Capítulo 13 – Coringa

1356 Words
Eu estava lá em cima, com o copo de uísque gelado na mão, observando o circo pegar fogo. Ver a Carolaine descer do camarote com aquele andar de quem é dona do mundo só para peitar a Maya foi o melhor entretenimento que eu tive em semanas. Eu queria ver até onde a Pimentinha ia aguentar. E, p***a, ela não me decepcionou. Quando vi a Maya segurar o pulso da Carolaine no ar, senti uma descarga de adrenalina que nem o melhor pó da boca me daria. Aquela garota tinha sangue nas veias, afinal. O "treino" de sobrevivência que a vida deu pra ela finalmente estava dando frutos sob o meu comando. Carolaine subiu os degraus de volta bufando, o rosto vermelho sob a maquiagem pesada, os saltos batendo na madeira do camarote como se quisessem quebrá-la. Ela veio direto na minha direção, ignorando os soldados que desviaram o olhar para não rir da situação. — Isso é culpa tua, Coringa! — Ela gritou, parando na minha frente e apontando o dedo na minha cara. — Tudo culpa tua! Aquela esquisitinha, aquela servente de bosta, agora acha que tem poder! Ela acha que pode me enfrentar na frente do morro inteiro porque tu deu esse poder pra ela! Tu transformou uma ninguém numa ameaça, e eu odeio isso! Eu odeio o que tu tá fazendo comigo! Eu dei um gole lento no meu uísque, deixando o gelo estalar contra o vidro. Olhei para ela com uma frieza que eu sabia que a machucava mais do que um tapa. — Já terminou o teu show, Carolaine? — Perguntei, a voz calma, o que era sempre o sinal de que o bicho ia pegar. — Não terminei nada! Tu tem que escolher, Coringa. Ou eu, ou ela. O morro tá rindo da minha cara! Eu me levantei devagar. A diferença de altura entre nós era um lembrete constante de quem mandava naquela p***a. Inclinei-me sobre ela, sentindo o cheiro do perfume dela misturado ao cheiro da raiva. — Escuta aqui, e escuta bem porque eu não vou repetir. Tu não é prioridade, Carolaine. Tu nunca foi. Você é a mulher que tá do meu lado porque me serve, porque conhece o ritmo. Mas a Maya... a Maya é outra parada. E se tu quer continuar aqui, usufruindo do ouro, do respeito e da segurança que o meu nome te dá, saiba de uma coisa: a partir de hoje, eu tenho duas amantes oficiais. Tu e a Sardenta. Que tu goste ou não, o decreto é esse. Se tu não aceita dividir o trono, a porta da rua é a serventia da casa. Tu escolhe: ou aceita a tua nova posição, ou vaza da Rocinha com uma mão na frente e outra atrás. Ela ficou muda. O choque no rosto dela foi impagável. Carolaine achava que o tempo de casa dava a ela o direito de ditar as regras do meu desejo. Ela esqueceu que no meu mundo, a única regra que vale é a minha vontade. Virei as costas para ela e desci os degraus do camarote. Eu precisava sentir o gosto daquela vitória pessoalmente. A multidão se abria conforme eu passava, o silêncio me acompanhando como uma sombra. Maya ainda estava lá embaixo, com a Mirele, tentando se recompor do embate. O rosto dela, ainda com as marcas amareladas da surra da madrasta, parecia mais vivo do que nunca. Parei na frente dela. Ela me olhou com aqueles olhos verdes, uma mistura de desafio e medo que me deixava louco. — Tu não aprende, né? — Falei, olhando para o vestido dela. Não era o "uniforme de p**a" que a Odete forçou, mas era curto o suficiente para me irritar. — Que roupa é essa, Maya? Veio pra praça pra ser admirada ou pra me provocar? — Eu vim com a minha amiga, Coringa. Eu tenho esse direito — ela respondeu, tentando manter a postura que usou contra a Carolaine. — Tu tem o direito que eu te dou. E agora, o teu direito é estar onde eu possa te ver — segurei o braço dela, não com força para machucar, mas