Chittaphon sentiu o toque em sua cintura e o molhado de um beijo sobre a marca que estava bem à mostra em seu pescoço, sabia que essa era a maneira de Young Ho lhe desejar um bom dia. Os dois haviam se casado há poucos dias, em uma cerimônia bem simples e intima, apenas para os amigos mais próximos. O ômega Kim, agora Zhang, tentava se acostumar com a nova vida, estava feliz em estar com Young Ho e podia ver o quanto o alfa estava se esforçando para fazê-lo se sentir bem ali.
Havia acabado de servir o desjejum do marido, que comia como qualquer alfa comia, derramando tudo e fazendo a maior bagunça. Chittaphon achava aquilo engraçado, nunca entenderia o motivo dos alfas serem assim, e ao mesmo tempo que os via como desleixados, via neles algo inexplicável, uma existência magnifica. Ficou quieto em seu canto enquanto Young Ho se limpava na bacia e se olhava por um instante através do pequeno espelho preso na parede. Ele era tão bonito, os olhos verdes reluziam em um brilho tão intenso, os cabelos tão negros como a noite, havia esquecido de cortar e os mesmos já começavam a cobrir sua orelha.
— Preciso ir. — avisou, enquanto enxugava suas mãos em um pano que havia encontrado pendurado — Temos muita coisa pra preparar para a viagem, partimos em três dias.
O ômega acenou com a cabeça simplesmente, parecia meio triste.
O Zhang se aproximou do mesmo, baixando seu corpo sobre a mesa para alcançar seus lábios e lhe deixar um selar rápido. Chittaphon abriu um sorriso pequeno e ele lhe beijou mais uma vez. Não gostava nenhum pouco da carinha que seu ômega fazia quando ele tinha que sair, a marca recente o fazia querê-lo sempre por perto.
— Te amo.
Depois de dizer isto Young Ho seguiu seu caminho. O caminho de sua casa até o porto era um pouco longe, por isso ele sempre ia à cavalo e o deixava em um estábulo que ficava ali perto, o velho que era dono do mesmo, o alugava por um valor mensal, que era até mesmo um pouco simbólico, por isso vez ou outra o alfa lhe trazia partes de suas caças como presente.
Todos trabalhavam à pleno vapor, tudo tinha que estar pronto rápido para a próxima viagem, viagem esta que Young Ho já havia optado por não ir, Chittaphon não estava pronto para ficar longe dele por tanto tempo assim.
Podia ver o quanto o clima ali estava estranho, Yifan e Yuta não olhavam para as fuças um do outro, dava para sentir toda a raiva que emanava do alfa mais velho, por outro lado dava para sentir o pavor de Yuta. Era péssimo, nunca vira seu irmão tão agoniado com a presença de alguém.
— O clima entre você e o meu pai está tão tenso que eu quase posso cortar com uma faca. — Lucas comentou enquanto um risinho e outro, ele era o único a encarar aquilo como algo que logo passaria, que não passava de uma raiva curta, com prazo de validade. O alfa ainda tirou a faca que estava em sua bota e passou pelo vento, fingindo que cortava algo.
— Sem piadinhas, Lucas, eu ainda sinto dores. — Yuta reclamou, massageando o ombro que nunca mais fora o mesmo.
O lúpus ergueu os braços se rendendo.
A manhã passou como o vento, os alfas casados voltaram para suas casas para terem uma refeição decente preparada por seus ômegas, enquanto os solteiros que já haviam saído de casa, comiam o que a sorte lhe trouxesse nos bares. Era nessas horas que a mãe mais fazia alfa e a v****************a passadinha em casa apenas para sentir o cheirinho das panelas era grande.
Se tornar um adulto não era tão legal quanto as histórias faziam parecer. No fim só era ter que se virar sozinho, fazer tudo sozinho e viver dentro de um chiqueiro. Os mais corajosos ainda se aventuravam em organizar uma coisa ou outra, mas era m*l de alfa, tudo sempre acabava jogado de qualquer jeito no chão.
