um táxi de um lado ao outro, sempre alerta. De repente, ao me virar, esbarrei em um homem. Minhas coisas caíram da bolsa, espalhando-se pelo chão.
— Desculpe! — ele disse, ajudando-me a recolher tudo.
Agradeci com um sorriso tímido.
Ele parou o táxi para mim, abriu a porta, e eu dei um sorriso de gratidão antes de entrar.
Durante o trajeto, olhei para trás e o vi caminhando em direção à casa que estava alugando. Por um instante pensei: “Deve ser o vizinho novo.”
Cheguei no trabalho, um pouco atrasada. Pedi desculpas à colega, por me ter atrasado na troca de turno.
…
Enquanto revisava alguns papéis, notei o Shelby vindo em minha direção.
— Oi Kataleya. Como estão o Anderson e a Lukela? — perguntou, com aquele jeito de sempre.
— Estão muito bem — respondi, tentando soar tranquila.
— Boa, ainda bem — respondeu ele, meio hesitante.
Ele deu um leve suspiro de alívio, virou-se para se afastar… mas em dois passos estava de volta.
— E quanto ao almoço? Já tem companhia hoje? — perguntou, com um sorriso que parecia desafiar minha atenção.
— Depende do quanto de trabalho eu tiver — respondi, tentando manter a calma.
— Vou dar um jeito de te fazer sair por um instante — disse ele, com aquele ar confiante que sempre me deixava alerta.
Fiquei parada por um momento, ponderando se aquilo seria uma simples insistência ou algo mais… e voltei a organizar meus papéis, tentando não demonstrar curiosidade.
Depois de algumas horas quando olhei para o relógio, percebi que já era hora do almoço.
Um colega apareceu na recepção, sorrindo:
— Não se preocupe, eu cuido daqui. Vá almoçar, ouvi dizer que o Shelby está esperando você.
Meu coração deu um pequeno salto. Suspirei, tentando não demonstrar entusiasmo.
— Obrigada — disse, pegando minha bolsa e me dirigindo para a saída da recepção.
Enquanto caminhava pelos corredores do hotel, não pude deixar de me perguntar se aquele almoço seria apenas um momento tranquilo ou se ele, de alguma forma, tentaria tornar as coisas… complicadas.