Bianca Santoro,
A dor me consumia como um incêndio incontrolável. Assim que saí do quarto de Aléssio, eu senti como se algo dentro de mim tivesse sido arrancado à força. Me joguei na cama, sem forças para sequer me levantar. O peso do que ele havia dito, de como ele havia me tratado, esmagava meu peito. Passei a noite inteira sem dormir, apenas deitada, encarando o teto e tentando, sem sucesso, segurar as lágrimas que desciam pelo meu rosto.
O choro não era apenas de tristeza, mas de uma profunda decepção, com ele e comigo mesma. Eu me sentia enganada, usada, como se tudo o que eu tinha acreditado entre nós não passasse de uma ilusão. Minha mente estava um turbilhão de pensamentos confusos, perguntas sem respostas e memórias que eu preferia esquecer.
Quando o sol começou a nascer, a luz fraca entrando pela janela, percebi que o novo dia não oferecia consolo. Levantei-me lentamente, como se cada movimento fosse um esforço tremendo. Minha cabeça latejava, meus olhos ardiam de tanto chorar, mas eu sabia que não podia continuar assim. Aléssio não veria mais minha fraqueza.
Entrei no banheiro e lavei o rosto, tentando apagar os vestígios da noite passada. O reflexo no espelho mostrava uma garota quebrada, mas eu me recusei a deixar que essa imagem ficasse. Vesti-me com uma roupa simples, prendendo o cabelo para trás, tentando ao máximo parecer composta, mesmo que por dentro eu estivesse um caco.
Desci para o café da manhã. O ambiente estava silencioso, o que para mim foi um alívio. A governanta, Lupi, me cumprimentou com um sorriso discreto e serviu meu café sem fazer perguntas. Eu não tinha apetite, mas sabia que precisava me manter firme. Tomei o café amargo como se ele pudesse acordar a parte de mim que ainda estava adormecida pelo cansaço.
Me preparei mentalmente para a aula de etiqueta. A ideia de enfrentar a professora Elenice naquele estado era assustadora, mas uma nova decisão havia nascido dentro de mim. Eu não deixaria mais Aléssio Romano me pisar, me usar como bem quisesse. Eu não seria mais frágil, e, para isso, eu precisava aprender, me fortalecer.
Terminei meu café e fui para a aula de Etiqueta, a professora Elenice me esperava com a mesma expressão séria e meticulosa de sempre. Eu não sabia o que esperar naquele dia, mas decidi que me dedicaria inteiramente.
— Hoje, vamos trabalhar na sua postura, senhorita Bianca — anunciou a professora, com sua voz controlada. Ela segurava um livro grosso em uma das mãos e um par de saltos altos na outra. — Preciso que você aprenda a caminhar com elegância e confiança.
Coloquei os saltos, me equilibrando desajeitadamente neles. Eu odiava andar de salto, sempre preferi algo mais prático, mas isso fazia parte da mudança que eu queria para mim. Elenice colocou o livro na minha cabeça, instruindo-me a manter o equilíbrio e a postura reta.
— Ande de um lado ao outro da sala, ela ordenou. — Cabeça erguida, ombros para trás, não deixe o livro cair. Pense que ele é uma coroa, e você não pode deixá-lo cair.
Dei meus primeiros passos. Era estranho, desconfortável, mas me obriguei a continuar. Cada tropeço fazia Elenice corrigir minha postura, ajustar meus ombros ou mandar que eu erguesse o queixo. Eu lutava contra meu instinto de abaixar a cabeça e me esconder, tentando incorporar a postura que ela insistia em me ensinar.
A aula continuou por horas, e a cada repetição, senti que estava ganhando mais confiança. O livro parou de cair, e, eventualmente, eu conseguia caminhar de um lado ao outro com os ombros firmes e o queixo erguido. Não era mais a garota tímida e desajeitada, mas alguém que estava aprendendo a se sustentar, mesmo que de forma frágil.
Continuei minha rotina de sempre. Após as aulas de etiqueta, me organizei e fui para a escola.
No dia seguinte, Elenice me deu uma notícia inesperada.
— Hoje, não trabalharemos apenas na postura, mas na arte de dançar — ela disse, sorrindo levemente. — Trouxe um professor especialmente para isso. Quero que você aprenda a se mover com elegância e graça, tanto na dança quanto na vida.
O professor de dança entrou, um homem alto, elegante e de fala calma. Ele se apresentou como Gian, e sua voz era firme, mas encorajadora.
— A dança não é apenas sobre passos, Gian explicou, com um leve sotaque. — É sobre sentir o ritmo, entender o seu corpo e se conectar com o parceiro. Vamos começar com passos básicos.
Eu estava nervosa, mas tentei esconder. Gian me posicionou na frente do espelho, ensinando-me a postura básica para dançar, como manter o equilíbrio e a confiança. A sensação era de voltar a ser vulnerável, mas eu precisava encarar isso como mais uma forma de crescer, de me proteger do que havia acontecido.
Começamos com passos simples de valsa. Gian explicava com paciência cada movimento, corrigindo meus erros sem me fazer sentir envergonhada. No início, pisei no pé dele várias vezes, e me senti ridícula, mas ele apenas sorria e me incentivava a continuar.
— É natural cometer erros — disse ele, enquanto ajustava meus braços na posição correta. — O importante é ter coragem de tentar de novo, até acertar. E, eventualmente, você vai perceber que a dança é mais sobre sentir do que pensar.
Continuei a tentar, mesmo com os tropeços. A música tocava suavemente, e eu me esforçava para ouvir o ritmo e me adaptar aos passos. Aos poucos, fui conseguindo acompanhar o movimento de Gian, e a sensação de controle sobre meu corpo começou a me dar confiança.
Depois da valsa, ele me ensinou passos de tango, que exigiam uma maior conexão com o parceiro. Cada passo era desafiador, e eu tentava não me sentir intimidada pela proximidade ou pelo toque, lembrando a mim mesma que isso era parte de me tornar mais forte.
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Esses dias foram intensos, mas a cada novo movimento, a cada correção, eu sentia algo dentro de mim mudando. Eu estava me forçando a sair da minha zona de conforto, a encarar desafios que nunca pensei em enfrentar. Era difícil, exaustivo, e às vezes me sentia tentada a desistir. Mas então, lembrava-me das palavras de Aléssio, e da sensação de ser vista como frágil e indefesa.
Isso era algo que eu precisava superar. Se ele queria me ver crescer, se ele queria que eu fosse uma mulher diferente, eu faria isso por mim mesma, não para agradá-lo, mas para me provar que era capaz.
Quando a última aula da semana terminou, e eu me encontrei sozinha em meu quarto, uma mistura de emoções me dominava. A dor da rejeição ainda estava lá, latente, mas agora eu também sentia uma nova determinação. Eu não deixaria ninguém me pisar novamente. Nem Aléssio, nem ninguém.
Olhei para o espelho, encarando a garota que estava ali. Ela não era mais a mesma de antes. Ainda havia fraquezas, ainda havia medos, mas agora havia uma decisão de não se deixar destruir. Se ele queria me ver crescer, eu mostraria o quanto poderia ser forte. Se ele queria me proteger, eu mostraria que podia me proteger sozinha.
Fechei os olhos por um instante, deixando o cansaço finalmente me vencer naquela noite.