Aléssio Romano,
Estou no pior dia da minha vida. Nunca imaginei que fosse dizer isso, mas hoje a dor que sinto é profunda demais, até para mim. Passei o dia inteiro ao lado de Sofia, minha irmã, que estava completamente destruída pelo funeral de nossa pequena Lia. Ela desmaiou, simplesmente não conseguiu lidar com a realidade de enterrar a própria filha. E eu não pude deixá-la sozinha.
Meus pais não estavam presentes no funeral. Eles estão viajando e, por mais que tentassem voltar, não conseguiram chegar a tempo para o enterro. Estão a caminho, mas sei que isso não faz diferença. O que aconteceu hoje vai marcar nossas vidas para sempre. Lia se foi, e não há nada que eles possam fazer, nada que ninguém possa fazer. Só resta a dor.
Agora estou aqui no quarto de Sofia, sentado ao lado da cama, enquanto o médico a examina. Ela está apagada, pálida como a morte. Eu queria ser capaz de afastar a dor dela, mas não posso. Essa é a realidade que enfrentamos: a perda de alguém que significava o mundo para nós.
O quarto está mergulhado em um silêncio quase absoluto. Apenas o som suave do médico se movendo pelo quarto e o ocasional suspiro de Sofia interrompem a quietude. Meu corpo está tenso, mas minha mente está ainda mais pesada. Ficar aqui, sentado, sem poder fazer nada, me dá uma sensação de impotência que odeio. Eu estou acostumado a ter controle. Mas, aqui, não há controle sobre a morte.
— Ela vai ficar bem, senhor Romano. — disse o doutor, finalmente quebrando o silêncio enquanto guardava os instrumentos na bolsa. — Ela só precisa descansar. A pressão emocional foi grande demais para o corpo dela.
Eu assenti, mas por dentro, eu sabia que o descanso não resolveria nada. A dor da perda não desaparece, não com uma boa noite de sono, não com o tempo. Ela apenas se esconde, à espera de um momento de fraqueza para voltar com tudo.
Olhei para Sofia, ainda desacordada, o rosto sereno contrastando com a tempestade de emoções que sei que estava atravessando. Lia era tudo para ela, e agora, sem a filha, o que restava? Eu me perguntava como minha irmã seria daqui para frente. Será que conseguiria se reerguer?
— Obrigado, doutor. — disse, minha voz mais baixa do que o normal. Eu, que sempre falava com firmeza e controle, agora me sentia vulnerável, exposto.
O médico se levantou, fez um último gesto de cabeça e saiu do quarto, deixando-me sozinho com minha irmã. O silêncio voltou, e com ele, a dor de lembrar o que havíamos perdido. Senti um nó na garganta, mas não cedi. Não era meu papel cair agora, especialmente com Sofia nesse estado. Eu precisava ser forte, não importa o que eu sentisse por dentro.
Levantei-me da cadeira e fui até a janela. A noite já havia caído, e as luzes da cidade brilhavam ao longe. A escuridão parecia combinar com meu estado de espírito, e as luzes, distantes, eram como uma lembrança de que o mundo seguia em frente, indiferente à nossa dor. O mundo não para por ninguém, nem mesmo pela morte de uma criança.
Ficar aqui não vai mudar nada, pensei comigo mesmo. Minha presença não trará Lia de volta, nem aliviará a dor de Sofia. Mas, ao mesmo tempo, não consigo sair. Há algo em mim que me obriga a ficar, como se deixar minha irmã sozinha fosse um tipo de abandono. Sempre fui o protetor da família, aquele que resolvia os problemas, o que nunca recuava diante de uma situação. Mas agora, diante de algo tão definitivo quanto a morte, me sentia impotente.
Peguei o celular e vi que havia várias mensagens, algumas de negócios, outras de pessoas querendo me consolar. Respondi brevemente a algumas, mas a maioria foi ignorada. Nada parecia ter importância agora. Não me importava com os problemas do dia a dia, nem com as responsabilidades que estavam se acumulando. Tudo parecia distante, irrelevante, quando comparado ao vazio deixado por Lia.
Minha mente vagou para ela. Minha pequena sobrinha. Como ela sempre sorria, mesmo quando as coisas estavam difíceis, como se quisesse nos tranquilizar. Ela era a luz em nossas vidas, e agora, essa luz havia se apagado. Eu lutei tanto para que ela tivesse uma chance, fiz tudo o que podia, mas, no final, nada foi o suficiente.
A porta do quarto abriu-se suavemente, e Vito entrou, tão silencioso quanto sempre. Ele me encarou por um momento, percebendo o clima no quarto, e fez um gesto discreto de respeito, como sempre fazia quando o assunto era delicado.
— Senhor, sinto muito por sua perda. — disse ele, com um tom de voz mais baixo do que o normal.
Eu assenti, incapaz de dizer qualquer coisa naquele momento. Vito sabia quando era hora de falar e quando o silêncio dizia mais do que as palavras. Ele sabia que agora não havia nada que pudesse ser dito para aliviar o peso da situação.
— Alguma novidade? — perguntei, mudando de assunto abruptamente. Eu não queria falar sobre Lia. Não agora.
— Nada urgente, senhor. Tudo está sob controle. — Vito respondeu, direto. Ele sabia que, mesmo em momentos como esse, eu gostava de manter as coisas funcionando. Controle. Era isso que eu buscava agora, em meio ao caos da perda.
Ficamos em silêncio por mais alguns minutos, até que ele se retirou, deixando-me novamente sozinho com Sofia. Eu precisava me concentrar. A dor ainda estava ali, mas eu não podia deixar que ela me consumisse completamente.
Olhei para Sofia mais uma vez, observando sua respiração tranquila. Ela estava exausta. E eu, por mais que quisesse descansar também, sabia que isso não seria possível. Não enquanto meus pais não chegassem.
Caminhei até a porta, hesitei por um momento e olhei para trás. Minha irmã precisava de mim, e eu precisava ser forte por ela. Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia sentir era o vazio da perda e a dor silenciosa que ecoava em cada canto do quarto. Retornei para a poltrona e fiquei ali por algumas horas, até que meus pais chegaram e ficaram com ela, que ainda estava dormindo sob efeito dos calmantes. Despedi-me dos meus pais e fui para casa.