Capítulo 11 – Coringa

1343 Words
Eu estava na varanda da mansão, o celular na mão direita e um copo de uísque na esquerda, mas o álcool não fazia nem cócegas. A cada minuto que passava sem a Maya atender aquela p***a daquele celular, meu sangue fervia um grau a mais. Eu mandava mensagem, eu ligava, e nada. O silêncio dela era um insulto. Eu já estava pronto para descer e quebrar aquele barraco inteiro no soco quando o Jacaré finalmente deu o sinal. — Patrão, tô com a mercadoria. Estamos subindo. — Traz logo essa garota antes que eu faça uma besteira, Jacaré! — Rosnei no rádio. Quando a porta da suíte abriu, eu estava preparado para dar o maior esporro da vida dela. Estava pronto para humilhá-la por ter me feito de o****o, por ter me ignorado depois da cena na praça. Mas as palavras morreram na minha garganta assim que a luz do lustre bateu nela. O Jacaré entrou carregando a Maya no colo, e o que eu vi me fez sentir um ódio que eu não sentia desde que tomei o morro na bala. O rosto dela, aquela pele de seda com as sardas que eu gostava de contar, estava deformado. Um olho inchado, roxo, a sobrancelha aberta com sangue seco, e os lábios partidos. Ela tremia, a pele pálida queimando numa febre que eu sentia de longe. — Mas que p***a é essa, Jacaré? — Minha voz saiu num sussurro letal. — O cenário é de guerra lá embaixo, chefe — Jacaré disse, colocando-a com cuidado na minha cama. — O celular que tu deu tava na mão da velha, da madrasta. Ela tava escondendo o radinho no avental. E o lugar onde a mina vive... p***a, patrão, é um barraco imundo, fedendo a mofo. Ela dorme no chão da cozinha, num colchão velho que nem cachorro de rua deita. Eu caminhei até a cama, sentindo o peso do meu fuzil no ombro parecer papel perto do peso que senti no peito. Maya tentou abrir o olho bom, me focando com dificuldade. — Maya... quem fez isso? — Perguntei, segurando a mão dela, que estava gelada apesar da febre. — Eu... eu caí, Coringa — ela sussurrou, a voz saindo num fio de agonia. — Escorreguei no banheiro... não foi nada. Eu soquei a cabeceira da cama com tanta força que o som pareceu um tiro. — Não mente pra mim! — Gritei. — Tu acha que eu sou moleque? Tu continua protegendo aquela filha da p**a que te trata feito bicho? Tu dorme no chão de uma cozinha fedorenta enquanto eu te dei dinheiro pra sair daquela p***a? Como é que tu permite essa merda, Maya? Tu prefere o chicote daquela velha do que a minha proteção? Ela fechou os olhos e começou a chorar, um choro silencioso que me rasgou por dentro. Ver a minha Pimentinha, a garota que tinha a marra de enfrentar o dono do morro, reduzida àquela fragilidade por causa de uma velha miserável, me transformou. O carnívoro não estava mais com fome; ele estava com sede de sangue. — Fica aí — ordenei, levantando-me. — Jacaré, chama o médico da nossa base. Quero ela medicada, limpa e com essa febre controlada. Se ela piorar, a culpa é tua. Eu vou resolver um assunto de gestão ali embaixo. Desci o morro no meu Jeep blindado, seguido por duas motos com soldados armados até os dentes. Eu não fui como o Coringa que vai para o baile; fui como o Coringa que vai para o tribunal. Parei na frente do barraco da Odete, e a vizinhança sumiu das janelas. O silêncio na rua era o prenúncio da tempestade. Chutei a porta da frente com tanta força que ela saiu da dobradiça. Odete estava na sala, tremendo como vara verde, com as duas filhas encostadas na parede, pálidas. — Cadê a coragem agora, velha? — Falei, entrando devagar, sentindo o cheiro de mofo e miséria que o Jacaré mencionou. Olhei para