Capítulo 10 – Maya

1480 Words
Eu caminhei de volta da boca sentindo que cada passo era um prego sendo martelado na minha alma. As palavras do Coringa — as ofensas, a ameaça de morte, o desprezo — flutuavam na minha mente como fumaça tóxica. Eu estava exausta de ser o saco de pancadas emocional de um homem que me desejava e me odiava com a mesma intensidade. Mas, conforme eu me aproximava do meu barraco, a exaustão dava lugar ao pavor. Eu sabia que o silêncio da praça, aquele vácuo que os soldados criaram ao me ignorar por medo do patrão, teria um preço caro quando eu cruzasse a porta de casa. Assim que pisei na cozinha, o clima gelou. Odete estava encostada na mesa, os braços cruzados, os olhos injetados. Letícia e Paula estavam logo atrás, como hienas esperando os restos. — E então? — Odete rosnou, a voz carregada de uma expectativa perversa. — Cadê o retorno? Cadê o dinheiro que os caras iam te dar por essa tua exibição? — Ninguém me deu nada, Odete — respondi, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Ninguém nem olhou para mim. Eu disse que era uma ideia r**m. Eu vou trabalhar dobrado no restaurante, eu juro. Vou dar um jeito de conseguir a grana do aluguel... — Trabalhar duro? — Ela deu um passo à frente, e o ódio no rosto dela era quase palpável. — Você é mole, Maya! É uma inútil! Eu te visto como uma mulher de verdade, te coloco na praça onde o movimento ferve, e você volta de mãos abanando? Os caras não olharam porque você não se esforçou! Você deve ter ficado com essa cara de santa ofendida, espantando o cliente! — Eu não sou prostituta, Odete! — Gritei, o resto de orgulho que me sobrava explodindo. O tapa que ela me deu foi tão forte que eu caí contra o fogão. Mas ela não parou por aí. — Hoje tem baile — ela disse, puxando-me pelo cabelo com uma força que parecia querer arrancar meu couro cabeludo. — E você vai. Vai com esse mesmo short, vai com essa mesma cara, e só volta quando tiver os bolsos cheios. Entendeu? — Eu não vou... eu não posso... o Coringa... — Tentei alertar, mas a menção ao nome dele pareceu o gatilho final para a loucura dela. — O Coringa o quê? Ele te humilhou na frente de todo mundo, garota! Ele não quer saber de você! O que se seguiu foi um borrão de dor. Odete avançou em cima de mim, e Letícia, movida por uma inveja que ela guardava há anos, juntou-se à mãe. Senti chutes nas costelas, puxões de cabelo e tapas que pareciam não ter fim. Eu tentei me encolher, proteger o rosto, mas eu era uma só contra duas. Senti o gosto metálico do sangue na boca e o calor de um corte se abrindo na minha sobrancelha. Quando elas finalmente pararam, eu era apenas um amontoado de carne e dor no chão frio da cozinha. — Arruma essa bagunça e se prepara — Odete cuspiu em cima de mim antes de sair para o quarto com a filha. — Se não estiver pronta pro baile, o resto vai ser pior. Eu não conseguia me mexer. Cada respiração era uma pontada aguda no meu peito. Arrastei-me como pude para o meu canto, para o meu colchão velho. O dia passou em ondas de agonia. A febre começou a subir, uma reação do meu corpo ao trauma e ao cansaço extremo. Eu tremia de frio sob o calor de quarenta graus do Rio de Janeiro. Eu não conseguia trabalhar. Não conseguia nem levantar para beber água. Minha visão estava turva, e as sardas que o Coringa tanto admirava agora estavam escondidas por hematomas roxos e inchados. Foi no meio desse delírio febril que o som aconteceu. Um toque polifônico, moderno, caro. O celular que o Coringa me deu começou a tocar dentro do buraco do colchão. Eu tentei ignorar, rezei para que parasse, mas o som era persistente. De repente, a mão de Odete mergulhou no vão do colchão. Ela tinha ouvido. Ela puxou o aparelho para fora, e os olhos dela se arregalaram ao ver o modelo de última geração. — Mas que p***a é essa? — Ela sussurrou, a ganância brilhando mais forte que a tela do celular. — Onde você conseguiu isso, Maya? Um celular desse custa o preço de um carro! Quem está te bancando? Quem é o