Lá pelo fim da tarde, quando as costas já se recusavam a se curvar, Yuta se viu sentado sobre um dos caixotes, matando o tempo e fingindo que ninguém havia reparado em sua preguiça.
— Sabe o que eu acho? — se pronunciou enquanto Lucas e Young Ho estavam por perto e podiam ouvi-lo — A gente devia sair pra beber, faz tempo que não fazemos isso.
— Não sou mais um alfa solteiro, não vai dar. — Young Ho o respondeu,
— E você, Lucas?
— Eu topo.
Quando já havia anoitecido, os três foram para o estábulo buscar os cavalos, Lucas e Yuta decidiam para que bar iriam, enquanto Young Ho só pensava no que teria para o jantar. Seu pai já havia comentado com ele que depois que se casasse, esse seria seu primeiro pensamento enquanto estivesse indo pra casa, achava aquilo meio engraçado, mas não deixava de ser verdade.
— Vamos conosco, Young! — Yuta insistiu, já era a terceira vez.
— Eu realmente preciso ir pra casa, irmão.
— Você vai, avisa o Chittaphon que vai sair pra beber com a gente e nos encontra no Cabeça de Porco. — Lucas sugeriu, se achava um gênio por ter pensado nisso.
— Vocês vão para aquele lugar?
— É meio perigoso. — Yuta teve que concordar com o que sabia que o irmão estava pensando — Mas a bebida é a melhor.
O alfa mais velho sacudiu a cabeça em negação, se sacudia enquanto pensava se iria ou não. Queria sair, se divertir um pouco, já fazia muito tempo que não fazia aquilo, mas ao mesmo tempo não queria que seu ômega ficasse sozinho em casa. E a cara de pidão que Yuta fazia era péssima.
— Tá. — respondeu por fim — Encontro vocês lá.
O barulho no bar era grande, não apenas pelos músicos, mas pelas conversas. Em um lugar onde sua grande maioria fosse composta por alfas, era óbvio que o barulho seria imenso, os mesmos conversavam de forma nada discreta. Era comum que alfas contassem vantagem em voz alta, quanto mais pessoas ficassem sabendo de suas façanhas, melhor.
Ficava fácil conseguir uma mesa quando se estava com Lucas, Yuta precisava confessar que sentia um pouco de inveja. O dono do bar enxotara outros três para pegar a mesa dos mesmos e oferece-la para o lúpus. Aquilo era tão estranho, se as pessoas conhecessem Lucas de verdade, não teria medo dele, veriam o quão inofensivo ele era, o quanto era calmo e não gostava de brigas.
Mas aquela fama toda vinha de sua infância, de quando ameaçava todos que se aproximavam maldosamente de Jungwoo, de quando vivia brigando com os alfas que tentavam bater no beta. Lucas era apenas o defensor do homem que amava, não um lutador.
Pediram duas cervejas, e lá pela terceira caneca Young Ho apareceu.
— Achei que não vinha mais. — o irmão mais novo comentou assim que o mais velho ocupou lugar na mesa.
— Eu ‘tava jantando. — respondeu, a língua ainda dançava pela boca tirando os restos dos dentes — Chittaphon cozinhou um pato que estava uma maravilha.
Os dois apenas reviraram os olhos, definitivamente Young Ho era um soldado abatido já completamente dominado pela vida de casado. O mais velho entre os três pediu uma cerveja, que não demorou para chegar. Ele bebia bem devagar, o estômago já bem cheio pelo pato, a calça aberta gritava isso.
— Sobre o que estavam falando?
— Yuta e sua desistência de SiCheng. — Lucas respondeu entre um gole e outro.
— Vai desistir do tampinha?
— Olha! — o alfa mais novo se largou sobre a mesa, parecia estar explicando alguma coisa — Eu gosto do SiCheng, gosto mesmo, mas eu também gosto do meu couro. Quero ver ficar com ômega estando morto.
Tinham que admitir que Yuta tinha lá a sua razão, toda a sua vida Lucas viu seu pai dizendo “fique longe” e as pessoas realmente ficando longe.