o chão da cozinha e vi o colchão imundo. A náusea e a fúria lutaram no meu estômago. — Então é aqui que a minha mina dorme? No chão, feito um resto? Odete tentou se recompor, a ganância sendo a única coisa maior que o medo dela. — Olha aqui, seu Coringa... a gente tem nossas regras. Eu criei aquela menina, tirei da lama, dei teto! Se o senhor quer a posse da Maya, se quer levar ela pra sua cama todo dia, então que pague por isso! Compre ela de vez, porque eu fiz tudo por ela e não vou sair no prejuízo! Eu parei por um segundo. Olhei para a cara de p*u daquela mulher e dei uma gargalhada. Uma gargalhada alta, seca, que gelou o sangue de quem ouviu. — Comprar? — Perguntei, tirando o meu revólver da cintura e encostando o cano gelado na testa dela. — Tu acha que o amor que eu tenho pela vida de vocês tem preço? Tu acha que eu sou o doutorzinho do asfalto que você queria extorqui? Eu engatilhei a arma. O som do "clic" fez a Odete urinar nas calças ali mesmo. — Escuta bem o que o dono do morro tá te falando, sua infeliz. Tu nunca mais, e eu digo NUNCA MAIS, vai encostar um dedo na Maya. Se eu vir um arranhão novo nela, um roxo, ou se ela me disser que tu levantou a voz, eu não vou te matar rápido. Eu vou te dar pras piranhas do canal pedaço por pedaço. Empurrei ela contra a parede, sentindo o nojo transbordar. — De hoje em diante, a hierarquia nessa casa mudou. A Maya não é empregada. Ela não limpa mais esse chão imundo e não cozinha pra vocês. Tu vai dar o teu quarto pra ela. O melhor quarto da casa agora é dela. Ela vai ter cama, vai ter conforto e vai ser tratada como a rainha desta p***a. — Mas e a gente? — Uma das filhas choramingou. — Vocês vão dormir no chão da cozinha se for preciso — respondi, voltando-me para a Odete. — Eu vou frequentar esta casa. Vou vir aqui ver a minha mina a hora que eu quiser. E é bom tu garantir que ela esteja bem alimentada, bem cuidada e feliz. Se eu chegar aqui e sentir cheiro de tristeza, eu queimo esse barraco com vocês dentro. Ela balançou a cabeça freneticamente, as lágrimas de terror escorrendo. — Sim, senhor... sim, patrão... tudo o que o senhor quiser. Saí dali sentindo o peso do meu poder, mas a fúria ainda não tinha passado. Voltei para a mansão em silêncio. Quando entrei no quarto, a Maya estava medicada, dormindo sob o efeito dos remédios. O médico já tinha feito os curativos. Sentei-me ao lado dela e fiquei observando seu rosto machucado. Porra, como é que uma garota tão pequena conseguia causar um estrago tão grande na minha cabeça? Eu queria que ela estivesse ali por vontade própria, mas agora eu sabia que, para protegê-la, eu tinha que ser o monstro que ela tanto temia. Eu tinha marcado o território. Agora, a Rocinha inteira sabia que o barraco da Odete era uma extensão da minha mansão, e que a Maya era intocável. Eu não era o homem que fazia o bem. Eu era o homem que impunha a sua vontade. E a minha vontade era que ela fosse minha, em segurança, mesmo que o preço fosse transformar a vida dela numa prisão de ouro. A noite estava acabando, mas a minha guerra particular estava apenas começando. Eu ia ensinar a Maya que no meu mundo, ser "esquisita" era o que a tornava única, e ser "minha" era o que a manteria viva. Fiquei ali, vigiando o sono dela, sentindo que, pela primeira vez na vida, eu não era apenas o dono do morro. Eu era o dono de um segredo que eu não podia contar pra ninguém: eu faria qualquer coisa pra ver aquela Pimentinha sorrir de novo, nem que tivesse que queimar o mundo inteiro pra isso.
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