o****o que está dando luxo para a servente? Eu tentei falar, mas minha garganta estava seca, bloqueada pelo medo. — Me dá... — sussurrei, estendendo a mão trêmula. — Te dar? — Ela riu, uma risada demoníaca. — Eu quero o dinheiro, Maya! Se você tem alguém te dando isso, você tem dinheiro escondido! Onde está? Onde você está guardando a grana desse homem? Ela começou a me sacudir, ignorando que eu estava ardendo em febre e sangrando. O celular parou de tocar, mas logo em seguida vibrou de novo. Odete olhou para a tela. Não havia nome, apenas o número que ela não reconhecia. Ela não atendeu, mas ficou observando o aparelho como se fosse um tesouro pirata. O silêncio na casa era tenso. Odete me vigiava como um urubu, esperando que eu confessasse onde estava a fortuna que ela imaginava que eu tinha. Eu estava semi-inconsciente, a febre fazendo as paredes girarem. Foi quando três batidas fortes ecoaram na porta da frente. Batidas que não pediam licença; elas exigiam entrada. Odete guardou o celular no bolso do avental e foi atender, achando que era algum vizinho reclamando do barulho. Mas, quando ela abriu a porta, o ar da sala pareceu sumir. O Jacaré estava parado ali. Ele era a personificação do perigo: fuzil atravessado no peito, cara de poucos amigos e aquele olhar de quem já viu o inferno e não se impressionou. Atrás dele, mais dois soldados armados garantiam o perímetro. — Onde ela está? — Jacaré perguntou, sem preâmbulos. A voz dele era um trovão seco. Odete, que até um segundo atrás era a rainha do barraco, murchou. Ela sabia quem ele era. Todos sabiam. — A... a Maya? Ela está... ela está lá dentro, moço. Ela não está bem, caiu no banheiro e... — Sai da frente — Jacaré ordenou, empurrando-a para o lado como se ela fosse um móvel velho. Ele entrou na cozinha e me viu. Eu estava jogada no colchão, com o rosto desfigurado, o sangue seco na sobrancelha e tremendo de febre. Vi o olhar do Jacaré mudar. Ele era um homem de gelo, mas até o gelo trinca diante da covardia. Ele se inclinou sobre mim, e por um segundo, vi algo que parecia compaixão, ou talvez apenas a consciência do que o patrão faria quando visse aquele cenário. — Maya? — Ele chamou. — O patrão tá chamando. Ele cansou de esperar tu atender o telefone. Eu tentei focar o olhar nele. — Eu não... eu não consigo andar, Jacaré... — Minha voz m*l saía. Odete, tentando salvar a própria pele, aproximou-se, trêmula. — Ela fez alguma coisa errada, senhor? Ela desobedeceu o chefe? Eu juro que eu tentei educar, mas essa menina é teimosa... se ela fez merda, a culpa não é minha! Jacaré se virou para ela com um olhar que fez a mulher recuar até bater na parede. — Cala a boca, velha. Tu não tem noção do tamanho do buraco que tu cavou pra ti mesma. Ele voltou-se para os soldados atrás dele. — Pega ela no colo. Com cuidado. Se ela sentir dor, eu mato vocês. Vamos levar ela direto pra mansão. O Coringa já perdeu a paciência, e quando ele vir o que fizeram com a "Pimentinha" dele... esse morro vai ficar pequeno pra quem encostou nela. Senti braços fortes me levantarem. A dor foi insuportável, mas o alívio de sair daquela casa era maior. Vi o rosto de Odete ficar pálido, a ficha caindo de que ela não estava lidando com um "doutorzinho do asfalto", mas com a propriedade pessoal do dono da Rocinha. Ela achava que eu ia me ferrar por ter feito "merda" com o chefe. Ela não entendia que, no mundo do Coringa, a única pessoa autorizada a me machucar era ele. Enquanto eu era carregada para fora, vi o Jacaré olhar para o bolso do avental da Odete, onde o brilho do celular de luxo aparecia. — Esse celular não é teu, velha — ele disse, com uma calma mortal. — Devolve agora. E reza. Reza muito. Porque o Coringa tá subindo a ladeira, e ele não vem pra conversar. Eu apaguei antes de chegarmos ao carro. A última coisa que senti foi o vento frio da noite no meu rosto e a certeza de que a guerra na Rocinha tinha acabado de se tornar pessoal.
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