Aléssio Romano,
A escola era o último lugar onde eu esperava estar, mas ali estava eu, sentado dentro do carro, observando o movimento na entrada. Vito estava no banco da frente, mexendo em seu celular enquanto aguardava minhas ordens. Eu raramente me envolvia em questões triviais, mas aquela situação estava começando a me irritar de uma forma que não conseguia ignorar.
— Ela vai sair daqui a pouco — Vito comentou sem levantar a cabeça do celular.
Assenti em silêncio, sem tirar os olhos da entrada. Eu sabia que estava agindo de forma irracional, mas algo em mim estava fora de controle. Desde o momento em que Bianca começou a se aproximar de pessoas novas, algo mudou. Eu estava acostumado a ser o centro da vida dela, a ter o controle, e vê-la encontrar um novo círculo me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Estou sendo incoerente, sim. Mas não consigo controlar esse sentimento.
Minutos depois, lá estava ela. Bianca saía da escola, acompanhada de outros estudantes. Ela ria de algo que um garoto dizia. O nome dele? Enzo. Eu soube assim que vi sua foto nos relatórios de Vito. Alto, com um jeito casual demais, e um sorriso que parecia estar sempre lá, pronto para qualquer ocasião. Era irritante como ele conseguia se aproximar dela tão facilmente.
— Espere aqui — murmurei para Vito, enquanto abria a porta do carro e saía sem olhar para trás.
Caminhei em direção ao grupo, tentando manter uma expressão neutra. Bianca estava distraída, e foi só quando fiquei perto o suficiente que ela finalmente me notou. Seus olhos se arregalaram por um breve segundo antes de ela recuperar a compostura.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, com a voz carregada de surpresa.
Os outros estudantes ao redor dela ficaram em silêncio, me observando como se eu fosse uma figura de outro mundo. E, em certo sentido, eu era. Esse não era o meu ambiente. E eles sabiam disso.
— Precisamos conversar — disse, minha voz firme e autoritária, sem espaço para discussão.
Bianca hesitou, olhando ao redor, antes de se despedir brevemente dos amigos. Ela trocou algumas palavras rápidas com Enzo, e o sorriso dele se desfez assim que percebeu minha presença. Ele me encarou de um jeito que parecia desafiador, e eu tive que lutar contra o impulso de retribuir o olhar ou pular logo no pescoço dele e asfixiá-lo até a morte.
Me virei e comecei a caminhar, sabendo que Bianca me seguiria. Entramos em um pequeno parque ao lado da escola, onde a privacidade era garantida.
— Por que você veio até aqui, Aléssio? — perguntou, tentando manter a voz calma, mas eu notava a irritação por baixo da superfície. — Eu não te vejo há um mês, e agora vem aparecer aqui assim, dizendo que quer conversar?
— Queria ver como você está se saindo — respondi de forma simples, sem revelar o verdadeiro motivo por trás da minha visita.
— Estou indo bem — ela disse, cruzando os braços como se estivesse se protegendo. — Está tudo bem, na verdade.
A resposta me irritou. Ela estava distante, fria. Como se estivesse me excluindo de sua nova vida. Eu sabia que era irracional, mas a sensação de estar sendo substituído era insuportável.
— Notei que você tem feito novas amizades em minha ausência — comentei, tentando parecer casual, mas minha voz soava rígida.
— E qual é o problema nisso? — Bianca rebateu, me desafiando com o olhar. Ela não era mais aquela garota assustada, e ver isso apenas piorou a minha irritação.
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Nenhum problema. Só quero ter certeza de que você está se cuidando — menti, mesmo sabendo que meu incômodo era mais profundo do que isso.
Ela soltou uma risada curta, sem humor, balançando a cabeça.
— Sabe o que eu acho? — começou, sua voz carregada de frustração. — Acho que você não consegue lidar com o fato de que não é o único no meu mundo agora. Você sempre controlou tudo ao meu redor, e agora que eu estou tentando seguir em frente, você aparece para me lembrar que ainda manda em mim. Tudo bem que estou devendo ainda essa maldita dívida com você, mas não se preocupe, vou arrumar um emprego e vou te pagar até o último centavo.
As palavras dela atingiram fundo, e eu me vi sem uma resposta imediata. Ela estava certa, e admitir isso era o que me matava. Eu não estava ali por preocupação ou por obrigação, mas por puro ciúmes. Ela estava criando um novo mundo, e eu estava sendo deixado para trás. Eu me sentia estranho por isso e me odiava.
— Bianca, eu estou tentando te proteger — disse finalmente, tentando soar razoável, mesmo sabendo que soava mais como uma desculpa.
— Proteger de quê, Aléssio? — perguntou, sua voz carregada de raiva. — De mim mesma? De novas experiências? Você diz que me quer livre, mas continua me mantendo presa a você. Essa prisão eu não quero.
Olhei para ela, sem palavras por um momento. A forma como ela me desafiava, com essa nova confiança, era ao mesmo tempo admirável e insuportável.
— Esse tal de Enzo... — comecei, mas parei ao ver a expressão dela mudar, tornando-se ainda mais dura. — Você sabe quem ele realmente é? Deveria se atentar mais às amizades na qual arruma.
— Enzo é um bom amigo — ela respondeu sem hesitar. — E não, ele não está envolvido com nada perigoso, se é isso que você está insinuando.
O tom de voz dela me desarmou, e percebi que estava caminhando para um território perigoso. Eu tinha que ter mais controle sobre minhas emoções, mas não conseguia evitar. O ciúme era como uma serpente rastejando dentro de mim, me deixando inquieto e irracional.
— Bianca, você precisa entender que minha intenção é... — tentei começar, mas fui interrompido.
— Sua intenção é me manter sob controle, Aléssio — ela retrucou, sua voz se elevando um pouco. — Mas eu não sou mais aquela garota perdida que você conheceu, que você provou os sentimentos mais profundos e depois disse que era um erro. Por sua causa estou mudando, crescendo, e você precisa aceitar isso!
O silêncio voltou a se instalar entre nós, mas agora era carregado de mágoa e de coisas não ditas. Eu odiava admitir, mas ela tinha razão. Ela estava mudando, e eu não sabia como lidar com isso.
Respirei fundo, tentando achar as palavras certas.
— Tudo bem — falei, minha voz mais baixa, tentando soar mais controlado. — Só quero que você tenha cuidado. Não quero que se machuque... ou que alguém a machuque.
Ela suspirou, parecendo exausta da conversa.
— Eu sei me cuidar. Você me ensinou isso, lembra? — Ela virou-se para sair.
Observei enquanto ela se afastava, cada passo dela parecia um sinal de que eu estava perdendo meu espaço na vida dela. Fiquei ali, sozinho, olhando para o caminho que ela havia tomado, tentando processar o que estava acontecendo entre nós.
O que me incomodava não era o fato de Bianca ter novas amizades, mas o fato de que ela estava construindo algo sem mim. Eu estava sendo substituído, e isso era algo que eu não conseguia aceitar. Sei que o culpado sou eu, mas mesmo assim não poderei aceitar isso.
Voltei para o carro, sentindo o peso do fracasso. Vito olhou para mim de relance, mas não disse nada. Ele sabia quando o silêncio era a melhor resposta.
Enquanto o carro se afastava da escola, percebi que precisava repensar minhas ações. Eu estava me deixando levar pelo ciúme, e isso era um sinal de fraqueza. E fraqueza era algo que eu não podia permitir.
Mas a verdade é que Bianca estava mudando. E, por mais que tentasse, não sabia como impedir que ela se afastasse ainda mais.