Cap 10

793 Words
Sofia narrando No carro, ele passou pelas vielas sem dizer nada. Silêncio pesado. Daqueles que dizem mais do que qualquer discussão. Quando chegamos perto da minha casa, eu já estava pronta pra sair. Assim que o carro parou, desci rápido. Não olhei pra trás. Não agradeci. Eu só queria me afastar o mais rápido possível. Precisava de ar. De distância. Ele não saiu do carro. Entrei em casa e fui direto pro quarto. Tranquei a porta, como se isso me protegesse de sentimentos que eu não sabia lidar. Tomei um banho rápido. Eu só tinha uma hora pra me arrumar. Me vesti sem pensar muito: calcinha branca, calça cargo, blusa simples, jaqueta, tênis. Prático. Seguro. Peguei a bolsa e saí quase correndo, descendo em direção à contenção. Foi aí que eu vi. Uma morena cacheada, linda, sentada na moto do Arcanjo. Eles pareciam prestes a sair. Aquilo me deu um aperto estranho no peito que eu odiei sentir. Antes que eu pudesse seguir, vi quando Teteu pegou a moto dele e veio na minha direção. Quando me viu, diminuiu a velocidade. Me olhou por um segundo a mais do que o normal. — Vamo — ele disse. — Vou te deixar. Foi rápido demais. Tudo rápido demais. Vi Arcanjo falar algo com a morena. Ela desceu da moto na hora e se afastou. Em segundos, a moto dele já estava vindo na minha direção. — Eu te deixo — ele falou. — Vou só pegar o carro… é coisa rápida. Olhei pra ele, sentindo o sangue subir. — Vou com o Teteu — falei, já andando. — Já tô atrasada. Não posso me atrasar por conta das suas aventuras. As palavras saíram no impulso. Cruas. Erradas. Ele ficou me olhando. Não bravo. Pior. Fechado. Teteu já estava com a moto ligada, pronto pra subir. — Eu vou levar a Sofia — Teteu falou firme. — Para de ser teimosa. — Vai, Teteu — Arcanjo respondeu seco. — Deixa que eu levo ela. Sobe na moto, Sofia. Olhei pra moto. Olhei pra ele. — Nessa moto… que aquela ali tava? — minha voz saiu dura. — Eu não subo. E não vai ser você nem ninguém que vai me fazer subir. O ar ficou pesado. Teteu percebeu na hora que o assunto estava esquentando demais. Desligou a moto por um segundo e falou sério: — Eu deixo ela, Arcanjo. Quando eu chegar, a gente conversa, parceiro. Arcanjo me encarou por alguns segundos que pareceram longos demais. Depois desviou o olhar. — Vai. Subi na moto do Teteu sem dizer mais nada. Enquanto descíamos pro asfalto, o vento batia forte no meu rosto. Meu coração também estava acelerado. Não era raiva. Era confusão. Ciúme que eu não queria sentir. Medo de me importar. Eu não olhei pra trás. Mas sabia… algumas palavras, quando ditas, não voltam do mesmo jeito. Teteu parou a moto bem em frente à faculdade. Desci devagar, ajeitando a bolsa no ombro. Antes que eu desse dois passos, ele me chamou. — Ei, Sofia… — a voz dele veio mais baixa. — O Arcanjo não tava com a morena que te fez m*l, não. Eu parei. Virei devagar e olhei pra ele. Teteu sempre foi um irmão pra mim. Nunca mentiu. Nunca me expôs. Nunca me deixou cair. — Teteu… — respirei fundo. — Tanto faz ele estar ou não. Ele franziu a testa, confuso. — Como assim? — Porque naquela vez… — minha voz falhou, mas eu continuei. — Foi ele que mandou fazer aquilo lá em casa. E só não tomou minhas coisas por sua causa. Você sabe disso. Ele sabia. E isso doía mais ainda. — Eu quero distância do Arcanjo — falei firme, olhando direto nos olhos dele. — Hoje eu lembrei do homem c***l que ele é. Teteu não respondeu. Só me olhou por alguns segundos, como quem entende, mas não concorda totalmente. Depois assentiu de leve. — Se cuida — foi tudo que ele disse. Entrei na faculdade sem olhar pra trás. Os corredores estavam cheios, barulhentos, gente rindo, reclamando da prova, falando de festa, de vida normal. Eu respirei fundo. Ali dentro, eu não era “a Sofia do morro”. Eu era Sofia, futura médica. Sentei na cadeira. Abri a prova. Meu coração estava calmo. E aquilo me surpreendeu. Enquanto respondia cada questão, eu sentia uma clareza que fazia tempo que não sentia. Nada de medo. Nada de confusão. Só foco. Meu futuro estava ali. Não no morro. Não em um homem poderoso. Não em promessas silenciosas. Quando terminei, revisei tudo com cuidado. Entreguei a prova tranquila, plena. Saí da sala com a sensação estranha de quem escolheu a si mesma — mesmo sabendo que, às vezes, escolher a si dói. E doía.
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