Arcanjo narrando
Deixei a Sofia em casa e segui direto pro QG.
Cabeça cheia. Peito apertado. Aquele tipo de sensação que eu não gosto, porque não sei resolver no grito nem na ordem.
Arrumei umas coisas, assinei papel, ouvi relatório pela metade. Foi quando avisaram que a morena tinha voltado pro morro.
Desci a contenção.
Conversei com ela ali mesmo, rápido, objetivo. Ela não veio pra passeio. Veio pra resolver favor, fechar umas pendências antigas.
— Vou te deixar no barraco onde tu vai ficar — falei sério. — À noite tu tem que ir na boca. Quero tu vendo de perto a missão que eu preparei.
Ela só concordou. Poucas palavras. Sempre foi assim.
Foi aí que eu avistei a Sofia.
Porra.
Ela viu.
Eu vi no jeito que ela travou.
— Desce, morena — falei na hora. — Vou resolver um BO aqui. O vapor vai te deixar.
Ela desceu sem questionar.
Tentei levar a Sofia pra faculdade, mas nada adiantou. Ela reconheceu a morena. Reconheceu o passado. Reconheceu o que eu achei que estava enterrado.
Fui pra boca com aquilo martelando na cabeça.
Não demorou muito, Teteu chegou.
— Deixou ela na faculdade? — perguntei, tentando soar normal.
Ele nem respirou fundo. Veio na lata.
— De irmão pra irmão… a Sofia quer ficar longe de você, parceiro.
Aquilo bateu diferente.
— Eu ainda te falei — ele continuou. — Se a morena viesse, não deixava a Sofia ver. Porque ia dar merda. E deu.
Fiquei quieto.
— Ela lembrou de tudo que você fez ela passar quando perdeu os pais. Tudo, parceiro. Até eu, que sou casca grossa, lembrei da humilhação. Quem dirá ela… que viveu aquilo.
Senti o peso descer inteiro.
Passei a mão pela cabeça devagar.
— Ela… — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Ela disse isso pra tu? Que queria ficar longe de mim?
Teteu confirmou com a cabeça.
Ali eu calei.
Não discuti.
Não mandei ninguém calar a boca.
Não quebrei nada.
Só sentei.
Abri as fichas: quem tava devendo, o que ia chegar de arma, o que precisava sair do morro. Olhei tudo sem ver nada. Os números não entravam. As letras embaralhavam.
A noite caiu.
Fiquei na boca.
Os aliados começaram a chegar pra reunião. Cumprimento seco, conversa direta. Um vapor apareceu com uma marmita na mão.
— É da Sofia, Teteu — ele falou. — Ela mandou a janta.
O vapor saiu.
Fiquei olhando aquela marmita como se fosse uma sentença.
Ela não queria me ver.
Não queria falar comigo.
Mas ainda cuidava.
A reunião começou.
Falamos de armas, drogas, vigilância no morro.
E pela primeira vez em muito tempo,
eu estava no controle de tudo…
menos
do que realmente importava.
Quando a reunião terminou, Teteu abriu a marmita.
Eram duas.
Eu comi a minha em silêncio.
Sem comentário.
Sem fome de verdade.
Hoje era dia de vigilância no morro. Madrugada pesada, morro atento, rádio ligado o tempo todo.
Foi quando o rádio apitou.
— Patrão… a Sofia tá descendo a contenção.
Olhei no relógio.
Quase meia-noite.
— Com quem? — perguntei na hora.
— Sozinha. Tá com uma mochila.
Desliguei o rádio. Não pensei duas vezes. Peguei a moto e desci a contenção o mais rápido que dava. Coração acelerado, cabeça cheia de coisa que eu não queria sentir.
Quando cheguei mais embaixo, vi um carro parado. A porta já abrindo. Sofia ia entrar.
Mirei no pneu.
Atirei.
O barulho ecoou no morro inteiro.
Ela se assustou na hora.
— Se tu entrar… eu pipoco esse carro todo! — falei firme, sem gritar, mas com verdade.
Ela me olhou assustada, respirando rápido.
— Calma… para com isso — ela disse. — Eu vou pra casa de uma amiga.
— Manda ela vazar agora — respondi, sem tirar os olhos do carro.
O carro saiu.
Antes de sumir, algo me bateu forte.
Eu conhecia aquele carro.
Porra…
Era do meu pai.
Desci da moto e fui até ela.
— Quem era o homem no carro? — perguntei, sentindo a raiva subir.
Foi aí que eu senti o tapa.
Seco. Direto.
— Eu não sou igual essas que você acha que eu sou — ela disse, com a voz firme mesmo tremendo. — Me respeita.
Aquilo doeu mais que o tapa.
— Aquele carro é de um homem — falei, mais baixo agora. — Eu conheço aquele carro.
— Problema seu se você conhece — ela respondeu.
— Dentro era uma mulher.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Vou te deixar em casa, Sofia — falei por fim.
Ela me olhou. Cansada. Machucada. Mas subiu na moto.
Subimos o morro sem dizer uma palavra.
Quando chegamos, ela desceu.
Eu desci também.
Ela entrou.
Eu entrei.
— Vai embora… por favor — a voz dela saiu trêmula.
Eu fui por trás, mas parei antes de tocar. Esperei. Ela respirou fundo. Não se afastou.
Virei ela devagar pra me olhar.
Ela estava chorando.
Limpei as lágrimas com o polegar, com cuidado, como se ela fosse algo frágil demais pra mim. Ela não recuou. Pelo contrário… fechou os olhos.
— Não faz isso comigo — ela sussurrou.
— Então me diz pra parar — respondi baixo.
Ela não disse.
Foi aí que eu beijei.
No começo, ela travou. Eu senti. Parei por um segundo. Quando ela segurou minha camisa e puxou de volta, eu entendi.
O beijo veio forte. Verdadeiro. Cheio de coisa guardada.
E quanto mais ela se soltava, mais eu sabia…
Que o perigo não era o morro.
Nem a polícia.
Nem os inimigos.
Era ela.
Continua