Capítulo 2 - Saidinha

1490 Words
Marcelo O relógio na parede marcava oito da noite, mas minha cabeça ainda estava enterrada em pilhas de documentos. O escritório estava em silêncio, exceto pelo barulho do gelo batendo no copo de uísque que eu segurava. Tentando me esquentar da onda que estava prestes a me atingir em cheio e me arrastar para o fundo. As últimas semanas foram um inferno. A empresa estava à beira de um colapso financeiro, e as negociações para um novo contrato estavam emperradas. Eu sabia que precisava agir rápido ou perderia tudo pelo que trabalhei nos últimos vinte anos. Mas, não sei por onde devo começar, nunca cheguei a esse ponto e tudo isso está acontecendo por causa de uma mulher. Sempre uma mulher. Suspirei, massageando as têmporas. — Senhor Marcelo? — A voz do meu assistente ecoou pela sala e pelo seu tom, não era nada que eu gostaria de ouvir, o que ele tinha a dizer. — O que foi agora? — Perguntei impaciente, pois o motivo era o de sempre: Fred. — Seu filho, senhor. Ele ligou algumas vezes. Ele se recusa a parar de ligar, mesmo eu dizendo que o senhor está ocupado agora. Como eu disse. Fred age como se ainda fosse um adolescente, e eu queria muito saber onde foi que eu errei. Fechei os olhos e tentei conter minha frustração. — Se for sobre dinheiro, diga que não tenho. Eu não suporto mais ter que manter o vícios dele, lamento por ele já ser um homem adulto. — Ele disse que era importante, senhor. Bufei, pegando o celular. Minutos depois, eu já me arrependia de ter atendido. — Pai, eu fiz merda. — Sua voz trêmula soou como se fosse uma novidade, mas não era. Se ele fosse dizer algo bom, aí sim eu teria me assustado. — Me diga algo que eu não sei, Fred. — Elizian me largou por um motivo i****a. Fiquei em silêncio por um momento, como isso é da minha conta? Porém, tem que ter sido muito i****a para ser o motivo de um término. — E o que eu tenho a ver com isso? Estou no meio de problemas, tentando resolver minha vida financeira e você me vem com seus problemas? Achei que já fosse adulto o suficiente para lidar com seus próprios problemas, Fred. — Pai... você não entende. Ela pode acabar com minha reputação. Ri baixo, sem humor. Porque eu não conheço nenhuma reputação citada acima. — Você traiu a garota e agora está preocupado com sua reputação? Eu não te reconheço, de verdade. — Pai, você não entende. Ela pode… sei lá, contar para a imprensa, para clientes importantes… — Acha que alguém se importa com a sua vidinha patética? Se Elizian for esperta, ela já percebeu que perdeu tempo demais com você. Aliás, eu não sei como você conseguiu manter a fachada por tanto tempo. Ela é tão ingênua assim? Ou você que tava se afundando por conta própria. Pensei que não poderia sair mais nada da sua boca, mas ele não se importou em continuar com sua "reputação" em jogo. — Ainda bem que não casamos. Não iria suportar ter que ser fiel a ela, e depois, a separação iria me custar muitas coisas. — Fred, eu só me importo com o que me interessa, se isso acontecesse, eu iria ficar ao lado de sua mulher, não do seu. Eu não tenho dinheiro para emprestar e não quero saber da sua vida. Fred gaguejou do outro lado da linha, mas eu já estava cansado de ouvir seus problemas sem fundamento algum. O criei para ser o herdeiro de tudo que tenho, mas mudei de ideia quando ele se tornou independente. Sua escolhas sempre foram as coisas mais s*******o, mulher, dinheiro e curtição, mas ainda com meu dinheiro. — Se quiser resolver seus problemas, faça isso sozinho. Eu tenho negócios para cuidar e você deveria fazer o mesmo. Afinal, dinheiro não cai do céu e sua nova querida, deve gostar de money. — Pai... eu queria falar sobre outra coisa também. Eu não tenho mais dinheiro. Não tenho como manter o apartamento. O plano era morar com Elizian depois do casamento e agora eu não tenho para onde ir. — Como não tem? Você traiu sua noiva com uma desconhecida. Se ela teve a capacidade de t*****r com você, acredito que não vai lhe negar alguns dias até você tomar vergonha na cara e ir atrás de um emprego. Desliguei antes que ele continuasse a lamentação. Joguei o celular sobre a mesa e esfreguei o rosto. A empresa, os contratos, os