Capítulo 8 – Maya

1434 Words
Saí daquela mansão sentindo o corpo oco, como se minha alma tivesse sido arrancada e deixada para trás, jogada naquele tapete caro debaixo da cama do Coringa. O ar do final da tarde estava frio, mas a humilhação que queimava no meu peito era um incêndio que ninguém conseguiria apagar. As palavras dele ainda ecoavam, cortantes: p**a. Carne. Comprada. Eu não conseguia ir para casa. Não agora. Meus pés me levaram, quase por instinto, para a casa de Mirele. Eu precisava de um espelho humano que não me olhasse com desejo ou nojo, apenas com verdade. — Ele me destruiu, Mirele... — Comecei, assim que ela abriu a porta e me viu naquele estado, com o vestido amarrotado e os olhos secos de tanto ódio. Nos sentamos na cozinha pequena dela, e eu desabafei tudo. O peso daquelas últimas horas parecia uma tonelada. — Ele me humilhou no meio do pagode. Disse para todo mundo ouvir que eu era uma esquisita, uma nada. Mas depois, lá em cima... Mirele, ele teve uma crise de ciúmes doentia por causa de um soldado. Ele é confuso, ele é bruto, e tudo isso é tão humilhante. Ele acha que, porque depositou aquele dinheiro, eu perdi o direito de sentir. Mirele me ouvia em silêncio, apertando minha mão. — E o que você fez? — Ela perguntou baixinho. — Eu decidi que não seria mais o brinquedo dele. Não hoje. Ele me chamou de objeto, então eu agi como um. Fui fria. Não reagi ao toque dele, não gemi, não olhei nos olhos. Ele ficou louco de raiva e me mandou vazar. Mas agora... agora eu não sei o que vai acontecer. Se ele se sentiu desafiado, ele pode acabar comigo. Ficamos ali conversando por horas. Mirele tentava me consolar, mas no fundo, ambas sabíamos que o Coringa não era homem de aceitar rejeição. O problema era que o perigo não morava apenas no topo do morro. Quando cheguei em casa, o sol já estava alto e o clima estava pesado. Assim que entrei, percebi que o veneno já tinha corrido pelas vielas. Odete estava na sala, os olhos brilhando com uma ganância que me deu calafrios. Ela já sabia da confusão com o Marcão e do "papo reto" do chefe. — Então a santinha está sendo disputada? — Odete disse, levantando-se do sofá com um sorriso de escárnio. — O morro inteiro só fala do Marcão apanhando e do Coringa marcando território em cima de você. — Não é o que você está pensando, Odete — tentei passar direto, mas ela me segurou pelo braço. — É exatamente o que eu estou pensando! Se os traficantes estão querendo essa tua carinha de sarda, isso é uma chance de ter dinheiro, Maya. Muito dinheiro! Se eles estão começando a se interessar por essa esquisitice que você chama de beleza... que nojo, mas eu não ligo. Eu quero o lucro. — Eu não sou mercadoria! — Gritei, mas foi em vão. Odete parecia possuída pela ideia de lucrar em cima do meu desespero. — A partir de hoje, esse vai ser o seu segundo trabalho. Já que a garçonete não rende o suficiente, vamos ver quanto vale a "p*****a" do morro. Num movimento bruto, ela me empurrou para dentro do quarto e começou a arrancar meu vestido. Eu lutei, gritei, mas as filhas dela apareceram para ajudar, segurando meus braços. Elas se divertiam com a minha humilhação. Odete revirou uma gaveta de roupas velhas da Letícia e me forçou a vestir um shortinho jeans curtíssimo, que m*l cobria nada, e um top que deixava meu ventre e parte dos meus s***s à mostra. Soltaram meu cabelo à força e passaram uma maquiagem pesada no meu rosto, escondendo as sardas que o Coringa tanto dizia gostar. — Agora você vai lá pra praça. Vai ficar lá, bem bonita, pra todo mundo ver o que a gente tem pra oferecer — Odete ordenou, empurrando-me para fora de casa sob as risadas das irmãs. Eu me sentia nua. Caminhar pela Rocinha daquele jeito, com metade do corpo exposto, era a pior tortura que eu já tinha passado. Cheguei à praça principal, onde o movimento era intenso, mas algo estranho aconteceu. Eu esperava assobios, olhares