Mais um dia

1170 Words
Acordo com o toque insistente do despertador. Já são 6h00. Ainda sonolenta, estico o braço para desligá-lo antes que acorde a casa inteira. Fico alguns segundos encarando o teto, tentando reunir forças para levantar. Meu corpo ainda pede mais alguns minutos de descanso, mas sei que isso não é uma opção. Com um suspiro cansado, saio da cama e caminho até o banheiro. Lavo o rosto com água fria na tentativa de espantar o sono, escovo os dentes, faço minha higiene pessoal e troco de roupa. Quando termino, prendo o cabelo de qualquer jeito e sigo direto para a cozinha preparar o café da manhã. O cheiro do café recém-passado logo toma conta do ambiente. Coloco o pão para aquecer, organizo algumas frutas na mesa e separo as xícaras. Faço tudo quase no automático. Depois de tantos anos, meus movimentos já se tornaram um hábito. Quando estou terminando de arrumar a mesa, meus tios entram na cozinha. — Mila, você terá que ficar até mais tarde hoje na cafeteria. Diz minha tia enquanto serve uma xícara de café para si mesma, como se estivesse apenas comentando sobre o clima. Levanto os olhos para ela. — Mas hoje não é minha folga? Pergunto, já desanimada. Ela nem sequer olha para mim antes de responder. — Está reclamando do quê, Milena? Já não descansou o suficiente? Minha tia apenas continua mexendo o café, concordando em silêncio. O "descansar" que ele fala foi passar mais de duas horas na cidade vizinha tentando negociar com um fornecedor que quase dobrou os preços dos produtos. Nem consegui sentar um minuto. Mas discutir nunca adianta. No fim, quem sempre sai como ingrata sou eu. Engulo a resposta junto com o café. Terminamos a refeição em completo silêncio. Recolho as xícaras, lavo a louça, limpo a mesa e deixo tudo organizado antes de seguir para o meu quarto. Quando estou quase fechando a porta, uma gritaria toma conta da casa. Fecho os olhos por um instante. Isso já virou rotina aqui. Aposto que o Pedro aprontou de novo. — Isso são horas de chegar em casa, moleque? A voz do meu tio ecoa pelo corredor. — O senhor nunca foi jovem, papai? Responde Pedro, completamente despreocupado. — O que os vizinhos vão pensar da gente? Pergunta minha tia, indignada. Pedro dá uma risada debochada. — Se perguntarem, vocês já têm o discurso pronto, não têm? O silêncio dura apenas alguns segundos. — Agora vou tomar um banho, porque a noite foi uma loucura! Diz ele, subindo as escadas como se nada tivesse acontecido. Reviro os olhos. Se fosse eu chegando naquele horário, provavelmente estaria ouvindo um sermão até o anoitecer. Mas Pedro sempre foi diferente. Ele pode fazer o que quiser. Depois de toda essa confusão logo cedo, finalmente entro no meu quarto. Meu quarto é pequeno, mas é o único lugar da casa onde consigo respirar um pouco. Fecho a porta e aproveito aqueles poucos minutos de paz. Abro o guarda-roupa e escolho um conjunto de moletom preto e meu tênis branco. Tomo um banho rápido, deixo a água morna aliviar um pouco o cansaço que parece nunca ir embora e, depois de me arrumar, prendo o cabelo em um r**o de cavalo bem alto. Dou uma última olhada no espelho. As olheiras continuam ali. Mas já me acostumei com elas. — Vamos, Milena. Já está quase na hora de abrir a cafeteria. A voz impaciente do meu tio vem da sala. — Já estou indo. Pego minha mochila e saio. O caminho até a cafeteria acontece em completo silêncio. Meu tio dirige olhando apenas para a estrada. Seu semblante fechado já denuncia que o humor hoje não está dos melhores. Minha tia também permanece calada, mexendo no celular durante todo o trajeto. Às vezes... ou melhor, quase sempre... eles acabam descontando as próprias frustrações em mim. Então prefiro não dizer nada. Quanto menos eu falar, menores são as chances de criar algum problema. Assim que chegamos, dona Márcia já está varrendo a entrada. Ela sorri assim que nos vê. — Bom dia, dona Cristina. Bom dia, seu Antônio. — Bom dia. Responde minha tia, sem sequer diminuir o passo. Meu tio apenas faz um aceno discreto com a cabeça. Então dona Márcia olha para mim. — Bom dia, menina. Seu sorriso acolhedor faz meu dia parecer um pouco mais leve. — Bom dia, dona Márcia. Retribuo sorrindo. Aproveito que ela está organizando o pequeno salão e sigo direto para a cozinha. Fernando já separa os ingredientes e confere algumas encomendas. — Olá, Mila. — Olá, Fernando. — Fiquei sabendo que agora vamos fechar mais tarde. Você também vai ficar até o fechamento ou colocaram seu primo para trabalhar de verdade? Pergunta ele, rindo. Dou uma risadinha. — Quem sabe um milagre acontece, né? Fernando balança a cabeça. — Ah, amiga... milagre até acontece. Mas esse aí acho difícil. Acabamos rindo juntos. Ainda bem que tenho o Fê e a dona Márcia. Se não fosse por eles, trabalhar aqui seria muito mais pesado. Terminamos de organizar a cozinha, abastecemos a vitrine com os salgados e doces recém-saídos do forno, colocamos os pães nas cestas e deixamos tudo pronto antes da a******a. Não demora muito para os primeiros clientes começarem a chegar. O sino da porta toca várias vezes ao longo da manhã. Entre cafés, pães de queijo, bolos e pedidos para viagem, as horas passam lentamente. O movimento está fraco. Coisa comum em cidade do interior, onde todo mundo conhece todo mundo e as novidades demoram a acontecer. Em alguns momentos, fico olhando pela janela. As pessoas caminham sem pressa pela calçada. Alguns idosos conversam na praça. Crianças passam de bicicleta. À primeira vista, parece uma cidade tranquila. Só quem vive aqui sabe que as aparências enganam. Estou perdida em meus pensamentos quando escuto uma voz conhecida. — Milena! Continuo imóvel. — Milenaaa! Só então percebo que minha tia está me chamando. — Não está me escutando, menina? Viro rapidamente para ela. — Oi, tia. Desculpe. O que a senhora deseja? Ela suspira, claramente irritada. — Vou sair. Não sei se volto hoje. A partir de agora, você fecha a cafeteria. Não se esqueça de limpar, conferir o caixa e trancar tudo antes de ir embora. — Sim, senhora. Ela já está quase saindo quando volta alguns passos. — Ah, e mais uma coisa: vê se não fica incomodando o Pedro. Deixe meu menino trabalhar em paz. Seguro a vontade de responder. Como se eu quisesse ficar perto dele... Penso comigo mesma. Minha tia sai logo em seguida. Cerca de meia hora depois, meu tio também resolve ir embora. Antes de atravessar a porta, lança um último olhar para mim. — Vou dar uma saída rápida. Não crie problemas, Milena. Assinto em silêncio. Foi a última coisa que ele disse antes de desaparecer pela porta. Observo os dois indo embora e, por um instante, a cafeteria parece até mais leve sem a presença deles. Respiro fundo. Agora, pelo menos até o fechamento, posso trabalhar em paz.
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