investidores. Agora meu filho me metendo em mais um de seus dramas. Eu só queria um respiro. Elizian A visita de Bianca me pegou desprevenida e vulnerável, mas tive certeza em meio a todo esse caos, que eu ainda tenho pessoas que gostam de mim. Depois do desastre com Fred, tudo que eu queria era focar no trabalho e esquecer aquela fase patética da minha vida. Mas parece que o destino tinha outros planos. — Elizian, venha cá um instante. — Seu tom autoritário não causava medo, ele soava muito educado pra isso. Levantei os olhos do computador e encarei meu chefe. Ele tinha um sorriso educado no rosto. — Sim, senhor Moretti? — Hoje à noite teremos um jantar com alguns investidores importantes. Gostaria que você nos acompanhasse. Será uma boa oportunidade para networking. É um momento de lazer, não somente de negócios vivem os homens. Um jantar? Eu não estava com cabeça para isso. Mas dizer não a Moretti seria burrice. — Claro, será um prazer. — Forcei um sorriso e continue mantendo a pose. — Ótimo. Nos encontramos no restaurante às oito. Vista-se bem. Assenti, mesmo sem vontade. Ao sair do trabalho, corri para casa. Minha mente ainda girava com o que aconteceu com Fred, mas eu me recusei a deixar que aquilo afetasse minha vida profissional. Fui até meu guarda-roupa e meus olhos pousaram em um vestido que eu não usava há tempos: um longo vestido verde-esmeralda, justo na medida certa, com um decote discreto e uma f***a elegante na perna direita. Ele abraçava minhas curvas sem parecer vulgar, transmitindo exatamente o que eu queria: confiança e poder. Ao me olhar no espelho, algo dentro de mim mudou. Eu não era mais a mulher traída e humilhada. Eu era Elizian Vasconcellos. E ninguém me colocaria para baixo. Passei um batom vermelho fechado e soltei os cabelos, deixando as ondas caírem pelos ombros. Peguei uma clutch dourada e finalizei com um salto nude. Estava pronta. O restaurante era um dos mais sofisticados da cidade. Luzes baixas, mesas bem postas e uma clientela que exalava riqueza e influência. — Elizian, que bom que veio. — Moretti sorriu ao me ver. — Não perderia essa oportunidade. — Respondi, mantendo o tom profissional. O jantar já havia começado quando me sentei à mesa. Havia vários empresários e investidores, mas um, em especial, me chamou a atenção. Marcelo Ferraz. Eu já o tinha visto antes em fotos e eventos, mas nunca tão de perto. Ele exalava poder. Os cabelos levemente grisalhos, o terno impecável, o olhar afiado. Um homem que sabia exatamente o que queria—e como conseguir. Ele me analisou por um breve momento antes de me estender a mão. — Marcelo Ferraz, muito prazer. — Elizian Vasconcellos, igualmente. Seu aperto de mão era firme. Seus olhos, atentos. E eu? Eu estava me sentindo mole e leve, assim do nada... — Então, você é a famosa Elizian! Famosa? Qual será a merda que eu fiz para que esse homem saiba quem eu sou? Espero de verdade que não seja nada de r**m. Arqueei uma sobrancelha. — Não sei se famosa é a palavra certa, mas é um prazer conhecê-lo também. — Ele sorriu de canto. E eu não soube o que fazer naquele momento. — Já ouvi falar muito de você. — Espero que tenha sido coisas boas, porque não é difícil que tenha ouvido coisas banais sobre mim. Afinal, cada um tem sua opinião. Moretti interveio antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, e logo todos estávamos imersos em conversas sobre negócios. Mas, a cada troca de olhares, eu sentia que Marcelo me estudava. E eu não sabia se gostava ou se deveria me preocupar com isso. — Está acompanhada ou eu posso convidá-la para tomar uma taça de champanhe comigo? Parece que todos estão bem interessados na conversa sobre negócios, mas você não. Você parece interessada em algum assunto que está querendo conversar há muito tempo. Então, a senhorita aceita fugir comigo pata nos embebedarmos. — Eu adoraria, mas esse não é o lugar adequado, senhor Ferraz. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele levantou e me estendeu a mão, convidando-me a sair da meda junto a ele. Moretti estava focado demais com os outros magnatas, nem sequer percebeu minha saída junto a Marcelo.
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