lascivos, comentários baixos. Mas o que recebi foi o silêncio. As pessoas passavam por mim e desviavam o olhar rapidamente, como se eu estivesse carregando uma doença contagiosa. Os vapores que antes me secavam agora olhavam para o chão ou para os lados. Eu estava confusa. Por que ninguém olhava? Foi quando vi, pelo canto do olho, o Jacaré. Ele estava postado perto de um poste, com o celular na mão, tirando fotos minhas abertamente. Ele não se escondia. Ele registrava cada segundo daquela exposição forçada. Senti meu sangue gelar. Ele estava mandando aquilo para ele. O medo de ser ignorada deu lugar ao medo de ser observada pelo dono do morro através de uma lente. Eu estava ali, sendo exibida pela madrasta, e sendo vigiada pelo meu proprietário. Após alguns minutos de agonia, o silêncio da praça foi quebrado por um grupo que não parecia dali. No centro deles, um homem com o corpo coberto de correntes de ouro e um ar de arrogância que gritava perigo. Pelos sussurros que começaram a circular, era o chefe do Morro do Rodo, que estava ali para algum tipo de acordo. Ele parou na minha frente, ignorando o clima tenso do lugar. Me olhou de cima a baixo com um sorriso sujo. — Mas que coisinha linda perdida aqui na praça — ele disse, estendendo a mão para tocar meu cabelo. — O Coringa tá escondendo as joias da coroa ou você tá dando bobeira mesmo? Eu tremia tanto que minhas pernas pareciam de gelatina. — Por favor... me deixa em paz — sussurrei. — Calma, boneca. No Rodo a gente sabe tratar bem uma pele branquinha assim. Quer vir comigo? Antes que ele pudesse terminar a frase, o barulho de uma moto potente rasgou a praça. O Coringa desceu da garupa antes mesmo da moto parar totalmente. Ele estava vermelho de raiva, a expressão tão fechada que parecia que o céu ia desabar. Ele caminhou em nossa direção como um trator, a mão já no cabo da pistola na cintura. — Tá perdendo o rumo, parceiro? — Coringa rosnou, parando entre mim e o homem do Rodo. — Esqueceu que tá em solo alheio? — Qual foi, Coringa? A mina tá aqui na praça, toda produzida, pedindo atenção. Só tava sendo educado — o outro respondeu, mas deu um passo atrás ao ver o brilho assassino nos olhos do meu carrasco. — Eu tô protegendo a moradora do meu morro. Ela é daqui, e aqui ninguém encosta sem a minha ordem — Coringa disse, a voz saindo como um trovão baixo. Ele se voltou para mim, e o olhar que ele me deu me fez querer desaparecer. Ele analisou cada centímetro da pele que o short e o top deixavam de fora. — Tu quer ir com ele, Maya? Tá querendo mudar de ares? — Não... — respondi, com a voz embargada. — Eu não quero nada disso. Coringa voltou-se para o homem do Rodo com um sorriso gelado. — Tu ouviu a moça. Agora vaza da minha praça antes que a nossa parceria termine em funeral. O homem e seus soldados se retiraram, mas a tensão não diminuiu. O Coringa se virou para mim, a fúria pulsando nele. Ele sabia que aquela roupa não era minha, ele sabia que tinha algo errado, mas o ciúme o cegava. — Já deu o teu show, Maya? Já mostrou pra todo mundo o que eu já conheço de cor? — Ele se aproximou, sussurrando no meu ouvido para que só eu ouvisse. — Vaza daqui. Agora. Vai na boca. Quero bater um papo reto contigo, e tu sabe que eu não gosto de esperar. Se tu demorar um minuto que seja, eu vou buscar a tua madrasta e resolvo isso do meu jeito. Ele deu as costas e subiu na moto. Eu fiquei ali, no meio da praça, com as pernas trêmulas e o coração em frangalhos. Eu sabia que a "conversa" na boca seria o meu acerto de contas. Corri para casa apenas para pegar o camisete largo e cobrir aquela vergonha, ignorando os gritos de Odete perguntando pelo dinheiro, e segui para o lugar onde o meu destino seria selado. Eu estava indo para a boca do lobo, e dessa vez, não havia dinheiro no mundo que pudesse me salvar da tempestade que era o Coringa em fúria.
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