Capítulo 3 - Diálogo Carnal

1514 Words
Elizian A mão de Marcelo Ferraz estava estendida para mim, convidando-me a sair da mesa. Seus olhos mantinham um brilho intrigante, como se ele estivesse me desafiando a acompanhá-lo. Olhei rapidamente para Moretti e os outros empresários à mesa. Todos estavam tão imersos nas negociações que não perceberam nossa troca silenciosa. Moretti estava interessado demais nos assuntos da empresa, para prestar atenção em mim. — Então? — Marcelo arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso brincando nos lábios. — Vamos nos embebedar juntos ou vai me deixar falando sozinho? Cruzei as pernas sob a mesa, hesitante. Eu não era do tipo que saía acompanhando homens desconhecidos por aí, muito menos em um jantar de negócios. Mas algo nele me instigava. Talvez fosse o olhar afiado, a postura confiante, ou o fato de que, por alguma razão, ele parecia saber mais sobre mim do que eu sobre ele. E depois de.muiyo tempo, eu estou sendo "paquerada" por um homem de verdade. Que nao falava coisa ridículas, é sensato e tem maturidade o suficiente (como se a descontrolada não fosse eu). — Certo, mas só uma taça. — Cedi, pegando sua mão. — Talvez duas. O toque foi breve, mas firme. Marcelo guiou-me pelo restaurante com a mesma autoridade que exalava ao falar. Passamos por garçons impecavelmente vestidos e casais conversando em tons baixos, até chegarmos a um bar sofisticado no outro extremo do salão. — Duas taças de champanhe, por favor. — Ele pediu ao bartender, enquanto eu me acomodava em um dos bancos altos. O ambiente ali era mais intimista. Luzes amareladas pendiam do teto, criando uma atmosfera aconchegante. A música ambiente era um jazz suave, preenchendo os espaços sem roubar a cena. — Você parece alguém que não gosta de perder tempo com conversas triviais. — Ele observou, girando levemente a taça nas mãos antes de beber um gole. — Acho que eu finalmente encontrei uma pessoa com quem eu gostei de lidar. Dei de ombros, segurando minha própria taça. — Prefiro conversas diretas. Não tenho tempo para coisas enroladas. Eu já não sou mais tão nova para ficar tentando conquistar — disse eu, aos 24 anos. Ele soltou um riso baixo, como se aquilo tivesse soado engraçado. — Interessante. A maioria das pessoas nesse meio finge interesse em tudo. Você parece mais… realista. Inclinei a cabeça, estudando-o. — Você diz isso como se me conhecesse. — Talvez eu conheça. — Ele sorriu, enigmático. — Você já ouviu falar que o mundo dos negócios é pequeno? Moretti é uma pessoa bastante fluente e ele sempre faz questão de elogiar seus parceiros. Elizan sempre está no meio. Cruzei os braços. — O que exatamente ouviu sobre mim, senhor Ferraz? Ou o que Moretti diz sobre mim, espero que tenh sido algo bom. — Marcelo. — Ele corrigiu, pousando a taça no balcão. — E digamos que você esteve em algumas conversas ultimamente, sempre enaltecendo o trabalho da senhorita. Suas ideias sao geniais. Meu coração deu um salto desconfortável. Será que ele sabia sobre Fred? Apertei os dedos ao redor da haste da taça, mantendo a expressão neutra. — Conversas podem ser apenas rumores. Nem tudo o que dizem é verdade. Mas, digamos que tenha boas ideias, de fato. Marcelo assentiu, como se estivesse esperando por essa resposta. — Verdade. Mas algumas coisas são bem fáceis de comprovar. Seu olhar prendeu-se ao meu por um instante longo demais. Ele sabia de algo, mas não entregava o jogo tão fácil. Respirei fundo e decidi mudar o rumo da conversa. — E você, Marcelo? O que um empresário do seu nível está fazendo me convidando para uma taça de champanhe quando poderia estar discutindo contratos milionários com Moretti e os outros? Ele sorriu, divertido. — Talvez eu tenha achado a conversa deles entediante. Ou talvez tenha encontrado algo mais interessante para observar. Eu já vivo em um mundo superficial. Gosto de aproveitar quando conheço alguém interessante. — Você é bom com palavras. — Observação que saiu antes que eu pudesse evitar. — Isso é bem raro hoje em dia. Gostei de você. — E você é boa em evitar respostas diretas. Ergui a taça e bebi um gole, sem desviar os olhos dos dele. Embora ainda me queimasse como brasas que eu estava prestes a pisar. — Digamos que ambos temos nossas habilidades. Talvez seja isso que no atraiu... Ele soltou um riso baixo e ergueu a taça em um brinde silencioso. Por algum