03 - Peter

1083 Words
Peter Narrando Meu nome é Peter. Tenho 46 anos, 1,80 de altura, cabelos loiros e olhos claros. Sou CEO de uma empresa de tecnologia em Lisboa, Portugal. Nasci no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, mas nunca fui uma pessoa ligada às minhas raízes ou à minha nacionalidade. Para ser bem direto, nunca me vi como um típico brasileiro, nem me orgulho nem sinto falta de nada relacionado a isso. Cresci lá, é verdade, mas sempre soube que meu lugar seria em outro canto do mundo. Desde muito jovem, eu sentia que precisava conquistar mais, que minha vida não poderia se limitar àquela rotina, àquele cenário que tantos chamavam de lar e que, para mim, nunca passou de um ponto de partida. Me dediquei aos estudos como se a minha vida dependesse disso e, de certa forma, dependia. Nunca contei com apoio de ninguém. Minha família sempre foi algo distante para mim, mais uma obrigação social do que um vínculo emocional. Tenho pais vivos, irmãos com quem troco mensagens em datas importantes, e só. Nunca houve uma ligação verdadeira. O laço mais próximo que mantive no Brasil foi com um casal de amigos: Augusto e Marília. Eles, sim, sempre foram pessoas de confiança, mas até com eles a distância foi maior do que qualquer aproximação. Sou padrinho da filha deles, a Aurora. Nunca a batizei. Para falar a verdade, nem a conheço pessoalmente. Ela nasceu justamente no período em que minha vida mudou completamente. Eu estava de malas prontas para Lisboa, após receber a proposta que mudou meu destino. E desde então nunca mais voltei. Minha história em Lisboa começou por causa de um intercâmbio. Eu já buscava um jeito de sair do Brasil, e aquela oportunidade surgiu como um presente. Vim, estudei, me formei, consegui meu primeiro emprego na área de tecnologia, e desde então construí minha vida aqui. Portugal virou meu lar, sem sombra de dúvidas. Já visitei diversos países, realizei sonhos que muitos considerariam impossíveis. Andei pelas ruas de Paris, contemplei o pôr do sol em Santorini, estive em Nova York, em Dubai, em tantos outros lugares. Mas nenhum desses lugares me despertou o desejo de voltar ao Brasil. O Rio de Janeiro, para mim, é apenas uma lembrança vaga de um capítulo encerrado. Minha trajetória profissional foi resultado de esforço, dedicação e, claro, talento. Comecei pequeno, como qualquer outro jovem recém-formado. Fui crescendo na área, investindo no que acreditava, até abrir minha própria empresa de tecnologia. Hoje lidero um time de profissionais que confio e respeito. A empresa prospera, temos contratos sólidos, e nossos projetos estão entre os mais respeitados do setor. Mas, apesar das responsabilidades, sempre busquei manter minha liberdade pessoal acima de tudo. Em termos de vida pessoal, já tive muitos relacionamentos ao longo desses anos em Lisboa. Nenhum deles, confesso, marcou minha vida de forma significativa. Nunca amei ninguém. Nunca senti aquele apego, aquela dependência emocional que tantos descrevem em romances ou conversas de bar. Para mim, os relacionamentos sempre foram práticos, por conveniência, por momentos compartilhados que tinham prazo de validade. Já estive a um passo do casamento, mas foi por pura conveniência, por pressão social, por achar que talvez estivesse na hora de dar um passo assim. Mas nunca levei isso adiante, porque no fundo sabia que não era o que eu queria. Eu não nasci para seguir as regras impostas pelos outros. Atualmente, ou melhor, até pouco tempo atrás, eu estava em um relacionamento com Bianca. Uma mulher bonita, executiva de sucesso, morena, magra, sofisticada. Filha de um dos sócios da empresa. Nosso relacionamento começou quase como um acordo não verbalizado: duas pessoas bem-sucedidas, com objetivos parecidos, vivendo momentos agradáveis, sem grandes cobranças. Mas, com o tempo, ela começou a mudar o tom. Passou a me pressionar para que déssemos um passo a mais. Começou com aquelas indiretas sutis, depois vieram os comentários mais diretos. Casamento. Família. Planos que eu nunca quis de verdade. E agora, para completar, Bianca soube que minha afilhada Aurora está vindo passar uma temporada em Lisboa. Desde que recebeu essa informação, ela não parou mais de insistir, de marcar em cima, de criar situações que me deixavam desconfortável. A verdade é que esse relacionamento já estava por um fio antes mesmo de Aurora aparecer nos meus planos. Eu já estava cansado. Não sou homem de tolerar pressões. Quando sinto que alguém tenta me prender, meu primeiro impulso é fugir, romper, seguir sozinho. Foi exatamente o que fiz. Coloquei um ponto final na relação com Bianca sem olhar para trás. Não por desrespeito, mas porque sou fiel ao que sou. Não admito que tentem me colocar numa gaiola, seja ela dourada ou não. Nasci para ser livre, para tomar minhas decisões sem precisar prestar contas a ninguém além de mim mesmo. Agora, com o término do relacionamento, me sinto mais leve. Não carrego arrependimentos. Sei que fiz o certo. A chegada de Aurora, no entanto, trouxe um certo incômodo que não esperava. Uma jovem com idade de ser minha filha vindo para cá, para minha casa, para minha rotina tão bem estabelecida. Nunca pensei que esse encontro aconteceria de verdade. Sempre mantive uma distância segura entre minha vida atual e qualquer resquício do passado que deixei no Brasil. Mas parece que nem sempre podemos controlar tudo. Saber que Aurora vai estar por perto mexe comigo de um jeito estranho. Não por ela, mas pelo que isso significa. É como se uma parte daquilo que eu me esforcei tanto para deixar para trás agora viesse bater à minha porta. Não sei exatamente o que esperar. Não sei como vou reagir ao ver aquela menina, agora crescida, com seus próprios sonhos e expectativas. O fato é que estou disposto a encarar. Afinal, nada na minha vida foi fácil ou previsível. Se há algo que aprendi, é que a gente precisa estar preparado para o inesperado. Não crio expectativas sobre como será essa convivência. Não sou homem de alimentar fantasias. Sei que Aurora não tem culpa de nada. Ela é apenas uma jovem que vai tentar aproveitar uma oportunidade, assim como eu um dia aproveitei a minha. O que sei é que minha prioridade continua sendo a mesma: minha liberdade, minha empresa, meu espaço. E, acima de tudo, minha paz. O resto, o tempo se encarrega de colocar no lugar. Eu sigo dono do meu caminho. E assim pretendo continuar. Autora! Olá Amoras, essa semana estou começando as atualizações diárias. será um capítulo por dia, e na próxima semana começarei, acrescentar.
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