Arcanjo narrando
Cheguei no morro como sempre.
Antes mesmo de sair do carro, os vapores já tinham fechado a minha segurança. Tudo no lugar. Tudo sob controle.
Subi direto pro baile.
Lá em cima, apertei a mão de alguns aliados de outros morros que vieram prestigiar. Gente grande. Conversa curta, olhar atento, respeito mútuo. No nosso mundo, presença vale mais que promessa.
O baile fervia lá embaixo. Música alta. Multidão apertada. Energia pesada do jeito que eu gosto quando apareço pouco.
As conversas iam e vinham…
Até que meus olhos travaram.
Na entrada.
Uma loira que eu nunca tinha visto antes.
Bonita não.
Linda demais.
Não forcei o olhar. Não precisei. Meus olhos foram nela sozinhos, sem pressa, mas atentos. Observei cada passo enquanto ela atravessava o baile até o centro da quadra.
Ela dançava normal. Nada exagerado.
Mesmo assim… parecia provocação.
Não era o corpo.
Era a presença.
Eu olhei.
Olhei muito.
Não tinha como não olhar.
Quando ela finalmente percebeu, levantou o rosto. Nossos olhares se cruzaram. Levantei o copo devagar, sem tirar os olhos dela. Um gesto simples. Claro.
Ela desviou o olhar na hora.
Sorri de lado.
Gosto quando alguém sente o peso antes mesmo de entender quem eu sou.
Foi aí que Teteu encostou do meu lado. Ele também tinha percebido.
— Essa é a Sofia, parceiro — falou baixo. — Ela nunca se envolveu com ninguém daqui. Nem homem nenhum. Pra nós, ela é como uma irmã.
Continuei olhando pra frente, sério.
— Tá ligado naquela menina que você ia tomar a casa tempos atrás? — ele continuou. — Era ela.
Aquilo mudou o ar.
Desci o copo devagar, os olhos ainda na multidão, mas a atenção inteira naquela informação.
— Você protegeu? — perguntei.
— Sempre. Desde o começo.
Assenti uma vez só.
Agora fazia sentido.
A postura.
O jeito reservado.
O olhar que foge, mas sente.
Sofia não era só mais uma no baile.
Ela era território protegido…
Sem nunca saber por quem.
Voltei a olhar pra ela. Estava rindo com uma amiga, alheia ao que acontecia acima. Não fazia ideia de que o dono do morro sabia exatamente quem ela era.
Nem que, a partir daquele momento,
eu também sabia.
E quando Arcanjo repara em alguém,
o destino costuma começar a se mover.
Fiquei observando mais um tempo.
Não por desejo imediato.
Mas por curiosidade.
Sofia se movia diferente. Não bebia demais, não se jogava, não chamava atenção de propósito. Mesmo assim, o baile parecia se abrir em volta dela. Como se o caos respeitasse aquele espaço invisível.
Isso me incomodou.
Não gosto de coisas que eu não entendo.
Inclinei levemente a cabeça e fiz um sinal discreto com a mão. Um dos vapores mais antigos se aproximou na hora.
— Chama a Sofia — falei baixo. — Com respeito. Sem tocar.
O recado saiu limpo.
— Leva ela até lá em cima. E deixa claro: é convite, não ordem.
O cara assentiu e sumiu no meio da multidão.
Teteu me olhou de lado.
— Ela é quieta, chefe. Não curte contato. Nem pressão.
— Eu sei — respondi. — Por isso mesmo.
Esperei.
Lá de cima, vi quando o vapor falou com ela. Ela travou na hora. Olhou em volta, como se procurasse uma rota de fuga. A amiga falou algo no ouvido dela. Sofia respirou fundo. Deu um passo pra trás. Depois outro pra frente.
Coragem não é ausência de medo.
É movimento apesar dele.
Quando ela começou a subir, o baile pareceu diminuir. Não pelo som — mas pela atenção. Todo mundo notou. E ninguém ousou comentar.
Quando chegou perto, parou a uns dois metros de mim.
Boa distância.
Inteligente.
Ela não me olhava direto. Os olhos ficavam no chão, depois subiam rápido, depois desviavam de novo. As mãos juntas na frente do corpo. Postura fechada.
Tímida.
De verdade.
— Boa noite, Sofia — falei primeiro.
Minha voz saiu firme, mas controlada. Sem ameaça.
Ela engoliu seco antes de responder.
— Boa noite…
— Fica tranquila — continuei. — Ninguém vai te tocar. Ninguém vai te forçar a nada.
Ela levantou o olhar pela primeira vez e me encarou de verdade. Os olhos claros denunciavam nervosismo, mas também atenção.
— Eu só vim porque disseram que era convite — falou baixo.
Assenti.
— E é.
Se quiser ir embora agora, vai sem problema nenhum.
Ela hesitou. Não saiu.
— Posso sentar? — perguntou.
Apontei para a cadeira ao meu lado, mantendo espaço.
— Claro.
Ela sentou com cuidado, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar alguma coisa invisível. Mantinha o corpo rígido, distante. Não cruzou as pernas. Não se inclinou.
Respeitei.
— Você não é daqui — falei. — Pelo menos não do baile.
— Eu moro aqui… — respondeu. — Só não frequento isso.
— Faz sentido.
Silêncio.
Observei o jeito dela respirar, controlar as mãos, o olhar atento a tudo. Sofia vivia em alerta. Gente que já perdeu demais aprende isso cedo.
— Teteu fala muito bem de você — comentei.
Ela franziu a testa.
— Ele sempre cuidou de mim.
— Eu sei.
Ela pareceu surpresa.
— Você… sabe da minha história?
— Sei o suficiente.
Ela respirou fundo, como se estivesse tentando entender o tamanho do buraco em que tinha entrado.
— Eu não me envolvo com nada errado — disse rápido. — Eu estudo. Trabalho. Fico na minha.
— Ninguém tá te acusando de nada — respondi. — Pelo contrário.
Olhei direto pra ela.
— Você sobreviveu num lugar onde muita gente cai. Isso merece respeito.
Ela ficou em silêncio. Os olhos marejaram um pouco, mas ela segurou. Forte, apesar da timidez.
— Eu só queria viver minha vida em paz — falou quase num sussurro.
— E vai — garanti. — Enquanto eu estiver aqui, ninguém encosta em você. Nem na sua casa. Nem no seu caminho.
Ela me encarou, confusa.
— Por quê?
Sorri de leve.
— Porque nem tudo precisa de interesse pra existir. Às vezes, é só justiça tardia.
Levantei devagar, mantendo distância.
— Pode voltar pro baile. Ou ir embora. A decisão é sua.
Ela levantou também.
— Obrigada… Arcanjo.
Ouvir meu nome verdadeiro sair da boca dela teve um peso diferente.
Assenti uma última vez.
Quando Sofia desceu, o baile voltou ao normal. Mas pra mim, nada ali era igual.
Porque, pela primeira vez em muito tempo,
alguém me fez querer proteger sem dominar.
E isso…
era perigoso.