Capítulo tres
Sofia narrando
Meu nome é Sofia.
Tenho 24 anos.
Sou estudante de medicina.
Moro sozinha no Vidigal. Sempre morei.
Meus pais morreram cedo demais, e depois disso eu não tive ninguém. Ninguém de sangue. Ninguém de papel passado. Só a vida — dura, injusta e sem aviso.
Se eu não passei fome…
Se eu não passei necessidade…
Foi por causa de Teteu.
Ele é o sub do morro. Mas, pra mim, sempre foi mais que isso. Foi amigo, foi proteção, foi abrigo quando tudo parecia desabar. Nunca deixou que tomassem minha casa. Nunca deixou que encostassem em mim. Dizem que o dono do morro é um homem frio, invisível, que aparece quando quer. Um tal de Arcanjo.
Eu nunca vi.
E, sinceramente, nunca fiz questão.
Teteu sempre dizia que eu só precisava estudar. Que meu futuro tava nos livros, não no pó das vielas. E eu acreditei. Acredito até hoje.
No dia da prova, eu e Cibele saímos exaustas. A cabeça pesada, o corpo cansado, o coração acelerado. Agora era só esperar a nota. A pior parte.
Horas depois, já em casa, me joguei no sofá com o celular na mão, atualizando a página da faculdade a cada dois minutos. Ansiedade pura.
Foi quando ouvi.
O barulho dos motores.
Carros de luxo subindo o morro. Um atrás do outro. Vidro escuro. Movimento diferente. Abri a cortina devagar e olhei pela janela.
Meu estômago gelou.
No meu pensamento veio automático:
O famoso Arcanjo deve tá por aqui.
Hoje era dia de baile. E quando é dia de baile, dizem que às vezes ele aparece. Alguns veem. Outros só sentem a presença. Eu nunca vi. Mas o morro muda quando ele tá.
O ar fica mais pesado.
Mais atento.
Saí dos meus pensamentos com uma batida forte na porta.
— Sofia!
Reconheci a voz na hora.
— Já vai! — respondi.
Abri a porta e dei de cara com a Suzy. Amiga antiga. Linda, arrumada demais praquele horário. Olhar esperto. Ela trabalha fazendo corre pra boca. Droga. Dinheiro rápido. Caminho que eu nunca quis seguir.
— Menina, tu viu o movimento? — ela entrou sem pedir licença. — Hoje vai ferver.
— Vi… — respondi, fechando a porta. — Não curto esses dias.
Ela riu.
— Relaxa. Com Arcanjo no morro ninguém ousa errar.
O nome soou estranho no ambiente. Pesado.
— Prefiro nem falar dele — falei baixo.
Suzy me encarou, curiosa.
— Tu vive aqui e nunca viu o homem?
Balancei a cabeça.
— Nem quero.
Ela deu de ombros.
— Dizem que ele observa tudo. Mesmo quando a gente acha que não.
Um arrepio subiu pela minha nuca.
Atualizei o site da faculdade mais uma vez. Nada ainda.
Lá fora, o som começava a crescer. Música sendo testada. Gente passando. O morro acordando pra noite.
Eu nunca fui a um baile.
Nunca gostei. Nunca quis.
Mas naquela noite, a Suzy insistiu tanto que eu acabei cedendo. Talvez fosse a ansiedade da prova. Talvez fosse curiosidade. Ou talvez eu só quisesse, por algumas horas, esquecer o peso da vida.
Me arrumei com calma.
Coloquei uma saia de amarração brilhosa, tecido leve, quase como seda na pele. Um cropped tomara que caia, com uma bijuteria delicada caindo no colo. Maquiagem leve, só pra realçar. Um salto baixinho, confortável o suficiente pra aguentar a noite.
Meu cabelo ficou solto, longo, loiro e liso, escorrendo pelas costas.
Quando terminei, me olhei no espelho.
Gostei do que vi.
Não era vaidade.
Era reconhecimento.
Eu estava bonita. Segura. Inteira.
Pouco depois, Suzy chegou animada, já falando alto, rindo, me puxando pelo braço. Descemos juntas.
O morro estava diferente.
Movimentado do jeito que o baile gosta. Luzes, música ecoando pelos becos, gente subindo, gente descendo, cheiro de bebida, perfume doce misturado com fumaça. Tudo pulsava.
A quadra estava lotada.
Quando entramos, eu parei por um segundo, olhando em volta. Nunca tinha visto tanta gente reunida. Todo tipo de pessoa. Todo tipo de roupa. Até as meninas da igreja — as mesmas que se dizem evangélicas — estavam ali, dançando, rindo, vivendo.
O baile não escolhe ninguém.
Ele engole todo mundo igual.
Seguimos até o meio da multidão. A música vibrava no peito, no chão, no corpo. Eu girava o olhar pra todos os lados, tentando me situar, quando senti.
Não vi primeiro.
Senti.
Aquela sensação estranha de estar sendo observada.
Levantei o olhar devagar.
Lá em cima, em uma área mais alta, um homem estava sentado. Postura firme. Corpo relaxado demais pra quem manda. Olhos cerrados, intensos, com um vermelho forte refletindo a luz ao redor. O olhar dele me atravessou sem pedir permissão.
Meu coração acelerou.
Ele levantou o copo de bebida lentamente, sem tirar os olhos de mim. Um gesto simples. Dominante. Como se soubesse exatamente o efeito que causava.
Desviei o olhar rápido.
Não precisava de confirmação.
Ali estava ele.
Arcanjo.
O dono do morro.
O homem que eu nunca tinha visto…
Mas que agora sabia exatamente quem eu era.
E, naquele instante, no meio da música, da multidão e das luzes, eu entendi:
Nada naquela noite tinha sido por acaso.