— Meu pai não ia matar você.
O Zhang olhou indignado para o amigo, erguendo sua camisa e mostrando seu corpo completo por hematomas em péssimo estado, podia ver claramente a marca de um pé bem ali. Lucas sorriu amarelo, talvez seu pai quisesse mesmo matar Yuta, mas só um pouquinho.
— Eu vou seguir com a minha vida, mesmo que me doa, o que eu posso fazer? E você mesmo disse que isso era uma aventura pro SiCheng, eu sou só uma paixão pra ele, uma aventura, vivemos essa aventura. — Yuta parecia conformado, a caneca de cerveja já estava cheia novamente — E que venham as próximas!
Talvez aquilo fosse uma oração.
Uma confusão se formara no outro lado do bar, um beta gritava com um alfa que o agarrava conta a sua vontade, o menor lutava para que o mesmo o soltasse, mas o alfa, meio bêbado, teimava em querer beija-lo. Yuta já havia tomado lá suas seis ou sete canetas, já via as coisas um pouco borradas e mesmo que não fosse de se intrometer na briga dos outros, o fermento da bebida lhe dizia para ir.
Quando percebeu já estava ali ao lado, puxando os braços do alfa, o obrigando a soltar o beta.
— Perdeu o que aqui, rapaz? — o homem de barba grossa e careca partiu para cima dele, o empurrando contra algumas mesas — Não se meta!
Yuta se ergueu e foi para cima do mesmo.
— Quando um beta ou ômega não quer você, não continue insistindo, isso fica feio i****a. — respondeu, estava rindo sozinho — Quase tão feio quanto você.
Nessa hora várias pessoas que ali estavam começaram a rir. O careca, ofendido, partiu novamente para cima do alfa de cabelos um tanto longos e os dois acabaram por se atracar. Lucas até tentou separá-los, mas Young Ho o impediu, dizendo que ver seu irmão brigar era algo que ele não podia perder.
O alfa careca havia quebrado uma cadeira em sua queda e agora com a perna da mesma tentava o acertar, por ser mais jovem e provavelmente por estar menos bêbado, Yuta conseguia se desviar dele com facilidade. Mas a briga não durou muito, o Zhang mais novo conseguiu acertar um chute no estômago do velho barbudo e o derrubar.
Vendo que o mesmo já estava no chão e sem nenhuma chance de se levantar, o beta que outrora estava sendo molestado pelo tal, foi até Yuta, o agarrando pelo pescoço e beijando seus lábios ali mesmo. O alfa havia se assustado com o ato repentino, mas ao se acostumar com o toque, o agarrou pela cintura e correspondeu seu beijo numa intensidade incrível, sem se importar com as pessoas que os olhavam.
— Desculpe, meus amigos, mas eu vou precisar me ausentar. — dissera ao irmão e à Lucas, passando pelos mesmos segurando o beta pela cintura — Nos vemos amanhã.
O alfa mais novo sumiu pela porta do bar.
Do lado de fora ainda não havia soltado o beta, pelo contrário, o encostou na parede de voltou a beija-lo, segurava sua cintura de forma possessiva e o beta gemia baixo pela intensidade dos toques.
— Podemos ir pra minha casa, moro com meu irmão, mas ele está viajando.
Yuta confirmou e depois de mais um beijo os dois passaram a caminhar na direção da casa do mesmo. Pelo caminho trocavam mais caricias, a escuridão da noite os escondia. A cabana onde o beta viva com seu irmão não ficava muito longe, por isso não demoraram a chegar.
Nenhum dos dois chegou a ver se fecharam a porta direito, as roupas foram ficando pelo caminho enquanto tomavam o rumo do quarto. O beta, já sentado sobre o alfa, dedicava beijos em seu pescoço e se deixava perder com o cheiro maravilhoso que ele tinha, o jeito possessivo com que Yuta o segurava o deixava ainda mais quente. Yuta tentava não pensar em SiCheng, seguir sua vida era prioridade no momento, precisava tirar aquele ômega de sua cabeça o quanto antes.
