Capítulo 6
Sofia narrando
Faculdade cansa.
Prova atrás de prova, trabalho em cima de trabalho. A cabeça vive cheia, o corpo vive no limite. Às vezes parece que eu só sobrevivo no automático.
Naquele dia, subi pro morro exausta.
Desci do carro na barreira e comecei a andar. A mochila pesava nos ombros, e minhas pernas já reclamavam. Foi então que senti. Aquela sensação de novo. Olhei pra frente.
Arcanjo.
Parado alguns metros à frente, postura firme, olhar preso em mim. Não era invasivo. Era atento. Como quem avalia o mundo o tempo todo.
Ele veio na minha direção com passos calmos.
— Te levo — disse, simples. — Vai andar muito… cansada?
Eu só sorri e balancei a cabeça, confirmando. Não consegui falar nada. Tinha algo nele que sempre me deixava sem reação.
Ele destravou o carro, abriu a porta pra mim. Entrei. O veículo subiu o morro devagar no começo. Pela janela, eu via cenas que pouca gente de fora imagina: famílias sentadas nas portas, crianças rindo, gente conversando como se o mundo lá embaixo não existisse.
O morro também é isso.
Foi de repente.
O rádio chiou.
Ele atendeu rápido.
Do outro lado, a voz de um vapor saiu tensa:
— Chefe… os caveira tão subindo.
Meu estômago gelou.
Mesmo eu não estando envolvida com nada, todo mundo sabe o que isso significa. Polícia. BOPE. Operação.
Arcanjo não disse nada. Só desligou o rádio. O rosto ficou sério. O carro acelerou de um jeito que me fez segurar firme no banco. Subimos rápido, curvas fechadas, ruas estreitas.
Ele parou em frente a uma casa linda. Grande, discreta, protegida. Antes mesmo de o carro parar totalmente, os vapores já estavam abrindo o portão.
— Calma… — eu falei, o coração disparado. — Eu não posso ficar aqui.
Ele virou o rosto pra mim, firme.
— Você pode. E você vai ficar aqui. Aqui é seguro. Vem.
Não era um pedido.
Era proteção.
Entrei com ele. Subimos rápido. Passamos por corredores silenciosos até chegar a um quarto. O quarto dele. Grande, organizado, frio. Ele abriu o closet e, no fundo, empurrou uma parte da parede.
Não era uma porta.
Era uma entrada escondida.
— Me escuta, Sofia — ele falou, sério, mas baixo. — Tu vai ficar aqui até eu voltar pra te buscar. Tem câmera. Tu vê quem tá do lado de fora. Só abre se for eu. Entendeu?
Eu só consegui balançar a cabeça. O medo tinha travado minha voz.
— Vai ficar tudo bem — ele completou.
Quando me dei conta, ele se aproximou devagar. Não invadiu meu espaço. Não me tocou além do necessário. Apenas colocou a mão na minha cabeça e beijou de leve, um beijo calmo, quase protetor.
— Confia em mim.
Ele se afastou e saiu sem olhar pra trás.
Fiquei ali, sozinha, num esconderijo que eu nunca imaginei existir, ouvindo meu próprio coração bater forte.
E pela primeira vez, no meio do caos do morro, eu entendi uma coisa que me assustou ainda mais do que a operação lá fora:
Eu me sentia segura…
Justamente com o homem mais perigoso daquele lugar.