Capítulo 39

1272 Words
Aléssio Romano, Eu estava sentado no meu escritório, encarando a pilha de papéis à minha frente. Meu pensamento, no entanto, estava longe dali. Desde a última discussão com Bianca, uma sensação incômoda me acompanhava, como um peso constante em meu peito. Tentei me convencer de que manter distância era o certo, que estava protegendo ambos ao tomar essa decisão. Mas, no fundo, sabia que estava apenas fugindo do que realmente sentia. Vito entrou sem bater, o que era um costume irritante dele, mas que eu aceitava devido à sua lealdade. — Senhor, tenho o relatório sobre Bianca — ele disse, entregando-me uma pasta. Olhei para o documento, hesitando em abrir. Sabia que isso poderia trazer à tona sentimentos que eu estava tentando controlar. Mas abri, afinal. — Ela está indo bem nas aulas — Vito continuou, sua voz calma. — Tem passado bastante tempo com seus colegas, especialmente com o tal Enzo. Meu maxilar se contraiu involuntariamente ao ouvir o nome. Eu não sabia por que isso me incomodava tanto, mas o simples fato de ela estar se aproximando de outras pessoas, especialmente de um garoto, fazia meu estômago revirar. Não era apenas ciúme, era o medo de que alguém se aproximasse dela da forma como eu havia me aproximado. Eu deveria aceitar de uma vez, já que ela é jovem e o tal Enzo também é da mesma idade. — Continue monitorando — murmurei, tentando esconder qualquer traço de preocupação na voz. Vito assentiu, e antes de sair, mencionou algo que me fez refletir ainda mais: — Senhor, posso estar me intrometendo novamente, mas talvez devesse pensar no que realmente quer para ela. Ou vai acabar empurrando-a para longe. Eu estou à volta dela, e como as coisas estão indo, a mim mesmo que sou seu consigliere, não me agrada. Fiquei em silêncio depois que ele saiu, ponderando suas palavras. Talvez ele estivesse certo, mas eu não sabia como lidar com o que sentia. Decidi que precisava sair dali por um tempo, respirar um pouco de ar fresco e organizar meus pensamentos. Então, fui visitar minha irmã, Sofia. Desde a morte de Lia, ela estava devastada, e eu sabia que precisava estar ao seu lado. Dirigi até a casa de nossa família, uma mansão mais antiga, cercada por um extenso jardim. Era um lugar que sempre trouxe lembranças boas, mas hoje, as memórias eram um fardo. Encontrei Sofia no jardim, sentada sob um caramanchão coberto de flores. Ela parecia distraída, mas esboçou um sorriso fraco quando me viu se aproximando. — Aléssio — ela murmurou, sua voz ainda frágil pela perda. — Obrigada por vir. Sentei-me ao lado dela, sem saber ao certo o que dizer. Lia havia sido um pedaço de luz em nossas vidas, e vê-la partir dessa forma abrupta deixou uma ferida que parecia impossível de curar, mesmo eu tentando me recuperar dia após dia. — Como você está? — perguntei, mesmo sabendo que era uma pergunta inútil. — Eu estou sobrevivendo — respondeu ela, suspirando. — Mas não é fácil. Uma funcionária apareceu com uma bandeja de café, e enquanto ela servia, meu pai e minha mãe se juntaram a nós. Meu pai, um homem de presença imponente, com um olhar sempre crítico, se sentou à minha frente, enquanto minha mãe, sempre calma e graciosa, se ocupava em confortar Sofia. Tomamos o café em silêncio por um momento, até que meu pai decidiu quebrar o gelo. — Aléssio — ele começou, sua voz profunda como sempre. — Você já tem 36 anos, e está mais do que na hora de começar a pensar em um casamento digno. Eu segurei a xícara com força, já sabendo para onde aquela conversa estava indo. Meu pai sempre foi tradicional, e no mundo em que crescemos, casamento não era apenas uma escolha pessoal, era um dever, algo que consolidava alianças e mantinha as tradições da nossa família e da máfia. — No momento, não estou pensando em casamento — respondi, tentando manter minha voz firme. — É sua responsabilidade pensar nisso — continuou ele, ignorando minha resposta. — Uma esposa para um homem como você precisa ser digna, respeitável e, é claro, seguir as tradições. Deve ser virgem, como ditam nossas leis. E eu preciso de netos, e você, de herdeiros. As palavras dele me atingiram como um soco. Eu sabia dessas regras, desse código de honra que seguíamos, mas ouvir aquilo me fez lembrar de algo que eu vinha tentando ignorar. Meu pensamento imediatamente foi para Bianca. Eu sabia que havia tirado sua virgindade, sabia que isso mudava tudo entre nós. Ela poderia ser minha esposa, porque querendo ou não, ela é minha por ter tirado sua virgindade. Mas se tivesse mais idade, Bianca seria perfeita. Ela era forte, determinada, e em sua rebeldia havia uma chama que me atraía de uma forma que eu não podia negar. Mas a diferença de idade e o fato de eu ter sido o primeiro homem dela criavam um dilema impossível de resolver. Meu pai continuou falando, mas eu estava perdido em meus pensamentos. Ele falava de dever, de responsabilidade, de manter nossa linhagem pura e respeitada. Cada palavra só aumentava o peso na minha consciência. Como eu poderia reconciliar meus sentimentos com o que esperavam de mim? O café da manhã prosseguiu, mas eu m*l ouvi o restante da conversa. Minha mente estava cheia de perguntas e de incertezas. Sentia que estava no meio de uma encruzilhada, sem saber qual caminho tomar. Após algum tempo, meu pai e minha mãe foram para dentro da casa, deixando-me sozinho com Sofia. Ela olhou para mim, com uma expressão compreensiva, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. — Casamento não é algo simples para nós, Aléssio — disse ela, tocando levemente minha mão. — Você não precisa seguir exatamente o que ele espera. Mas também não pode ignorar o que sente. As palavras dela ressoaram profundamente. Eu sabia que Sofia sempre foi a mais sensata entre nós dois, e que sua perspectiva era algo que eu precisava considerar. Mas estava preso entre o que queria e o que era correto fazer. — Já vou indo, Sofia. Te vejo depois, fica bem — beijei sua testa. Saí da casa dos meus pais com um peso maior do que quando cheguei. Dirigi de volta à mansão, as palavras de meu pai e de Sofia ecoando na minha mente. Estava mais confuso do que nunca, e cada vez mais claro para mim que precisava tomar uma decisão. Ao chegar à mansão, fui direto para meu escritório, sentindo uma pressão crescente. Eu não podia continuar assim, flutuando entre as expectativas da família e os sentimentos por Bianca. As responsabilidades da minha vida na máfia e minha posição na família exigiam que eu fosse racional, mas tudo em Bianca despertava algo irracional em mim, algo que eu não conseguia controlar. Sentei-me na minha mesa, observando a pilha de relatórios e documentos que precisava revisar. Minha mente estava longe disso, e eu sabia que precisava encontrar uma maneira de equilibrar o que sentia com o que era necessário para manter a ordem e a segurança ao meu redor. Por um breve instante, pensei em confrontar Bianca novamente, em falar tudo o que eu sentia, sem reservas, sem esconder. Mas o medo de magoá-la ainda mais me impedia. A idade dela, a diferença entre nós, e o fato de ela ainda estar se descobrindo, eram obstáculos que eu sabia que não poderia simplesmente ignorar. Mas eu precisava proteger Bianca, independentemente do que sentia. Eu não permitiria que ela se perdesse no caos de minha vida ou que alguém a machucasse.
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