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Melissa
Isso é ridículo pra caramba. Pela terceira vez só nessa semana, estou em uma das propriedades comerciais da minha família enquanto carros de polícia cercam o prédio com luzes piscando como se fosse Natal em pleno julho.
Curiosamente — ou não — é a mesma semana em que meu irmão Matheo. decidiu sair da cidade para a lua de mel. Coincidência? Claro que não. Dominique Barone claramente não entendeu o recado quando seu barco de contrabando “afundou misteriosamente”. Agora continua esse teatro patético contra o Matheo por ele não ter se casado com a filha dele. Homens são um desastre emocional.
Hoje à noite, estou parada em frente a um dos nossos armazéns, o celular colado ao ouvido, rindo sem humor enquanto meu irmão tenta argumentar lá do paraíso tropical em que se meteu. Não me importa que esteja em lua de mel — ele devia estar aqui consertando o caos que criou. Se eu não tivesse reorganizado tudo nos bastidores para ficar um passo à frente dos jogos dos Barone, estaríamos ferrados.
— Adivinha onde estou… ou melhor, com quem estou? — provoco no telefone, o tom carregado de veneno.
Matheo. suspira do outro lado. — Calma, Melissa...
— Calma? Tem uma p***a de um exército de policiais aqui, Matheo.. Alguém os alertou sobre “atividade suspeita” no nosso depósito. — Minha voz se eleva. — Parece familiar?
Silêncio.
— Você sabe quem tá por trás disso — continuo. — Eu pensei que você ia lidar com isso.
— Eu estava. Eu fiz...
— É, bom... claramente não funcionou. — Admito, surpresa comigo mesma. Barone é um babaca rancoroso, mas não é burro. E agora que o Matheo. está casado com a antiga namorada do colégio, Ella Barone não está nem perto de se tornar uma Mancini. Ainda assim, parece que o velho Dominique não entendeu que o casamento foi cancelado de vez.
— Eu resolvo isso quando voltar.
— E até lá?
— Melissa, pelo amor de Deus. Estou em lua de mel. E, me lembra, não era você quem queria mais responsabilidade?
Meu maxilar trava. Ele está me testando.
— Responsabilidade inclui lidar com merda, né? A não ser que seja difícil demais pra você. Talvez eu deva chamar o Lucas...
— Não é difícil — murmuro. — É só frustrante.
— Bem-vinda à liderança, maninha.
— A culpa é sua — retruco, sentindo o sangue ferver. — A culpa é da nossa adorável família. Daquela da qual você é o chefe, aliás.
— Como eu disse... se não aguenta a pressão, deixa o Lucas lidar com isso. Eu volto logo.
— Arrogante do c*****o. A Barone quer sangue, Matheo.. Isso aqui? É só o começo. E os seus amiguinhos infiltrados na polícia não estão ajudando em nada.
— É um distrito diferente. Eu entendo a gravidade da situação.
— Entende? Porque do meu ponto de vista, parece que você está mais preocupado em brincar de casinha com a sua noiva do que proteger a p***a da família.
— Isso não é justo — ele rosna.
— A vida não é justa, querido. Estamos em guerra. E você puxou o gatilho quando largou a Ella.
Outro suspiro do outro lado da linha.
— Eu falo com Don Barone amanhã cedo. Vamos resolver isso.
— Amanhã pode ser tarde demais.
— Não vai ser — ele me interrompe, com aquela voz firme que odeio admitir que me acalma. — Tá tudo sob controle.
Quero gritar, exigir ação imediata, mas conheço esse tom. É o mesmo que nosso pai usava quando não aceitava discussão. O Matheo. pode ter amolecido com a Scarlett, mas ainda tem aquele gene de comando. O naufrágio do barco da Barone foi coisa dele, afinal.
Um silêncio pesado se instala entre nós. Então vejo um detetive sair do carro e encarar o armazém. Seus olhos pousam em mim e imediatamente reconheço os dois homens vindo na minha direção.
