Voltei para o camarote sentindo o sangue pulsar nas minhas têmporas. A imagem daquele Marcão, um soldado de merda, com a mão no braço da Maya, estava queimando na minha retina como ácido. Eu queria ter estourado os miolos dele ali mesmo, no meio do pagode, mas eu tinha uma imagem a manter. Um dono de morro não perde a linha por causa de uma "esquisita"... ou era isso que eu tentava dizer a mim mesmo.
Sentei na poltrona de couro e peguei a garrafa de uísque, virando a dose pura. Meu celular não saía da minha mão; eu estava castigando a Maya por mensagem, humilhando a única coisa que estava me fazendo perder o sono.
— O que você tanto conversa nesse celular, preto? — A voz da Carolaine veio carregada de veneno. Ela parou na minha frente, bloqueando a minha visão do morro.
— Tá rindo pra tela? Tá falando com quem?
— Não é da tua conta, Carolaine. Me erra, p***a! — Rosnei, sem tirar os olhos do visor. — Vai se f***r pra lá e me deixa em paz. O primeiro filho da p**a que aparecer na minha frente hoje pedindo graça, eu mato. Você quer ser a primeira?
Ela não recuou. Carolaine tinha essa mania de achar que a beleza dela era um escudo contra a minha fúria.
— É por causa daquela garota, não é? Daquela esquisita da ladeira. Por que você fica sempre olhando pra onde ela passa? O que ela tem, Coringa? Aquilo ali não é mulher pra você, não aguenta o teu rojão, não aguenta a vida que a gente leva. Tu tá ficando maluco por causa de uma servente de bosta?
Eu me levantei num salto. A cadeira caiu para trás com o impacto. Encarei a Carolaine tão de perto que ela pôde ver o reflexo do próprio medo nas minhas pupilas.
— Tu não abre essa boca de lixo pra falar dela de novo. Você é uma f**a, Carolaine. Escuta bem: tu é só uma f**a pra aliviar meu estresse. Se eu quiser a "esquisita", eu pego. Se eu quiser tu fora do meu morro agora, tu vaza. Não se mete na minha gestão e nem nas minhas vontades. Agora some da minha frente!
Ela saiu bufando, mas eu já não estava nem aí. A briga só serviu pra me deixar com mais ódio. Peguei o radinho e chamei o Foguinho, que estava na contenção logo abaixo.
— Foguinho, escuta bem — falei, a voz fria como o aço. — Pega o Marcão. Aquele verme que tava de gracinha no meio do pagode. Leva ele pra contenção. Quero que tu dê doze bolos em cada mão dele. Doze bem dados. Pra ele nunca mais se atrever a levantar a mão ou olhar pra quem não deve. Se ele perguntar o porquê, diz que é pra ele aprender a respeitar a hierarquia do morro.
Desliguei sem esperar o "entendido". Eu precisava de sangue, mas precisava de algo mais. Precisava da Maya.
Subi para a mansão voando. O Jacaré já tinha deixado ela lá. Entrei no quarto e ela estava em pé, perto da janela, usando aquele vestido simples que agora parecia uma afronta.
— Tu colocou esse vestido pra se mostrar no morro, foi? — Comecei, fechando a porta com força. — Pra atrair a atenção de soldado de baixo nível?
Ela se virou devagar. Os olhos verdes, que antes brilhavam de medo ou prazer, agora estavam opacos. Mortos.
— Você disse lá embaixo, na frente de todo mundo, que eu era um nada — ela disse, a voz num fio.
— E tu é o quê, Maya? — Caminhei até ela, cercando-a contra a parede. — Tu é uma p**a como todas as outras que dão a b****a pra mim. A diferença é que você custou mais caro. Você se vendeu, lembra? Tu colocou o preço e eu paguei. você é carne, Maya. E eu sou o comprador.
Vi uma lágrima solitária escorrer pelo rosto dela, mas ela não soluçou. Ela apenas me encarou com uma frieza que me deu calafrios.
— Então se é isso que eu sou... se eu sou só a carne que você comprou... saiba que nesta noite, eu não te daria nada se tivesse escolha.
Eu ri, um som c***l.
— Mas tu não tem escolha, Pimentinha. Eu tô pagando por essa p***a. E eu quero agora.
— Tudo bem — ela respondeu, com uma calma assustadora. — Se você me chamou para isso, então que assim seja.
Ela começou a tirar o vestido. Sem pressa, sem sensualidade, sem vergonha. Ela se despiu como se estivesse tirando um uniforme de trabalho sujo. Ficou nua na minha frente, mas não era a Pimentinha vibrante da noite passada. Era uma estátua de gelo.
Eu avancei. Joguei ela na cama e comecei a tocar o corpo dela, buscando aquela reação, aquele calor, os gemidos que me faziam sentir o dono do mundo. Mas ela não reagiu. Maya ficou estática, olhando para o teto, com o corpo mole e frio sob as minhas mãos. Eu a beijei no pescoço, eu a apertei, eu tentei de tudo para despertar a chama que eu sabia que existia ali dentro, mas ela era um cadáver.
Eu me afastei, o ódio lutando com a frustração.
— Que p***a é essa, Maya? Vai ficar aí feito um bicho morto? Reage, p***a!
— Eu não quero — ela disse, sem desviar o olhar do teto. — Se é por obrigação, se você é o dono e eu sou o objeto, então faça o que quiser. O objeto não tem que querer nada. Só tem que estar lá.
Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. O t***o sumiu, substituído por uma fúria impotente. Eu não queria um pedaço de carne inerte; eu queria a Maya que me desafiava, a que tremia sob o meu toque. Ter o corpo dela ali e não ter a alma era a maior derrota que eu já tinha sofrido.
— Vaza! — Gritei, levantando-me da cama e apontando para a porta. — Vaza da minha frente antes que eu faça uma loucura! Some daqui, Maya!
Ela se vestiu em silêncio e saiu sem olhar para trás.
Eu não conseguia ficar naquela casa. O cheiro dela estava ali, o vazio que ela deixou era insuportável. Peguei a chave da moto e desci o morro feito um louco. Fui direto para as "ideias", onde o Foguinho tinha levado o Marcão.
Cheguei lá e o cara estava com as mãos inchadas, sangrando pelos bolos que tinha levado. Quando ele me viu, ele se arrastou pelo chão, chorando.
— Perdão, patrão! Eu não sabia... eu juro que não sabia!
— Tu não sabia o quê, Marcão? — Peguei um pedaço de p*u que estava no canto e comecei a bater nele com toda a força que eu tinha guardada. Cada golpe era pra descontar o gelo que a Maya me deu.
— A Maya é MINHA! Entendeu? Ela tem dono! Se tu olhar pra ela de novo, se tu respirar o mesmo ar que ela, eu te mato e jogo os pedaços pros porcos!
Bati nele até ele perder os sentidos, até o meu braço cansar. Quando terminei, joguei o p*u no chão e limpei o suor da testa.
— Joga esse lixo em qualquer canto — ordenei ao Foguinho.
Fui para a boca. Sentei na minha mesa, rodeado pelos soldados, com o fuzil no colo e a música alta estourando os ouvidos. Mas nada funcionava. O morro estava em festa, mas pra mim, o mundo estava em silêncio. A minha mansão, que antes era o meu refúgio, agora era insuportável porque ela não estava lá. E o pior de tudo era saber que, mesmo quando eu a trazia pra perto, ela estava ficando cada vez mais longe de mim.
Eu tinha o dinheiro, tinha o poder, tinha as armas. Mas eu não tinha a Pimentinha. E isso estava me matando por dentro.