Abri os olhos e, por um segundo, o teto de gesso trabalhado e o cheiro de lençóis caros me fizeram esquecer o pesadelo. Mas o primeiro movimento que tentei fazer trouxe a realidade de volta na forma de uma pontada aguda na costela. Cada centímetro do meu corpo gritava. Levantei-me devagar, sentindo o mundo girar, e caminhei até o espelho imenso do closet do Coringa.
O que vi me fez perder o fôlego.
Meu rosto era um mapa de violência. O roxo ao redor do meu olho tinha tons de verde e amarelo, a sobrancelha estava colada por um curativo e meu lábio parecia o de uma estranha. Toquei a pele inchada com a ponta dos dedos e uma lágrima solitária escorreu.
— Como é que eu vou trabalhar assim? — Sussurrei para o meu reflexo. — Como vou encarar as pessoas no asfalto com a cara de quem foi moída?
— Tu não vai trabalhar no asfalto hoje. Nem amanhã.
A voz dele veio da varanda, rouca e carregada daquela autoridade que sempre me sufocava. O Coringa entrou no quarto, ainda com a roupa da noite anterior, os olhos escuros fixos em mim. Ele parecia exausto, mas a postura era de quem ainda tinha o mundo nas mãos.
— O médico passou aqui enquanto tu apagou — ele continuou, apontando para uma sacola de farmácia em cima da mesa de mogno. — Deixou os remédios e um atestado. Mandei o Foguinho entregar no teu restaurante. Tu vai ficar de molho até esse estrago sumir.
Eu não disse nada. O que eu poderia dizer? "Obrigada por me salvar da surra que você indiretamente causou com sua obsessão"? A ironia era amarga demais para ser engolida.
— Maya — ele se aproximou, parando a centímetros de mim, o cheiro de uísque e fumo vindo dele. — Tu tem que aprender a se defender, garota. Ou você reage, ou tu vai sempre se f***r na mão de gente encostada. O mundo não tem pena de quem se faz de vítima.
Olhei para ele, sentindo uma raiva surda crescer no meu peito. Defender-me? Eu passava a vida tentando sobreviver ao asfalto, à Odete e agora a ele. Mas guardei o veneno para mim. Apenas me ajeitei, peguei minhas coisas e saí daquela mansão. Eu precisava do meu canto, por mais miserável que fosse.
Chegar em casa foi como entrar em uma jaula onde os animais estavam à espreita. Assim que cruzei a porta, Odete começou a bater palmas, um som seco e sarcástico que fez meus ouvidos zunirem.
— Olha só! A rainha voltou do palácio! — Ela exclamou, caminhando ao meu redor como um urubu. — Eu tenho que admitir, Maya... eu subestimei a tua capacidade de p**a. Achei que tu era só uma sonsa, mas pelo visto tu é profissional. Tanto que senta pro chefe do morro e ele vem aqui bater na minha porta com fuzil pra te defender.
— Cala a boca, Odete — murmurei, tentando passar para a cozinha.
— "Cala a boca"? Olha como ela fala agora! — Paula, que estava lixando as unhas no sofá, soltou uma gargalhada venenosa. — Tá se achando porque o patrão marcou território? Acorda, esquisitinha. Vida de mulher de bandido não é fácil. Tu é só o brinquedo da vez.
— É — Paula continuou, me alfinetando com o olhar. — A patroa oficial é a Carolaine. Todo mundo sabe que ela não divide o que é dela. Quando ela souber que tu tá fazendo a linha "fiel" na mansão, tu tá ferrada. Ela vai te moer de um jeito que nem o Coringa vai conseguir juntar os pedaços.
Odete deu uma gargalhada alta, um som que parecia rasgar minha pele. Eu não disse nada. Não tinha forças. Entrei no quarto que agora, por ordem dele, era meu, e me joguei na cama. Eu estava exausta de ser o troféu de uma guerra que eu nunca quis lutar.
Uma semana se passou. O tempo é o único remédio que não custa dinheiro, mas cobra em paciência. Meu rosto estava mais desinchado; o roxo tinha se transformado em uma sombra amarelada que eu conseguia esconder com um pouco de maquiagem. A febre tinha ido embora, mas o vazio no meu peito só aumentava.
O Coringa cumpriu a promessa. Ele aparecia na casa em horários aleatórios, sentava-se à mesa e exigia que Odete o servisse como se fosse um rei. Ver a mulher que me humilhou a vida toda tremendo ao servir um café para ele era uma satisfação doentia, mas eu sabia que aquilo tinha um preço. Eu era a moeda de troca.
