Capítulo 6 – Maya

1536 Words
Meus pés arrastavam pelo asfalto irregular das ruelas enquanto eu subia de volta para o meu inferno pessoal. O sol ainda era um rastro tímido no céu, mas o calor já começava a subir do chão, misturando-se ao suor frio que escorria pelas minhas costas. Eu não tinha dormido. Meu corpo estava em frangalhos, uma mistura de exaustão e aquela queimação persistente entre as coxas, um lembrete constante de que, poucas horas antes, eu estava amarrada à mesa do homem mais perigoso do Rio de Janeiro. Cheguei em casa com o tempo contado. Entrei pela janela dos fundos como uma ladra, o coração martelando contra as costelas. Não havia tempo para o luxo de um descanso. Tirei a roupa que cheirava a ele — aquele perfume de poder e perigo — e a escondi no fundo do balde de roupa suja. Vesti meu uniforme de garçonete, prendi o cabelo num coque tão apertado que meus olhos repuxaram, e fui para a cozinha. O cheiro do café passando foi o que me manteve em pé. Eu era uma máquina. Coloquei o pão na mesa, fritei os ovos, limpei as migalhas que Paula tinha deixado na noite anterior. Meus movimentos eram automáticos, mas minha mente estava longe, revivendo a forma como o Coringa me olhou naquelas luzes frias da mansão. — Já de pé, "Cinderela"? — A voz de Odete surgiu como um trovão, estragando o pouco de silêncio que eu tinha. Ela entrou na cozinha de roupão, com os olhos inchados de sono. — Pensei que depois do susto de ontem você ia ficar na cama choramingando. Pelo visto, o tapa te deu disposição. Eu não respondi. Continuei coando o café, focada apenas no vapor que subia. — Tá muda agora? — Odete continuou, sentando-se com um suspiro pesado. — Cuidado, Maya. Essa tua carinha de santa não me engana. Tu tá aprontando alguma coisa. Mas ó, hoje é domingo, dia de descanso pra gente, mas pra você é dia de dobrar no restaurante. Vê se volta com a gorjeta cheia, porque a conta de luz chegou e eu não vou pagar com vento. Engoli o nó na garganta. Era domingo de manhã. O asfalto me esperava. […] O turno no restaurante foi um borrão. Eu servia mesas, sorria mecanicamente para os clientes ricos do Leblon e sentia o celular pesado no meu cós, como uma pedra de gelo. Eu estava exausta, mas a adrenalina de saber que eu era "propriedade" do Coringa me mantinha em um estado de alerta paranoico. Quando terminei o expediente e comecei a subir o morro de volta, o som do pagode já ecoava pelas vielas. Era um domingo típico na Rocinha: churrasco, cerveja gelada e música alta. Mas, conforme eu me aproximava do largo principal, meu coração parou. Lá estava ele. O Coringa estava sentado no centro do camarote improvisado, rodeado por fuzis e garrafas de uísque caro. E ao lado dele, como se fosse um acessório indispensável, estava a Carolaine. Ela ria, jogava o cabelo por cima do ombro e encostava no peito dele com uma i********e que me fez sentir um soco no estômago. Naquele momento, a ficha caiu com uma força devastadora. Eu não era nada. Eu era a f**a da madrugada. A "Pimentinha" que ele escondia na mansão para saciar desejos obscuros enquanto a "fiel" ficava ao lado dele sob a luz do sol. Eu era o segredo sujo; ela era a vitrine. Senti uma náusea súbita. O dinheiro na minha conta e o celular no meu bolso pareciam agora o preço da minha dignidade estraçalhada. Tentei apertar o passo, baixando a cabeça para passar despercebida pela multidão. Eu só queria chegar em casa, trancar a porta e desaparecer. Mas o destino, ou o azar, tinha outros planos. — Epa! Onde é que a bonequinha vai com tanta pressa? — Uma mão bruta fechou no meu braço, me parando no meio do caminho. Olhei para cima, assustada. Era um cara que eu já tinha visto nas bocas, um dos soldados de baixo escalão, cheirando a cerveja e suor. — Me solta — falei, tentando puxar meu braço. — Eu estou indo pra casa. — Calma, gatinha. Pra que essa marra? Tu é bonita demais pra passar assim, batido. Esses teus olhos verdes... p***a, dão até vontade de casar. — Eu disse para me soltar! — Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, chamando a atenção de quem estava em volta. Foi então que o silêncio se espalhou