Levei Addison ao shopping como havia prometido ao Jasper, e compramos também algumas peças de roupa. O inverno estava chegando e precisávamos estar preparados para a frente fria. O inverno em Boston costumava ser muito gelado.
Addison parou em frente a um cafeteria depois de termos feito todas as compras e encarou o chocolate quente gigante de uma moça que estava no balcão. Eu ri, apreciando a baba que caia na sua boca entreaberta.
— Você quer um? — Perguntei. Geralmente não costumava dar doce a ela, mas sentia que hoje era uma excessão.
Addison simplesmente fez que sim com a cabeça repetidas vezes e nós fomos em direção ao balcão.
— Oi, você pode fazer dois chocolates quentes com espuma? De 300ml. E... — Pensei observando a vitrine — O que acha de salgadinhos? — Perguntei a Addison que disse "sim!" — E alguns salgadinhos, por favor.
A balconista aquiesceu e nós nos sentamos. Addison encostou a cabecinha na mesa como se estivesse exausta. Ela devia mesmo estar por causa da escola. Meu Deus, eu era tão sortuda em tê-la. Não podia deixar ninguém tirá-la de mim. Nunca!
— Como foi seu dia? — Indaguei.
— Foi legal. — Respondeu, sem levantar a cabeça.
— Só legal?
— Sim. — Respondeu. — Mamãe, eu acho que funcionou. Não assistir televisão me fez não ver aquele moço hoje.
Eu arregalei os olhos.
— Sério?
— Sim. — Afirmou. — Foi esquisito. Eu já estava acostumada. — Acrescentou.
Segurei suas mãozinhas frias e apertei-as. Não tive forças e nem coragem para argumentar. Nossa comida chegou pouco tempo depois e eu tentei me convencer que ela esqueceria do rosto do Adam assim que ele não aparecesse mais.
Meu celular vibrou no bolso e eu atendi sem saber quem era.
— Safira?
Reconheci a voz.
— Oi, amor.
— Está no shopping? — Jasper perguntou.
— Sim. Por que?
— Estou por perto. Onde vocês estão?
— Na praça de alimentação. — Informei — Naquela cafeteria preta e azul.
— É o papai? — Addison perguntou, ansiosa.
Eu confirmei e coloquei no viva-voz.
— Oi, papai. Estou tomando chocolate quente.
— Oi, amor da minha vida. Tomando chocolates, é? Vou ter que ter uma conversa séria com a sua mãe — Brincou e Addison deu uma risadinha frouxa.
— Não, papai. Não brigue com a mamãe, fui eu que pedi.
— Tudo bem, amor. Papai já está com saudades.
— Também. — Ela concordou.
Retirei do viva-voz e coloquei de volta o celular no ouvido.
— O que está havendo? — Ele indagou.
— Como assim?
— Você nunca dá chocolate a ela, exceto quando quer compensa-la por alguma coisa. O que está havendo?
Eu cocei a garganta. Havia me esquecido o quanto o Jasper me conhece bem. Pensei na desculpa mais rápida que poderia encontrar.
— Não é nada. Só estou muito feliz hoje. Só isso. — Respondi. Por mais que nessa frase houvesse uma resposta muito vaga, aquilo pareceu ser suficiente para Jasper, que se despediu logo depois.
Eu pensei em voltar para o clube e contar tudo para a mamãe, mas pensava que, se eu contasse para alguém o que tinha acontecido, aquilo seria real, e então não haveria volta.
Se dependesse de mim, Addison não descobriria nem tão cedo quem é o Adam. Ela não estava preparada. Como poderia? Tinha apenas 5 anos. Ela não entenderia. Apesar de que, eu sabia do coração gigante e bondoso que ela tinha, dificilmente ela não gosta de alguém. Mas a conexão profunda que ela tinha com o Jasper, era simplesmente inigualável. Nunca conheci duas pessoas que se amam tanto com eles dois. Não era justo com eles.
Eu ainda não havia parado para pensar no que aquilo realmente significava para mim. Apesar da situação ter me deixado extremamente assustada, parte de mim estava tão aliviada que ele estava vivo. Eu nunca havia realmente me perdoado pela sua morte, e hoje, a sensação de olhar no fundo dos seus olhos, de ouvir sua voz mais uma vez, foi avassaladora. De uma maneira nunca sentida antes.
Mas eu não podia me dar o luxo de ficar feliz. Eu era mãe agora. Minha ações tinha consequências pesadas. Aquilo era r**m para a Addison. Era perigoso e poderia causar-lhe sofrimento. A melhor maneira de encarar isso era esquecendo e agindo como se ele estivesse morto de verdade.
<3
Já era noite e eu já havia retirado a mesa do jantar. Jasper estava penteando os cabelos de Addison no sofá. Eu cheguei e me sentei ao lado deles. Ele entregou o pente nas mãos da garotinha e disse:
— Vá escovar os dentes que já já sua mãe ou eu vamos no seu quarto contar alguma historinha.
Ela sorriu e saiu correndo.
Jasper se virou para mim, encarando meus olhos. Ele sabia que tinha alguma coisa errada, mas como sempre fez, ele esperou que eu dissesse. Jasper nunca gostou de me pressionar, sempre me deixou livre em relação a isso. "Se você achar que precisa me contar, então estarei aqui para ouvir" era o que ele dizia em situações assim.
— O que está inquietando você?
Eu ignorei a pergunta com um beijinho nos seus lábios.
— Você é um pai sensacional, sabia disso?
— Ainda não sou 1% do que gostaria de ser. — Afirmou.
— Não se cobre tanto.
— Um dia vou ser para a Addison como o meu pai era para mim. — Falou, acariciando meus cabelos.
— Você já é incrível para ela. O jeito que ela te olha, não é comum. É amor, admiração e respeito. Isso não é "do nada". Você conquistou isso.
— Ou ela é pura demais.
— Isso ajuda também. Com certeza — Concordei, sorrindo. — E como foi hoje? Conseguiram mesmo prender os criminosos?
Jasper suspirou.
— Sim. Tive a chance de olhar nos olhos de todos eles e questionar o motivo. Sabe o que eles disseram?
— Não. O que? — Indaguei.
— Disseram que não se lembram dos meus pais. Que provavelmente foi só mais um roubo que havia passado dos limites...
— Oh, Jasper. Eu sinto muito.
— Meus pais estão mortos por causa de um "roubo m*l-sucedido". O quão frustrante é isso?
Eu o abracei. Queria poder ter palavras para conforta-lo, mas era triste demais. Todos esses anos esperando uma resposta, é um "Eu não me lembro" foi tudo que ele recebeu.
— Lembre-se que essa situação te tornou o homem que é hoje. — Dialoguei.
Ele aquiesceu.
— O pior que eu quis dizer umas verdades a eles. Quis tortura-lia como fazem os outros policiais do departamento, mas não consegui.
— Porque não é assim que a justiça funciona pra você. É por isso que eu te amo.
— É uma fraqueza. — Admitiu.
— É bondade. Alguém tinha que deixar esse exemplo para a Addison. — Afirmei essas palavras e ouvi a nossa filha chamar do seu quarto.
Me levantei, depositei um beijo no rosto do Jasper e fui para o quarto dela, contar-lhe a historinha noturna antes de dormir.