Bianca Santoro,
A ideia de uma aula de etiqueta me deixou perplexa. Eu, uma garota que m*l conseguia seguir regras nas ruas, agora estava sendo moldada para agir como uma dama em algum tipo de alta sociedade que Aléssio parecia querer me inserir. Me senti deslocada, irritada e, acima de tudo, desconfortável. Mas o contrato que eu assinara me obrigava a seguir em frente com isso, e essa era uma lembrança constante na minha mente. Se eu quisesse alguma liberdade, teria que aguentar. Cumpro com a minha parte da dívida, e ele com a dele.
A professora Elenice era impecável, como uma daquelas figuras perfeitas de revista. Vestido elegante, corpo esguio e um olhar que parecia me julgar desde o momento que entrei. Ela não era como ninguém que eu já tinha conhecido. Seus olhos me examinavam, e eu sabia que ela estava ali para me moldar. Eu odiava isso.
— Vamos começar com algo essencial: postura e maneiras à mesa. — Elenice começou, sem perder tempo. — Como você se apresenta em um jantar formal, diz muito sobre quem você é.
Eu revirei os olhos internamente, já que para mim era tudo uma besteira. Mas ali estava eu, prestes a passar horas aprendendo a como agir como uma “boa moça”, algo que nunca fez parte do meu mundo.
Ela me observava atentamente, como se pudesse ver cada pequeno movimento errado. Ajustou minha posição na cadeira, mandando-me sentar com as costas eretas, os pés firmemente plantados no chão e as mãos repousando no colo.
— Sempre mantenha essa postura, senhorita Bianca. — Ela disse, com o tom de quem já repetiu aquilo centenas de vezes. — Nunca debruce sobre a mesa e, principalmente, nunca cruze as pernas.
Suspirei de tédio, mas fiz o que ela mandou. Tentar manter aquela postura perfeita era quase uma tortura. Meu corpo pedia para relaxar, mas Elenice não deixava nada passar. Ela corrigia cada pequeno erro, como se a perfeição fosse o mínimo aceitável.
— Está desconfortável? — perguntou ela, com aquela calma irritante.
— Ah, tô só um pouquinho, né? Ficar reta assim não tem nada a ver comigo não, morô?— Respondi, meio debochada, enquanto tentava não escorregar na cadeira e ficar do jeito largada, como eu fazia.
Ela não sorriu.
— Você vai se acostumar, Bianca. — disse ela, com firmeza. — Essa postura não é sobre você se sentir à vontade, é sobre como os outros vão te ver. Isso é o que importa.
Eu estava começando a me irritar, mas ela continuou, sem dar muita atenção ao meu desconforto.
Quando finalmente consegui manter a postura correta por mais de cinco minutos, passamos para a parte dos talheres. Era algo tão fora da minha realidade que eu quase ri.
— Em eventos formais, você sempre começa usando os talheres mais afastados do prato. — explicou Elenice, colocando os talheres à minha frente em uma ordem estranha. — E vai se aproximando dos talheres mais próximos à medida que novos pratos são servidos.
Segurei o garfo e a faca, imitando o que ela fazia, mas me senti desajeitada, como uma criança aprendendo algo completamente inútil.
— Segure o garfo com delicadeza — ela corrigiu, ajustando meus dedos. — Não como se fosse uma arma.
— Não parece que faz diferença segurar assim ou de outro jeito, né? — comentei, tentando disfarçar o quão ridículo aquilo tudo me parecia.
Elenice suspirou, mas manteve o tom calmo.
— Faz diferença. A maneira como você faz até as menores coisas pode dizer muito sobre você. — disse ela.
Eu tentei não revirar os olhos, mas a verdade era que tudo aquilo parecia uma grande perda de tempo. Quem se importa com o jeito certo de segurar um garfo? Mas eu sabia que precisava continuar. A aula não ia acabar até que Elenice decidisse que eu tinha aprendido o suficiente.
Ela me mostrou como cortar a comida de maneira delicada, sem fazer barulho, e como colocar os talheres de volta no prato ao terminar.
— Agora, sobre os talheres após a refeição — continuou ela, com aquela paciência que até me dava sono — Quando terminar, coloque-os juntos no prato, alinhados, indicando que acabou de comer.
Fiz o que ela mandou, mas por dentro, me perguntava o que Aléssio realmente esperava com tudo isso. Ele achava que eu impressionaria alguém com o jeito que eu segurava os talheres?
Depois disso, Elenice começou a me ensinar sobre como agir em conversas formais. Eu não deveria interromper ninguém, e sempre que fosse minha vez de falar, deveria ser calma e educada, evitando assuntos polêmicos, e falar sem gírias.
— Nunca levante a voz — disse ela. — Mesmo que discorde, mantenha a compostura. A elegância está na forma como você lida com as adversidades.
Eu apenas assenti, mas minha cabeça estava longe.
Quando a aula de etiqueta finalmente acabou, me senti mentalmente exausta. Era como se estivessem tentando tirar tudo o que eu era e transformar em algo que eu não reconhecia. Bianca, a garota que fazia o que queria, agora tinha que saber qual garfo usar primeiro. Era ridículo, mas eu sabia que precisava continuar se quisesse sair dessa.
Depois da aula, Lupi apareceu, me informando que à tarde eu iria para a escola. Isso me deixou ainda mais incomodada. Eu tinha largado a escola fazia muito tempo, e agora, de repente, Aléssio queria que eu voltasse. Como se isso fosse fácil.
— Escola? havia esquecido — falei, bufando.
— Sim, senhorita Bianca. O senhor Romano fez questão de organizar tudo. — Lupi respondeu.
Depois do almoço, um dos seguranças estava esperando por mim. Ele não disse nada, apenas me levou até o carro. A viagem foi silenciosa. A ideia de voltar à escola me causava calafrios. Será que as pessoas me aceitariam? Ou eu seria apenas "a nova garota estranha"?
Quando chegamos, o prédio era enorme, cheio de jovens correndo e conversando. Eu me senti totalmente fora do lugar. O segurança me deixou na entrada, sem se importar muito, e ali estava eu, de volta a escola.
As aulas foram estranhas. Sentei no fundo da sala, observando os outros alunos. Eles pareciam à vontade, como se aquele fosse o lugar deles. Para mim, era apenas um ambiente temporário, algo que eu precisava aguentar até que tudo isso acabasse. Mas, me forcei a lembrar que só faltava um ano. Terminei quase todas as matérias antes de largar. Se eu conseguisse me manter focada, logo estaria livre dessa parte também.
Quando as aulas terminaram, voltei para o carro, onde o segurança já me esperava. Ele me levou de volta à mansão, e o dia finalmente terminou. Eu estava exausta, tanto pela aula de etiqueta quanto pela escola. Minha nova vida parecia cada vez mais estranha e sufocante.
Mas aquela, era a única maneira de finalmente conseguir minha liberdade.