Bianca Santoro,
O tempo parecia passar rápido. E algumas semanas já tinha se passado apressadamente, sem que eu me desse conta. Enzo estava cada vez mais presente em minha vida, e eu não sabia bem como lidar com isso. Ele se aproximava de forma natural, como se fosse apenas um amigo curioso e preocupado, mas eu sentia que havia algo mais em seus gestos e palavras.
Numa tarde de sábado, estávamos na casa de Helen, terminando mais um trabalho em grupo. Helen tinha saído para resolver algo com a mãe, e eu e Enzo acabamos ficando sozinhos na sala de estar. Era um ambiente confortável, com móveis simples e toques de decoração que deixavam tudo com uma sensação de acolhimento. Nada naquela casa parecia feito para impressionar, diferente da mansão de Aléssio, onde cada detalhe parecia uma declaração de poder.
Enzo estava sentado no sofá, um pouco inclinado para frente, folheando um caderno com notas. Eu o observava de relance, tentando disfarçar o interesse crescente. Havia algo nele que me deixava curiosa, algo que me fazia querer saber mais sobre sua vida, seus segredos, o que ele guardava por trás daquele sorriso fácil e olhar atento.
— Você é sempre tão concentrada assim? — perguntou ele de repente, sem tirar os olhos do caderno.
Desviei o olhar rapidamente, surpresa por ele ter notado que eu o observava.
— Não estava te olhando, menti, tentando parecer indiferente.
Ele riu, uma risada baixa e relaxada.
— Tudo bem, Bianca, eu sou uma ótima companhia para se observar — disse ele, fechando o caderno e se inclinando para trás no sofá, mais descontraído.
Não pude evitar sorrir. Ele tinha esse efeito em mim, me fazia relaxar e deixar as defesas de lado, mesmo que eu tentasse ao máximo me manter firme e distante. Era irritante e, ao mesmo tempo, reconfortante.
— E você, Enzo? — perguntei, mudando de assunto para me esquivar da situação embaraçosa. — Sempre foi assim tão tranquilo?
Ele parecia refletir por um momento, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Não sempre, respondeu. Minha vida nem sempre foi tão calma quanto parece agora. Tive meus momentos de caos. — Ele olhou para suas próprias mãos, como se visse algo nelas que eu não podia enxergar. — Acho que a gente precisa passar pelo caos para valorizar a calmaria.
A resposta me pegou de surpresa. Eu não esperava profundidade em uma conversa casual. Enzo parecia ter uma vida tão tranquila, uma família tão unida, que não conseguia imaginá-lo enfrentando dificuldades.
— O que quer dizer com ‘caos’? — perguntei, curiosa.
Ele suspirou antes de responder, olhando para a janela como se procurasse algo lá fora.
— Quando éramos crianças, Helen e eu passamos por uma fase complicada. Nossos pais eram muito jovens quando se casaram, e isso trouxe muitos problemas. Minha mãe... ela sempre foi uma mulher forte, mas enfrentou depressão depois que meu irmão mais novo morreu em um acidente. — Enzo parou por um momento, como se escolhesse as palavras com cuidado. — Eu tinha onze anos e Helen, oito. Depois disso, meu pai se afastou, e eu tive que assumir o papel de irmão e, de certa forma, de pai para ela. Isso nos uniu muito, mas me fez amadurecer mais rápido do que eu gostaria.
Fiquei em silêncio, absorvendo o que ele tinha acabado de me contar. Era um lado dele que eu não conhecia, um peso que ele carregava e que, de certa forma, explicava o olhar profundo que ele tinha, como se sempre tentasse enxergar mais além das aparências.
— Sinto muito pelo seu irmão — murmurei, sem saber muito bem o que dizer. Não era bom em oferecer consolo, mas, de alguma forma, queria que ele soubesse que eu entendia, porque também passei por algo doloroso assim.
Enzo balançou a cabeça e sorriu, mas seu sorriso parecia um pouco mais triste agora.
— Isso aconteceu há muito tempo. Minha mãe superou, e minha irmã é uma guerreira. Não poderia pedir uma família melhor. — Ele desviou o olhar, como se tentasse se afastar das lembranças. — E você, Bianca? Qual é a sua história?
A pergunta me deixou tensa. Eu não queria contar a ele sobre meu passado, sobre as coisas que fiz ou o mundo em que me envolvi. Enzo parecia tão puro, tão distante do caos que eu vivi, e eu não queria manchar sua visão com a realidade da minha vida.
— Minha história é complicada — respondi, escolhendo as palavras com cuidado. — Digamos que eu também tive meu caos.
Ele assentiu, respeitando meu silêncio. Eu gostava disso nele, a capacidade de entender quando parar de perguntar. Ele não me pressionava e isso me fazia querer contar mais, mas ainda não conseguia me abrir completamente.
Helen voltou logo em seguida, animada como sempre, e a conversa mais séria se perdeu no meio da leveza de suas palavras e risadas. Mas o que Enzo tinha me contado ficou na minha mente, e, de certa forma, me fez sentir mais conectada a ele. Eu me via em Enzo. Havia algo na maneira como ele lidava com seu passado, a forma como carregava seus traumas com dignidade, que me fazia querer ser mais como ele.
Nos dias seguintes, continuamos a nos encontrar com frequência. Enzo estava sempre por perto, seja na escola, em trabalhos de grupo ou apenas nos momentos de lazer na casa de Helen. Ele se tornou uma presença constante, uma figura que eu não conseguia mais ignorar.
Aos poucos, começamos a compartilhar mais confidências, mesmo que indiretamente. Ele me contava histórias sobre a infância com Helen, sobre como ela era teimosa e engraçada, e eu me pegava rindo e participando da conversa sem perceber. Enzo me fazia esquecer dos meus medos e dúvidas, pelo menos por alguns momentos.
Eu ainda pensava em Aléssio. Ele era uma sombra constante em minha mente, uma presença que, mesmo distante, ainda afetava minhas escolhas. Mas, ao lado de Enzo, conseguia esquecer um pouco do peso do meu passado. Ele trazia leveza para minha vida, algo que eu não sabia que precisava até conhecer.
Um dia, enquanto Helen estava na cozinha, Enzo olhou para mim com um olhar que eu não conseguia decifrar.
— Você sabe que pode confiar em mim, não sabe? — perguntou ele, com a voz suave e sincera.
Eu quis responder que sim, que podia confiar nele. Mas as palavras ficaram presas na garganta. Não era uma questão de confiar em Enzo, mas de confiar em mim mesma para deixar alguém se aproximar tanto. Então, apenas sorri e assenti, esperando que isso fosse o suficiente.