— Preciso ir. Os detetives estão prontos pra invadir. Sorte sua que não vão encontrar nada.
— Você mesma disse que não é sobre mim. É sobre a família. E se você vai jogar nesse jogo, Melissa, então não é sorte. É o seu trabalho.
Droga, ele tem razão. De novo.
— Tenho que ir. — Desligo sem esperar resposta, guardando o telefone no bolso e me preparando para lidar com os dois policiais mais insistentes da cidade.
Os detetives Vince Salvatore e Declan Maddox — a dupla dinâmica de Chicago — se aproximam como se fossem donos do quarteirão. Arrogância pura. Em Salvatore, fica até sexy. Ele tem aquele ar de protagonista de filme de ação, o tipo que você não quer gostar... mas gosta. Maddox, por outro lado, parece só um figurante querendo atenção demais.
— Ora, ora... se não são meus detetives favoritos — digo com um sorriso sarcástico, cruzando os braços. — A que devo o prazer dessa visita surpresa?
Salvatore fixa o olhar no meu, firme, cheio de desconfiança. E algo mais. Algo que eu não consigo decifrar.
— O que a senhora fez dessa vez, Sra. Mancini?
Levanto uma sobrancelha. — Você não deveria estar me dizendo isso, detetive? Ou é só mais uma daquelas suas expedições de pesca? Porque, sério... isso já está ficando bem repetitivo.
— Nós seguimos onde as evidências nos levam — responde Maddox com aquele tom de tédio institucionalizado.
Dou um sorrisinho debochado e me viro para ele. — E isso te trouxe até aqui? Hmm... acho que a bússola de vocês tá quebrada.
Salvatore dá um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. Seu perfume se mistura ao ar da noite. Eu suspiro internamente. Pena que ele é policial.
— Sabemos que tem algo acontecendo aqui.
— Sabem, é? — Inclino a cabeça. — E desde quando negócios legítimos viraram crime?
— Não tem nada de legítimo em você — cospe Maddox, o desprezo escorrendo na voz. Aquilo é pessoal.
— Declan —, Salvatore o adverte, balançando a cabeça.
— Sabe, Hank... ou prefere que eu diga Detetive Salvatore? Se você queria um encontro, podia só ter me convidado pra um café. Não precisava inventar esse show todo.
Maddox parece prestes a explodir.
Salvatore não morde a isca, mas sua voz endurece. — Isso não é um jogo, Melissa.
Ah, ele usou meu nome. Primeira vez desde aquela nossa conversa tensa no escritório. Interessante.
— Não é? — respondo, provocadora. — Porque, daqui, parece exatamente isso. Polícia e ladrão. E vocês estão perdendo feio.
Maddox dá um passo à frente, impaciente. — Temos motivos para acreditar que...
Levanto a mão, interrompendo. — Vocês sempre têm motivos pra acreditar em alguma coisa. Mas acreditar não torna as coisas reais, detetive.
Salvatore estreita os olhos. — Você está bem calma para alguém cujo armazém está prestes a ser invadido.
— O que posso dizer? Eu sou uma mulher tranquila. E tenho um negócio limpo.
— Todo mundo tem algo a esconder — ele diz, a voz baixa, carregada de algo sombrio.
Me inclino, espelhando o gesto. — Até você, detetive?
Por um segundo, vejo algo cintilar nos olhos dele. Interesse? Admiração? Culpa? Não sei. Mas seja o que for, desaparece rápido.
— Vamos chegar ao fundo disso, Sra. Mancini — Maddox declara, tentando retomar o controle da cena.
Dou um passo para trás, alisando meu casaco com um sorriso polido. — Sem dúvida. Se divirtam cavando. Mas quando voltarem de mãos vazias, de novo, não reclamem que eu não avisei. E dessa vez, eu vou registrar uma queixa. Isso aqui já virou assédio.
— Estamos apenas fazendo nosso trabalho — diz Maddox, ríspido.