motivo, a tensão entre nós não era desconfortável. Pelo contrário, era eletrizante. E o mais intrigante? Eu não sabia exatamente o porqu, mas uma coisa era certa: Marcelo Ferraz não era um homem comum. E algo me dizia que essa não seria nossa última conversa. A noite deslizou como um bom vinho — e, de fato, foram várias taças dele que nos acompanharam depois que saímos do restaurante. Marcelo me levou até um bar de hotel elegante, onde o som era suave, as luzes baixas e o mundo parecia estar do lado de fora. Conversamos como se nos conhecêssemos há anos. Ele falava pouco de si, mas quando falava, era com precisão. Cada palavra parecia ter sido escolhida a dedo. Eu, por outro lado, senti que minhas defesas estavam baixas. Talvez fosse o vinho, talvez fosse ele. Ou talvez fosse eu, cansada de ser sempre controlada. — Você tem um olhar que diz mais do que suas palavras, Elizian — ele comentou, inclinando-se um pouco mais perto. — E eu confesso que gostaria de conhecer mais do que apenas palavras. — E o que ele diz? — Que está cansada de se esconder atrás de respostas certas e escolhas seguras. Que precisa de um tempo para si mesma. — E o que o senh... você sugere para que possamos passar um tempo? — Meu carro esta estacionado na garagem do prédio, eu moro sozinho e eu juro que a levaria para casa quando quisesse. Talvez precise ouvir músicas do seu gosto pessoal, isso sempre ajuda. — E foi ali, naquele momento, que eu soube. Eu não queria segurança. Queria risco. Queria me sentir viva de novo. Mas, sabe o que de verdade me ajudaria? Ele nu, completamente despido à minha frente! — É um convite sutil para não aceitar. — E lá vamos nós... A suíte era sofisticada, com tons escuros, lençóis brancos impecáveis e uma vista da cidade que tremeluzia através das janelas de vidro. Marcelo se aproximou lentamente, como se me desse tempo para recuar — mas eu não recuei. Nossos corpos se encontraram com uma urgência calma, como dois mundos colidindo em silêncio. Beijos quentes, mãos ávidas, roupas caindo pelo caminho. Eu o desejei desde o primeiro momento em que o vi. — Por favor, me fode! — Sussurrei em seu ouvido, como se aquilo fosse algo natural. Ele me penetrava forte, sem pudor ou dúvidas do quanto me queria naquele momento. E para mim, somente aquele momento importava. ••• A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas quando acordei. Senti o calor de um corpo ao meu lado, o toque suave do lençol contra minha pele nua e o cheiro inconfundível de vinho e desejo ainda pairando no ar. Como se aquilo fosse loucura. Pisquei algumas vezes, tentando lembrar exatamente onde estava. Olhei ao redor, e lá estava ele, dormindo serenamente, com os traços duros suavizados pelo sono. Marcelo. A lembrança da noite anterior me atingiu como uma onda quente. Sorri... até o toque insistente de um celular quebrar o silêncio da manhã. Marcelo resmungou algo e virou-se, estendendo o braço até o aparelho para pegá-lo. — Fred... de novo — ele murmurou com a voz rouca, atendendo a ligação. E foi aí que tudo parou. O nome. A voz. O tom impaciente dele. Cada célula do meu corpo congelou. Fred? Que merda era aquela? Meu corpo inteiro reagiu como se tivesse levado um soco. Marcelo. Fred. O pai. O filho. Eu dei para o pai e para o filho? E como pôde o pai se melhor? Eu tinha acabado de dormir com o pai do homem que destruiu minha vida, e tudo que que conseguia pensar, era em o quão bem eu me sentir. A vergonha subiu queimando minha garganta, mas... junto dela, uma estranha satisfação. Como se, de algum modo, o destino tivesse feito justiça poética. Ainda assim, era errado. Muito errado. Mas também... inevitável. E eu erraria muitas vezes. Ele desligou a ligação bufando e passou a mão pelos cabelos, como se estivesse cansado de resolver seu porbelmas. — Desculpe. É meu filho... ele vive se metendo em encrenca. Tão grandes, tão i****a. Eu o encarei por um longo momento, sem saber se deveria contar. Se ele já sabia. Se aquele homem com quem eu dividi a cama tinha plena consciência de quem eu era. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele falou: — Está tudo bem? — Engoli em seco. — Sim... eu só... acho que preciso de um banho. E descansar um pouco. E talvez de um milagre. Quem sabe. — Posso levá-la se quiser. — Obrigado. Mas eu vou pedir um táxi.
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