Prólogo
Me chamo Milena Martins, mas todos me chamando de Mila. Tenho 20 anos, 1,60 m de altura, pele morena, olhos castanhos e cabelos cacheados.
Moro com meus tios desde os quinze anos, quando perdi meu pai em um acidente de carro. Até hoje me lembro do vazio que senti ao receber aquela notícia. Foi como se o mundo tivesse parado de girar por alguns instantes. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. Em poucos dias, eu estava morando em outra casa, seguindo uma nova rotina e tentando entender como minha vida tinha mudado completamente.
Minha mãe nunca fez parte da minha história.
Na verdade, eu nem sei quem ela é. Nunca vi uma fotografia, nunca ouvi sua voz e nunca recebi uma carta. A única coisa que conheço sobre ela é a versão contada pela minha tia Cristina. Segundo ela, minha mãe engravidou muito jovem, não quis assumir a responsabilidade de criar uma filha e decidiu ir embora logo depois do meu nascimento, deixando meu pai sozinho comigo.
Sempre que tento fazer mais perguntas, recebo exatamente a mesma resposta.
— Esse assunto já ficou no passado, Mila.
Com o tempo, parei de insistir.
Não porque deixei de sentir curiosidade, mas porque percebi que ninguém parecia disposto a me contar algo além disso. Ainda assim, às vezes me pego imaginando como ela seria. Será que temos o mesmo sorriso? Os mesmos olhos? Será que ela pensa em mim em algum momento? Ou simplesmente seguiu a vida como se eu nunca tivesse existido?
São perguntas que provavelmente nunca terão resposta.
Moramos no interior de São Paulo, na pequena cidade de Bela Vista. É aquele tipo de lugar onde quase todo mundo se conhece, as notícias circulam mais rápido do que o vento e qualquer novidade vira assunto na praça em poucos minutos.
Minha família é dona de uma cafeteria bastante conhecida na cidade. Trabalho lá todos os dias e faço praticamente de tudo. Atendo clientes, preparo cafés, organizo as mesas, limpo o salão, recebo fornecedores, ajudo na cozinha quando necessário e ainda fico responsável pelo fechamento do caixa no fim do expediente.
O trabalho é cansativo, mas gosto da correria. Manter a mente ocupada sempre foi minha melhor forma de esquecer os problemas, mesmo que seja apenas por algumas horas.
Já meu primo Pedro leva uma vida completamente diferente da minha.
Ele é filho único dos meus tios e, teoricamente, deveria ajudar na administração da cafeteria. Na prática, quase nunca aparece. E, quando resolve dar as caras, dificilmente permanece ali por mais de duas horas.
Para ser sincera, agradeço por isso.
Quanto menos tempo preciso ficar perto dele, melhor.
Existe algo em seu jeito de falar, de olhar e de sorrir que me deixa profundamente desconfortável. É como se eu estivesse sempre em estado de alerta quando ele está por perto. Tento manter distância sempre que posso, evitando qualquer situação que me obrigue a ficar sozinha com ele.
Sabe aqueles pensamentos que a gente guarda apenas para si?
Aqueles medos que ninguém percebe porque aprendemos a escondê-los atrás de um sorriso?
Todos nós carregamos nossos próprios demônios.
Eu também.
Mesmo assim, faço o possível para não deixar que eles controlem minha vida. Acredito que, se eu continuar trabalhando duro e economizando cada centavo que consigo guardar, um dia poderei mudar meu destino.
Meu maior sonho é abrir minha própria lojinha de bolos.
Desde criança gosto de cozinhar. Sempre que tenho um tempinho livre, invento receitas, testo coberturas diferentes e anoto tudo em um velho caderno que escondo no meu quarto. Gosto de imaginar uma pequena confeitaria, cheia de flores na entrada, com cheiro de bolo recém-saído do forno e clientes felizes voltando porque gostaram do atendimento.
Pode parecer um sonho simples.
Mas, para mim, representa liberdade.
Representa a chance de finalmente construir uma vida que pertença somente a mim.
Infelizmente, existe um problema que nunca sai da minha cabeça.