Era domingo. O sol batia forte na Rocinha e o som do pagode já começava a esquentar a praça. Mirele apareceu na minha porta, com aquele sorriso que sempre me dava um pouco de esperança.
— Vamos, Maya! Tu tá trancada nesse quarto há dias. Vamos no pagode, tomar uma cerveja, respirar. O rosto tá bom, ninguém vai notar nada.
Eu hesitei, mas a vontade de sair daquele ambiente tóxico foi maior. Vesti um vestido simples, mas que desenhava meu corpo — nada vulgar como o que a Odete me forçou a usar, mas algo que me fazia sentir mulher.
[…]
A praça estava lotada. O cheiro de churrasco, a batida do surdo, as pessoas dançando... por um momento, eu me senti parte de algo real. Mas a ilusão durou pouco. Meus olhos, quase por instinto, buscaram o camarote improvisado.
E lá estavam eles.
O Coringa estava sentado, com o braço por cima dos ombros da Carolaine. Ela brilhava sob o sol, cheia de ouro, rindo alto, bebendo champanhe como se o morro fosse o quintal da sua casa. Senti uma pontada de algo que eu me recusava a chamar de ciúme. Era humilhação. Eu era a mulher que ele escondia na madrugada, a que ele defendia por posse, mas ela era a que ele exibia.
Eu tentei desviar o olhar, mas era tarde demais. Carolaine me viu.
Vi o momento em que o sorriso dela morreu e se transformou em uma máscara de ódio. Ela disse algo no ouvido do Coringa, levantou-se e começou a descer as escadas do camarote, vindo na minha direção com o passo firme de quem estava pronta para um abate. A multidão abriu caminho.
— Olha só se não é a esquisitinha da sarda — Carolaine parou na minha frente, o perfume dela era caro e sufocante. Ela me olhou de cima a baixo com um nojo evidente. — Eu já sei que tu tá querendo brincar de casinha na mansão, garota. Tá achando que um rostinho novo e esse jeito de santa vai te segurar no topo?
— Eu não quero nada com você, Carolaine — falei, tentando manter a voz estável, embora minhas mãos estivessem geladas.
— Mas eu quero contigo! — Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância. — Tu tá querendo brincar de ser a "preferida", mas eu vou te mostrar a melhor brincadeira que existe. Tu não sabe onde tá se metendo. Bandido gosta de novidade, mas ele sempre volta pro porto seguro. E eu sou o porto seguro dele. Tu é só uma distração perigosa que eu vou fazer questão de eliminar.
Mirele deu um passo à frente, tentando me proteger, mas eu a segurei. Olhei para o camarote e vi o Coringa nos observando. Ele não se moveu. Ele apenas observava, com aquela expressão impenetrável, como se estivesse assistindo a uma briga de galos.
— Maya — Mirele sussurrou no meu ouvido, a voz firme. — Olha pra ela. Olha pro Coringa. Tu ouviu o que ele disse: tu tem que aprender a se defender. Se tu não bater de frente com a Carolaine agora, se tu não mostrar pra Odete e pra qualquer um que tu não é mais aquela menina que apanha e fica calada, eles vão te destruir. Reage, Maya!
Eu olhei para a Carolaine. Olhei para as unhas perfeitas dela, para a arrogância no seu olhar. E, pela primeira vez na vida, eu não senti medo. Senti um cansaço que se transformou em fúria. A Maya que limpava o chão da cozinha e dormia no colchão velho tinha morrido naquela surra.
— Você quer brincar, Carolaine? — Perguntei, minha voz saindo fria, num tom que eu nem reconheci. — Então para de latir e morde. Porque eu cansei de ser o saco de pancadas de vocês. Se você acha que eu sou uma ameaça, talvez seja porque você sabe que o que eu tenho, você nunca vai conseguir comprar com todo esse ouro.
O silêncio caiu sobre o círculo que se formou ao nosso redor. Carolaine ficou pálida de ódio, a mão dela subiu para me dar um tapa, mas dessa vez, eu não fechei os olhos. Eu segurei o pulso dela no ar com uma força que eu não sabia que tinha.
— Nunca mais encosta em mim — sentenciei.
Olhei para o camarote. O Coringa deu um gole lento no uísque, e juro que vi um brilho de aprovação naqueles olhos de predador. A guerra na Rocinha tinha mudado de patamar. Eu não era mais a presa. Eu estava começando a aprender a caçar.