Capítulo 9 – Coringa

1465 Words
O ar na boca de fumo estava pesado, carregado com o cheiro de suor, fumo e a tensão que eu emanava como se fosse um vírus. Eu estava sentado na minha cadeira, com o fuzil atravessado no colo, batendo o cano da arma ritmicamente na mesa de madeira. Cada batida era um segundo da minha paciência que se esgotava. O Jacaré tinha me mandado as fotos dela na praça, e cada imagem era um soco no meu estômago. Aquela roupa... aquele short que não escondia nada, aquele top apertado. Ela parecia uma das minhas marmitas, mas ela não era. Ela era a Maya. A minha Maya. E vê-la exposta daquele jeito para o morro inteiro, e pior, atraindo o olhar daquele lixo do Rodo, quase me fez perder a razão. Quando a porta do escritório se abriu e ela entrou, o silêncio foi absoluto. Os vapores que estavam ali fora sabiam que o clima era de execução. Ela estava trêmula, com um camisete largo por cima daquela roupa de p**a que ela usava antes. Mas eu ainda conseguia ver as pernas de fora, a maquiagem borrada. A fúria que eu senti no bar, na praça, agora se transformava em um veneno frio que eu precisava cuspir. — Entra e fecha a porta — rosnei, sem parar o movimento com o fuzil. Ela obedeceu. Ficou parada no meio da sala, com a cabeça baixa, parecendo um bicho acuado. Mas eu não ia ter pena. Não hoje. — Que p***a foi aquela na praça, Maya? — Comecei, minha voz saindo baixa e letal. — Tu virou p**a de vez? Tá achando que o fato de eu ter te levado pra minha mansão te dá o direito de desfilar como se fosse a dona do morro? Ou tu tá achando que eu fiquei mole? Que o Coringa agora é santo e vai deixar tu se oferecer pra qualquer mendigo de fuzil que passar? Ela não respondeu. Ficou lá, calada, o que só me irritava mais. Levantei da cadeira e caminhei até ela, parando tão perto que eu conseguia sentir o calor do corpo dela, aquele cheiro que ainda me desarmava, mesmo eu querendo matá-la. — Você tá achando mesmo que tem a p***a do poder sobre mim? Que pode me dar um gelo na cama e depois sair pra rua se vendendo pro primeiro que aparecer? Escuta bem o que eu vou te dizer, Pimentinha: é bom tu começar a se comportar, porque esse teu joguinho vai ter um preço do c*****o. Eu não sou homem de ser feito de o****o. — Eu não estou fazendo jogo nenhum — ela sussurrou, a voz quase sumindo. — Não? Então me explica aquela roupa. Me explica o que tu tava fazendo na praça com o chefe do Rodo te secando como se tu fosse o prato do dia. — Segurei o rosto dela com uma mão só, apertando as bochechas, forçando-a a me olhar. — Foi ideia tua essa p***a? Foi tu que decidiu se vestir como uma qualquer ou foi alguém que te mandou? Fala a verdade, Maya. Se alguém te forçou, eu resolvo agora. Vi o medo passar pelos olhos dela, um vislumbre da imagem da Odete, mas ela sustentou o olhar. Ela era teimosa, uma teimosia que eu odiava e amava na mesma medida. — Foi ideia minha — ela disse, a mentira saindo entre dentes. — Eu queria experimentar um novo estilo. Um estilo do morro. Queria ver como era ser olhada por aqui. Eu soltei o rosto dela com um empurrão. A raiva brilhou no meu peito. — Pois eu odiei. Ficou ridícula. Ficou parecendo uma dessas que eu descarto no final do baile. E quer saber? Foi muito bom tu não ter dito que queria o cara do Rodo. Se tu desse um sorriso pra ele, eu ia ter que matar ele e todo o bonde dele ali mesmo, no meio da praça. E a culpa ia ser tua. Caminhei de volta para a mesa, sentindo que se eu ficasse perto dela mais um segundo, eu ia acabar perdendo o controle e pegando ela ali mesmo, na frente de todo mundo, só pra reafirmar que o território era meu. — Vaza daqui — ordenei, apontando para a porta. — E anota o que eu tô te falando: se tu vestir novamente aquele tipo de roupa, se tu sair de casa parecendo que tá no catálogo de zona, eu meto uma bala na tua cabeça. Eu