com a firmeza de quem não aceita um "não". — Sobe. Você vai pro camarote. Agora. — O quê? Não! — Ela tentou recuar. — Todo mundo tá olhando... eu não quero estar lá em cima. Por favor, Coringa, me deixa ir embora. — Você não vai embora p***a nenhuma. Tu vai subir, vai sentar do meu lado e vai mostrar pra esse morro quem é que manda no meu tempo. Se você quer agir como se tivesse poder, então aguenta o rojão de estar no topo. Eu a puxei sem dar chance de resposta. Senti a resistência dela, mas eu era uma força da natureza comparado a ela. Subimos os degraus sob o olhar estupefato de centenas de pessoas. O silêncio era total. Dava pra ouvir o som da respiração dela, ofegante, apavorada. Eu sabia o que ela estava sentindo. Maya era a garota "certinha", a trabalhadora, a que tentava ser invisível no asfalto. Estar de mãos dadas com o dono do morro, no centro do poder da Rocinha, era a oficialização da sua queda — ou da sua ascensão, dependia do ponto de vista. Chegamos ao topo do camarote. Carolaine ainda estava lá, petrificada. O olhar que ela lançou para a Maya poderia matar, mas eu a ignorei completamente. Sentei na poltrona central e puxei a Maya para sentar no braço da cadeira, ao meu lado. — Relaxa, Pimentinha — sussurrei no ouvido dela, sentindo-a tremer como uma folha. — Tu não queria ser respeitada? No meu lado, ninguém encosta. No meu lado, você é lei. Olhei para a praça. O pagode tinha voltado, mas o clima era outro. Todos olhavam para cima. Os comentários deviam estar correndo como pólvora. "O Coringa assumiu a esquisita". "A Carolaine perdeu o posto". Eu sentia o poder vibrando sob a minha pele. Eu tinha feito o que todos achavam impossível: eu tinha colocado a luz e a sombra no mesmo lugar. Maya estava com o rosto enterrado no peito, as mãos escondidas. Ela estava morrendo de vergonha. Ela sabia que, a partir daquele momento, o mundo dela tinha mudado pra sempre. Ela não era mais a garçonete anônima; ela era a mulher do Coringa. E no morro, esse título é uma coroa de espinhos. — Olha pra eles, Maya — ordenei, segurando o queixo dela e virando o rosto dela para a multidão. — Olha pra quem te humilhava, pra quem te ignorava. Eles agora têm medo de ti porque têm medo de mim. Aprende a gostar desse gosto, porque ele vicia. Carolaine se sentou na outra ponta, batendo o pé, tentando fingir que não se importava, mas as lágrimas de humilhação estavam lá. Eu estava no céu. Tinha a f**a fiel de um lado e o meu vício proibido do outro. O carnívoro estava satisfeito. Eu sabia que a Maya estava sofrendo ali, sentindo o peso do julgamento de cada vizinho, de cada pessoa que a conhecia desde pequena. Ela via os olhares de espanto, o julgamento das "donas de casa" que agora a veriam como mais uma "mulher de bandido". Eu sentia o coração dela batendo contra o meu braço, rápido, desesperado. Mas eu não me importava. Eu queria que ela soubesse que não havia volta. Que o caminho do asfalto estava fechado. Que o único lugar seguro pra ela agora era debaixo da minha asa, mesmo que essa asa fosse feita de fumo e chumbo. Eu estava expondo a nossa relação pro mundo porque eu queria que todos soubessem: a Pimentinha tem dono. E o dono não divide. A noite estava apenas começando, e enquanto o som do surdo batia forte lá embaixo, eu sabia que tinha acabado de declarar uma guerra que ia incendiar a Rocinha. Mas, olhando para o perfil da Maya, com aquela sarda solitária perto do nariz e o lábio ainda um pouco inchado da surra, eu sabia que valia a pena queimar o mundo inteiro só pra ter ela ali, sentada no meu trono, marcada pelo meu nome.
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