Dou de ombros. Sei que, essa noite, estamos limpos. Mas a sorte não dura para sempre. Principalmente com cachorros farejadores como Salvatore e Maddox no meu pé. Eles não vão desistir. Vão voltar. Com mais perguntas. Com mais pressão.
E Dominique Barone não vai parar até alguém sangrar.
Se ao menos Matheo. ainda fosse o homem que costumava ser. Antes da Scarlett. Antes do brilho nos olhos dele trocar sangue por romance. Ele afundou o barco da Barone, sim. Mas o velho Matheo. teria afundado a p***a do clã inteiro.
E talvez seja isso que eu tenha que fazer por ele agora.
Não me entenda m*l — estou feliz por ele. De verdade. Matheo. merece um pouco de felicidade depois de tudo o que passamos… depois de perdermos nosso irmão, depois de enterrarmos nossos pais. Mas a verdade é que a família precisa de uma liderança firme agora mais do que nunca, e às vezes parece que sou a única que enxerga isso.
Pensar no meu irmão gêmeo perdido traz de volta a memória dele com uma força que quase me derruba. Meu Deus, como sinto falta do Lorenzo. A ausência dele deixou um vazio que ninguém consegue preencher — e nem deveria tentar. Ele me ensinou a ser forte, a levantar a cabeça quando tudo ao redor gritava para eu me curvar. Foi por causa dele que aprendi a não abaixar a guarda, que endureci. Mas, por mais que eu tente carregar esse legado, não é a mesma coisa.
Lorenzo era minha outra metade. O Yang do meu Yin. Sem ele, me tornei mais sozinha. Mais cautelosa. Alguns diriam mais fria. Talvez estejam certos.
Se Lorenzo estivesse aqui, ele saberia exatamente o que fazer com os Barone e seus joguinhos patéticos. Ele não toleraria esse tipo de provocação barata — polícia, acusações veladas, ameaças covardes. Não. Lorenzo garantiria que os Barone entendessem, de forma muito clara, as consequências de se mexer com os Mancini. E ninguém ousaria cruzar essa linha duas vezes.
Meus olhos se voltam para Salvatore e Maddox e sinto o ressentimento crescer no meu peito. Eles se acham tão justos, tão corretos, mas não passam de marionetes — talvez até cúmplices. Foram rápidos em agir por causa de denúncias vazias, mas quando registrei o boletim do desaparecimento do Lorenzo… nada. Nenhuma resposta, nenhuma pista, nenhuma movimentação real. É curioso como são eficientes quando é para investigar os Mancini, mas não moveram um dedo para procurar meu irmão. Começo a me perguntar se os dois não estariam recebendo algo mais do que um salário do departamento. Talvez a lealdade deles tenha um preço, e o Don Barone esteja pagando em dia.
No momento, não há muito o que eu possa fazer além de continuar jogando esse jogo — manter a fachada, sorrir com desdém, disfarçar a raiva. Esperar que Matheo. volte e finalmente encare a porcaria que deixou para trás. O problema é que eu nunca fui mulher de esperar. Sempre preferi ação. Movimento. Respostas.
Assim como Lorenzo.
Consigo até ouvir a voz de Matheo. me dizendo com aquele tom seco e pragmático: “E foi exatamente isso que o matou.”
Mas ele não está morto.
Não posso provar… mas eu sei. Sinto isso no fundo do meu ser. Algo me diz que ele está por aí, em algum lugar, esperando — ou preso. E que o inferno ainda não terminou.
Mas por enquanto, Lorenzo não está aqui.
Sou só eu. Sozinha, na noite fria, cercada por inimigos disfarçados de autoridades e abutres esperando o primeiro sinal de fraqueza. Tentando, com todas as forças, manter esta família de pé enquanto Matheo. brinca de casinha e finge que não estamos à beira de uma guerra.
E se ele não voltar logo, talvez não reste mais nada para ele liderar.