05 - Aurora

1070 Words
Aurora Narrando Eu tinha acabado de sair do banho, ainda sentindo a pele quente da água morna escorrendo por mim. Me enrolei na toalha e caminhei pelo quarto, onde eu estava hospedada. O ar da noite que entrava pela janela aberta trazia um cheiro gostoso de maresia misturado com o perfume de flores. Eu estava distraída, penteando os cabelos com os dedos, quando escutei as batidas na porta. Três toques firmes, que me fizeram prender a respiração por um segundo. Caminhei até a porta e, quando abri, dei de cara com o Peter. Ele estava com aquele sorriso leve no rosto, o olhar brilhando e vestia uma camisa social clara com os dois primeiros botões abertos, deixando parte do peito à mostra. — Estava pensando em te convidar pra jantar comigo. O que você acha? — ele disse, com aquele sotaque que eu acho tão charmoso. — Jantar? — sorri, tentando parecer natural, mas por dentro meu coração já batia mais rápido. — Claro! Só me dá um minuto pra me arrumar. Ele assentiu, os olhos passeando discretamente por mim, e eu fechei a porta devagar, me encostando nela por um instante pra respirar fundo. Eu não sabia se a gente ia sair ou se o jantar ia ser ali mesmo, mas uma coisa eu sabia: eu queria impressionar. Fui até a mala e comecei a escolher com cuidado. Por fim, decidi por um vestido vermelho de seda que abraçava meu corpo como uma segunda pele. Ele tinha um decote profundo na frente, mas elegante, e um recorte na cintura que deixava só um pedacinho da pele à mostra. As alças finas deixavam meus ombros nus, e o tecido descia até o meio das coxas, com uma f***a lateral que revelava minha perna toda vez que eu me mexia. No pé, calcei uma sandália preta de salto fino, com tiras que se enrolavam no tornozelo como se fossem feitas sob medida pra mim. Me senti poderosa quando terminei de me olhar no espelho. O cabelo, ainda úmido, deixei solto, caindo em ondas naturais sobre os ombros. Finalizei com um perfume marcante, doce e ao mesmo tempo misterioso, que é a minha assinatura. Abri a porta e sai do quarto, logo vi a escada, desci. Quando cheguei na sala o Peter estava lá. O jeito que ele me olhou naquela hora, eu quase senti o chão sumir sob meus pés. — Uau — ele disse, sem disfarçar. — Acho que agora vou ter que te levar pro melhor restaurante de Lisboa. Eu sorri, divertida com a reação dele. — Então quer dizer que a gente vai sair? — arqueei uma sobrancelha, provocante. — Com você vestida assim? Seria um crime não sair. Dei uma risada leve, e ele me ofereceu o braço. Eu aceitei, sentindo a eletricidade entre nós aumentar. Assim que saímos, o ar fresco da noite lisboeta me envolveu e me fez arrepiar, mas eu não sabia dizer se era por causa do clima ou da forma como o Peter me olhava enquanto caminhávamos juntos até o carro dele. O caminho até o restaurante foi tranquilo, cheio de trocas de olhares discretas e sorrisos leves que deixavam o clima entre nós ainda mais gostoso. Ele me levou a um restaurante charmoso, de fachada antiga, com luzes amarelas suaves que davam um ar acolhedor ao lugar. Assim que entramos, o aroma dos temperos invadiu meus sentidos e eu soube que a escolha dele tinha sido perfeita. O garçom nos levou até uma mesa no canto, perto de uma janela que tinha vista para o rio Tejo. A luz das velas deixava o ambiente ainda mais intimista, e por um instante eu me perdi naquela cena, como se estivesse dentro de um filme. Sentamos frente a frente, e logo começamos a conversar como se nos conhecêssemos há anos. Peter era leve, divertido, e tinha um jeito tão natural de puxar assunto que o tempo parecia correr sem que a gente percebesse. Entre um gole de vinho e outro, ele se inclinou levemente sobre a mesa, com aquele sorriso quase tímido no rosto. — Quer saber de uma coisa? — ele começou, brincando com o anel no dedo. — Eu nunca fiz as contas de quantos anos você tinha. Nem parei pra imaginar como você poderia ser. Seu pai só me falou que era uma menina. Eu não consegui segurar o riso, balancei a cabeça e encarei os olhos dele que brilhavam no reflexo das velas. — Como assim, Peter? Você nunca viu uma foto minha? Ele deu de ombros, meio sem graça. — Vi, uma vez. Você era criança, seu pai mandou a foto no seu aniversário, acho que tinha uns cinco ou seis anos. Desde então, nada mais. Eu me inclinei um pouco, apoiando o queixo na mão. — E mesmo assim você topou me aceitar na sua casa? — falei em tom leve, provocando um pouquinho. Ele riu, e o som da risada dele era tão gostoso que me fez sorrir junto. — Confesso que quando te vi na porta de casa, fiquei surpreso. Mas foi uma surpresa muito boa. Eu ri outra vez e decidi ser sincera também. — Engraçado, eu também nunca tive esse interesse em ver foto sua. Sei lá, nunca me passou pela cabeça. Ele ergueu a taça e brindou comigo, os olhos presos nos meus de um jeito sutil, mas cheio de intenção. — Então estamos quites. — disse ele, e brindamos com um leve tilintar de vidro. A conversa seguiu solta, leve, a gente falando de tudo um pouco: viagens, lugares preferidos, músicas, até de comida. Ele me contou de uma viagem que fez pela costa da Itália e eu compartilhei minhas histórias das praias do Brasil. E, entre uma história e outra, os olhares que trocávamos pareciam dizer tudo o que a gente não tinha coragem de falar. Era aquele tipo de olhar que durava um segundo a mais do que o normal, que fazia o ar ao redor ficar mais denso, mais carregado de expectativa. O jantar seguiu assim: pratos deliciosos, risadas, confidências e aquele jogo silencioso de olhares que tornava tudo ainda mais intenso. A cada vez que nossos olhos se encontravam, era como se o mundo lá fora desaparecesse por um instante, e só existisse ali, naquela mesa iluminada por velas, eu e ele. Tive que controlar e dizer pra mim mesma. Se comporta Aurora ele é seu padrinho.
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