Há exatamente dois anos sou responsável pelo fechamento do caixa da cafeteria.
Independentemente de o dia ter sido movimentado ou tranquilo, existe uma coisa que parece nunca mudar.
As contas nunca fecham.
Sempre falta dinheiro.
Às vezes é pouco.
Outras vezes, a diferença é grande o suficiente para que meu tio Antônio desconte o valor diretamente do meu salário, que já não é grande coisa.
Segundo ele, a culpa é exclusivamente minha.
Diz que sou distraída, que vivo no mundo da lua e que preciso prestar mais atenção ao contar o dinheiro.
Durante muito tempo acreditei que realmente estivesse errando.
Passei a conferir tudo duas, três e até quatro vezes antes de fechar o caixa.
Mesmo assim, o resultado continuava exatamente o mesmo.
O dinheiro desaparecia.
Não importa o quanto eu conferisse.
Não importa o quanto me esforçasse.
Sempre existia alguma diferença.
Isso simplesmente não faz sentido.
Já tentei conversar inúmeras vezes com meu tio, explicando que talvez o problema estivesse acontecendo em outro momento do expediente.
Ele nunca me ouviu.
Para ele, encontrar um culpado parece ser muito mais importante do que descobrir a verdade.
Cada desconto no meu salário faz meu sonho parecer um pouco mais distante.
Mesmo assim, continuo economizando o pouco que consigo.
Desistir nunca foi uma opção.
Na divisão das tarefas da cafeteria, cada um possui uma função específica.
Meu tio Antônio é responsável pelas negociações com os fornecedores. Quando precisa conversar com produtores menores ou visitar fornecedores que moram em cidades vizinhas, normalmente sou eu quem vai em seu lugar.
Pedro cuida da parte financeira da cafeteria.
Minha tia Cristina administra praticamente tudo o que acontece no dia a dia. É ela quem organiza os horários dos funcionários, monta o cardápio, resolve os problemas internos e toma as principais decisões relacionadas ao funcionamento do negócio.
Para quem observa nossa família de fora, somos o retrato da perfeição.
Os tios generosos que acolheram a sobrinha órfã.
O filho exemplar, educado e responsável.
Uma família trabalhadora, unida e respeitada por toda a cidade.
Mas as aparências costumam enganar.
Quando as portas da cafeteria se fecham e não existem clientes por perto, a realidade é muito diferente daquela que todos imaginam.
Talvez você esteja se perguntando por que continuo vivendo ali.
A resposta é simples, embora seja difícil de aceitar.
Eu não tenho para onde ir.
Meu salário m*l cobre minhas despesas básicas. Não tenho parentes próximos, amigos com condições de me acolher ou dinheiro suficiente para alugar uma casa.
Além disso, meus tios são pessoas influentes em Bela Vista.
Quase todo mundo os conhece.
Se eu tentasse alugar um imóvel ou procurar outro emprego na cidade, dificilmente eles demorariam para descobrir.
Por isso, quando eu decidir ir embora, precisarei fazer isso de uma única vez.
Sem avisos.
Sem discussões.
Sem deixar qualquer oportunidade para que interfiram na minha decisão.
Será um recomeço.
Também imagino que muita gente pense que eu poderia morar com dona Márcia ou com Fernando.
E acredite...
Eu gostaria muito.
Eles são as pessoas mais bondosas que conheço.
Mas jamais conseguiria colocá-los em uma situação difícil por minha causa.
Dona Márcia mora sozinha em uma pequena kitnet. Nunca teve filhos e leva uma vida simples. Fernando, seu afilhado, mora com ela desde jovem. Os dois enfrentam dificuldades financeiras, mas nunca deixam que isso tire o sorriso de seus rostos.
Na verdade, eles me ensinaram que uma família não é construída apenas por laços de sangue.
É construída por cuidado, respeito, carinho e presença.
Sempre que preciso de uma palavra amiga ou de um gesto de acolhimento, são eles que estão ao meu lado.
Talvez seja justamente por isso que eu os considere minha verdadeira família.
Mesmo sem dizer isso em voz alta.
Enfim...
Essa é apenas uma pequena parte da minha história.