— Qual seu nome? — perguntou ao beta, pois era aquele nome que gemeria naquela noite.
— Na Yangyang.
[... Doçura de Beta ...]
— Acho que o Lucas não vem hoje.
Jungwoo comentava com Wheein enquanto os dois terminavam de limpar tudo na cozinha, as panelas já estavam sendo guardadas e ainda não havia nenhum sinal de YukHei, o alfa não havia aparecido nem mais cedo, sendo que em dias normais ele acabava jantando por lá. Claro que Jungwoo se sentia incomodado por esse sumiço, mas preferia não pensar em nada, o lúpus tinha todo o direito de fazer o que quisesse.
— Yongsun também está atrasada. — a ômega comentou, terminando de limpar suas mãos — Ah, Jungwoo, preciso te contar uma coisa.
O beta ficou parado a encarando esperando que ela falasse.
— Esse foi meu último dia aqui.
Jungwoo ficou triste.
— Ah, mas por que? — ele perguntou, sentiria falta da amiga — Você gosta tanto daqui.
— Infelizmente o irmão de Yongsun morreu, ele e sua esposa sofreram um acidente bem feio. — ela começara a explicar — Eles deixaram dois filhos, um garoto alfa de 10 anos, Hyukwoo, e uma ômega de 2 anos, Suran, como as crianças não têm com quem ficar, elas ficarão conosco. Hyukwoo já se vira bem sozinho, mas eu preciso cuidar de Suran.
— Sinto muito pelo irmão de Yongsun, e boa sorte com as crianças.
— Obrigada. — ela sorriu — Confesso que estou muito animada, eu e Yongsun estamos casadas há três anos e aparentemente eu não posso dar filhos pra ela, agora com as crianças é uma espécie de recomeço. Além de ser um desafio.
Foi nessa hora que Yongsun chegou, a alfa trazia consigo uma criança de colo, e mais atrás um garoto a acompanhava. O menino tinha uma péssima expressão no rosto, não era de tristeza, ele parecia estar com raiva. Provavelmente esse era o desafio que Wheein estava falando.
— Até mais, Jungwoo, nos vemos por aí!
A ômega foi embora com sua esposa. E depois de ver que tudo estava ajeitado, Jungwoo foi embora. Não gostava de ir pra casa sozinho, pra falar a verdade havia se acostumado demais com a presença de Lucas, dormia quase todas as noites na casa, e pra ser mais sincero ainda, Jungwoo praticamente morava com Lucas. Mas ele foi pra casa naquela noite, cumprimentou os pais e disse que estava muito cansado e queria dormir, indo direto para o seu quarto.
Ele, já tão acostumado a ter o calor de Lucas consigo, agora se via sem ele e isso não era bom. Mas que grande merda! Já era completamente louco por aquele alfa e dormir sem sentir o seu cheiro era terrível, era como se aquela cama nem lhe coubesse mais, aqueles lençóis já não fornecessem calor.
Já estava quase pegando no sono quando ouviu um barulho na janela, um barulho que insistia, e irritado o beta caminhou até a mesma, olhando pelas prestas e encontrando o vulto que de tão alto só poderia ser de uma pessoa. Abriu a janela.
— Lucas, o que...
Não conseguiu terminar a frase, pois o alfa havia o beijado. Naquele beijo, sentiu o gosto da bebida.
— Estava bebendo?
— Só um pouquinho. — Lucas respondeu enquanto pulava a janela para dentro do quarto — Senti saudades.
O beta balançou a cabeça em negatividade, o alfa já deitava em sua cama. Folgado. Lucas não tinha o hábito de ir até sua casa, mas sempre que ia se sentia à vontade, como se já fosse da família. Jungwoo sentou ao seu lado e foi agarrado pelo mesmo, agora se encontrava deitado em seu peito.
— Eu não vivo sem você, sabia? — ele disse, sua voz estava engraçada, parecia meio tonto.
— Sei, desde os oito anos. — o beta riu, deitando a cabeça em seu peito — Eu também não vivo sem você.