como uma mancha de óleo. O som do pagode não parou, mas a energia mudou. Olhei para o lado e vi o Coringa descendo os degraus do camarote com uma calma que me aterrorizou. Carolaine vinha logo atrás, com um sorriso debochado nos lábios. Coringa parou a dois metros de nós. Ele não olhou para mim com o desejo da noite anterior; ele olhou com um desprezo que me fez querer sumir. — Qual é, Marcão? Tá fazendo caridade agora? — Coringa soltou uma risada seca, fria. — Perdendo teu tempo com essa esquisita aí? O cara, Marcão, soltou meu braço na hora, mas tentou manter a pose na frente do patrão. — Qual foi, Coringa... a mina é esquisita não. Tu já viu esses olhos? Essas sardinhas? Ela só tenta esconder a beleza, mas na mão do homem certo, essa daí fica uma delícia. Deve ser um t***o tirar essa pose de santinha dela. Vi a veia no pescoço do Coringa saltar. A mandíbula dele travou de um jeito que eu sabia que alguém ia se dar m*l. Carolaine, percebendo a tensão, cruzou os braços e deu um passo à frente. — Desde quando você se importa com quem esse povo mexe, preto? — Ela perguntou, olhando para o Coringa com desconfiança. — Ou agora você deu pra defender a servente da ladeira? Coringa não respondeu a ela. Ele fixou os olhos nos meus, e o ódio que vi ali me fez estremecer. — Se envolve com isso não, Carolaine. Vai lá para o camarote e não me fode a paciência — ele rosnou para ela, antes de se voltar para mim. — E tu, Maya? Tá achando que o morro é passarela? Vaza pra casa agora. Some da minha frente antes que eu resolva te dar um motivo real pra chorar. Saí dali quase correndo, sentindo os olhos de todo o pagode nas minhas costas. Eu ouvi a risada da Carolaine ecoando atrás de mim, uma risada que dizia que ela tinha vencido. Cheguei em casa tropeçando nos meus próprios pés. Entrei no quarto — que na verdade era apenas o canto da cozinha — e me atirei no colchão, enterrando o rosto no travesseiro para abafar o grito de ódio que queria sair. Eu era uma i****a. Uma i****a completa por ter achado que o Coringa sentia algo além de curiosidade por um brinquedo novo. O celular no meu cós vibrou. O som era agressivo. Peguei o aparelho com as mãos trêmulas e vi a mensagem na tela. Coringa: “Que p***a foi aquela no meio da rua, Maya? Virou p**a de vez? Resolveu que se vender pra um não é o bastante e agora quer se oferecer pro morro inteiro?” As lágrimas queimaram meus olhos. Como ele podia ser tão c***l? Digitei com os dedos trêmulos: “Eu não me ofereci pra ninguém. Ele me segurou.” A resposta veio em segundos. Coringa: “Cala a boca. Tu é uma p**a. Se vendeu pra mim por dinheiro, agora tá sentindo o gosto e querendo mais, é? Vai ver que agora quer se vender pra outro pra ver se o cachê aumenta.” A humilhação era tanta que eu sentia vontade de vomitar. Antes que eu pudesse responder, veio a ordem final. Coringa: “Você tem 10 minutos. O Jacaré vai passar aí na tua rua e vai te levar pra mansão. Tu vai vir agora e vai me mostrar que, se você é p**a, tu é a MINHA p**a. Não me faz descer aí pra te buscar pelos cabelos.” Eu olhei para o teto rachado da cozinha. Eu estava no fundo do poço. A Odete estava no quarto ao lado, as irmãs estavam rindo de alguma coisa na sala, e eu... eu estava prestes a sair de novo para ser usada pelo homem que acabou de me ofender na frente de todo mundo. Enxuguei o rosto com a manga do uniforme. Eu não tinha escolha. Se eu não fosse, o Jacaré invadiria a casa. Se eu não fosse, o Coringa destruiria o pouco que me restava. Levantei-me, troquei o uniforme por um vestido simples e saí pela mesma janela. O Jacaré já estava lá, encostado na parede com um cigarro na boca e os olhos frios. Ele não disse uma palavra, apenas apontou para a moto. Subi na garupa, sentindo o vento bater no meu rosto, mas não era liberdade. Era o vento de uma tempestade que estava apenas começando. Eu estava indo para a mansão, indo para o dono da Rocinha, ciente de que, naquela noite, o "carinho" que ele prometeu ontem tinha morrido. Eu ia encontrar o monstro, e dessa vez, eu não tinha mais nenhuma ilusão para me proteger.
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