não aviso duas vezes. Some da minha frente! Ela saiu sem dizer uma palavra. Vi as costas dela sumindo pela porta e tive que me segurar para não ir atrás. Eu estava possuído por uma vontade de possuí-la e uma vontade de puni-la. Não deu cinco minutos e a porta se abriu de novo, mas dessa vez não foi com timidez. Carolaine entrou como um furacão, batendo a porta e parando no meio do escritório com as mãos na cintura. — O que está acontecendo com você, Coringa? — Ela gritou, a voz estridente me dando uma dor de cabeça instantânea. — Não fode, Carolaine. Sai daqui. Não tô com paciência pra teu show hoje. — Show? O morro inteiro tá falando! Você deu uma surra no Marcão por nada, quase causou uma guerra com o dono do Rodo por causa daquela... daquela esquisita! Eu perdi alguma coisa? Desde quando você se importa com quem os homens mexem na rua? Eu olhei para ela com um desprezo que eu nem tentava esconder mais. — Eu me importo com a ordem do meu morro. — Mentira! — Ela bateu na mesa. — Você nunca se importou comigo desse jeito! Quando eu comecei, você deixava os homens me tocarem, me olharem, nunca levantou um dedo pra me defender como se eu fosse sagrada. E agora você tá aí, agindo como se aquela garota fosse uma santa de altar. O que ela tem, Coringa? O que aquela sarnenta te deu que eu não dei? — Tu quer mesmo saber a diferença, Carolaine? — Me levantei, a sombra do meu corpo cobrindo ela. — A diferença é que ela vale mais do que tu e todas as tuas plásticas juntas. Tu é uma f**a. Ela é outra parada. — Ela é uma qualquer! — Carolaine gritou, as lágrimas de raiva borrando a maquiagem cara. — Você tá sendo feito de o****o por uma garota que nem sabe o que tá fazendo! — Vai se f***r, Carolaine! — Berrei, perdendo a linha de vez. — Sai da minha boca agora! Você tá me irritando, e tu sabe que eu não demoro a trocar de f**a oficial. Se tu abrir a boca pra falar da Maya de novo, tu vai descer a ladeira rolando. Vaza! Ela saiu batendo a porta, e eu fiquei ali, sozinho com o meu ódio. A casa estava insuportável. A mansão estava vazia. O morro estava barulhento demais. Eu peguei a garrafa de uísque e bebi direto no bico, sentindo o líquido queimar a garganta, mas não era o bastante. Eu sabia que a Maya tinha mentido. Sabia que aquele estilo "do morro" não combinava com ela. O Jacaré tinha me dito que a madrasta estava forçando a barra, mas eu precisava que a Maya confiasse em mim, que ela viesse me pedir socorro. Mas a Pimentinha era orgulhosa. Ela preferia ser humilhada pela Odete e por mim do que admitir que precisava do dono da Rocinha. E era isso que estava me matando. Eu tinha o controle de tudo — das drogas, das armas, das vidas das pessoas — mas eu não tinha o controle do que aquela garota pensava. Liguei o rádio. — Jacaré? — Na escuta, patrão. — Ela chegou em casa? — Chegou agora, chefe. Entrou calada. A madrasta tá lá gritando, parece que tá brava porque ela não trouxe dinheiro. Apertei o rádio com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. — Fica de olho. Se aquela mulher encostar um dedo nela de novo... tu me avisa. Eu vou mostrar praquela velha quem é que manda no destino da Maya. Desliguei e joguei o rádio na mesa. Eu era o carnívoro, e minha presa estava sendo machucada por outros. Isso eu não admitia. A Maya era minha para usar, minha para amar do meu jeito torto, minha para punir. De mais ninguém. A noite ia ser longa. E eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu ia acabar subindo aquela ladeira de novo, nem que fosse pra arrancar a Maya daquele buraco e trancá-la na minha mansão para sempre. Porque a verdade, aquela que eu não confessava nem pra mim mesmo, era que eu estava ficando completamente dependente daquela garota de olhos verdes. E no meu mundo, dependência é sentença de morte.
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